6

MATEO

Fico olhando pra porta por onde ela saiu, o eco da batida ainda ecoando na cabeça. O quarto parece maior agora, vazio de um jeito que não devia incomodar tanto quanto incomoda.

Passo a mão pelos cabelos, respiro fundo, e sento na beirada da cama. É aí que vejo, jogada no chão, a blusa que ela usou pra dormir, a minha blusa na verdade, ainda com o cheiro dela impregnado no tecido.

— É melhor assim — sussurro, quase no automático, pegando a peça.

Levo até o nariz sem pensar direito, e o cheiro me atinge em cheio. Doce e selvagem ao mesmo tempo, uma mistura que não existe em nenhuma outra mulher que já conheci. Fecho os olhos, e a lembrança da noite volta inteira, sem pedir licença, as mãos dela deslizando pelo meu corpo, minha boca na pele dela, os gemidos, o jeito que ela se movia comigo como se nossos corpos já se conhecessem há anos.

Porra, como foi gostoso, sentir ela, tocar aquele corpo... 

Meu corpo esquenta só de lembrar, meu pau pulsa, está faminto por ela, que inferno. Quero ela de novo. Quero agora, quero amanhã, eu preciso me controlar, mas ela, seu gosto, seu cheiro, o seu olhar, não sai da minha cabeça.

— Não — falo, mais alto dessa vez, sacudindo a cabeça.

Levanto rápido, jogo a blusa de volta no chão como se ela queimasse, e me visto apressado, evitando olhar de novo pra cama, pro quarto, pra qualquer coisa que lembre o que aconteceu ali.

Saio do hotel sem olhar pra trás, entrego a chave pro manobrista, entro no carro e ligo o motor com mais força do que precisava.

Fiz a coisa certa. Repito isso pra mim mesmo enquanto dirijo pelas ruas ainda vazias da manhã. Não vou procurá-la. Não vou vê-la de novo. Foi só uma noite, exatamente como eu disse a ela.

Meu lobo discorda. Violentamente.

Ele se deb**e lá dentro, rosnando, se recusando a aceitar a decisão, insistindo no cheiro dela, na presença dela, numa certeza absurda que não b**e com nada que eu já vivi. Ela é nossa, ele insiste, teimoso, irracional. Você a rejeitou. Que porra você fez?

— Cala a boca — rosno baixo, batendo a mão no volante. — Não vou atrás dela. Ponto final.

Você sentiu, ele continua, implacável. Você sabe o que sentiu.

— Eu disse pra calar a boca!

Grito sozinho dentro do carro, como um maluco, e isso só me deixa mais irritado comigo mesmo. Nunca briguei tanto com meu próprio instinto assim. Nunca precisei. Meu lobo sempre foi obediente, controlado, uma extensão da minha própria vontade, até agora, até essa mulher sem nome bagunçar tudo numa única noite.

Aperto o volante com mais força, tentando afastar o cheiro dela que ainda parece grudado em mim, mesmo tendo trocado de roupa. Ela nem me disse o nome direito. Não sei se é rica, se é filha de alguém importante, se sequer tem família de verdade, ou se simplesmente entrou naquela festa por acaso, convidada por uma amiga qualquer. Não sei nada sobre ela além do cheiro e do gosto da pele dela.

E isso não pode continuar.

Foco no que realmente importa. No que meu pai sempre cobrou, desde que fiquei velho o suficiente pra entender meu papel: encontrar minha luna entre as famílias aliadas, alguém de linhagem forte, de poder reconhecido, alguém que traga vantagem pra empresa, pra alcateia, pro nosso nome. Isso é o que importa. Não uma desconhecida atrevida que mexeu com algo dentro de mim que eu nem sabia que existia.

Chego na mansão quando o sol já está alto, hora do almoço. Os funcionários me cumprimentam ao entrar, e eu apenas aceno, seguindo direto pro escritório do meu pai, sem me anunciar, sem bater.

Abro a porta com mais força do que pretendia, e Túlio levanta os olhos da mesa, surpreso por um segundo antes de recompor a expressão de sempre.

— Mateo. Não esperava... - ele começa, mas sou mais rápido. 

— Preciso da lista dos lobos aliados — corto, direto ao ponto. — Os que têm filhas em idade de união.

Ele fica em silêncio por um instante, me estudando, provavelmente tentando entender a mudança repentina.

— Pensei que não tinha interesse em festas nem em... — ele começa, mas eu não deixo terminar.

— Mudei de ideia. Quero resolver isso logo. Quero conhecer cada uma delas, estudar suas famílias, marcar encontros. Quero saber quem é minha luna o mais rápido possível.

Meu pai não esconde a satisfação, um leve sorriso se formando no canto da boca dele, coisa rara.

— Vou fazer algumas ligações ainda hoje. Assim que tiver a lista organizada, te chamo.

— Ótimo.

Assinto, já me virando pra sair, sem mais palavras trocadas entre nós, nunca precisamos de mais do que isso. Ele volta a atenção pros papéis na mesa, e eu saio do escritório, subindo direto pro meu quarto.

Fecho a porta atrás de mim e fico parado ali por um momento, olhando pro nada.

Vou encontrar minha luna certa. Alguém de família estruturada, com poder de verdade, alguém que meu pai aprove, que a alcateia respeite, que traga benefício real pra tudo que construímos. Vou casar, vou ter meu herdeiro, e essa história toda vai se resolver do jeito certo, do jeito que sempre devia ter sido resolvido.

E essa mulher, essa noite, esse cheiro que ainda insiste em rondar minha cabeça, tudo isso vai virar só uma lembrança qualquer, apagada com o tempo, como qualquer outra coisa sem importância na minha vida.

Eu me caso. Eu esqueço dela.

É só nisso que preciso focar agora.

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