Mundo ficciónIniciar sesiónPOV HELENA VALE
Na manhã seguinte, a Serra de Ravena amanheceu coberta de neblina. A mansão parecia suspensa dentro de uma nuvem fria, e por alguns minutos, olhando pela janela, eu desejei desaparecer dentro dela. Mas Lunas não desapareciam. Lunas vestiam a roupa certa, ajeitavam o cabelo, escondiam olheiras com corretivo e desciam as escadas como se o coração não tivesse passado a madrugada se desfazendo em silêncio. O acolhimento das famílias do norte era uma cerimônia pequena, mas importante. Três famílias haviam solicitado abrigo após conflitos na fronteira, e cabia a Caian, como alfa, aceitar oficialmente aqueles lobos sob proteção da Serra de Ravena. Cabia a mim, como Luna, recebê-los. Era uma tradição antiga, mais simbólica do que política, mas eu sempre levei a sério. Um lobo podia obedecer ao alfa por força, mas era a Luna quem fazia a matilha parecer lar. Caian me esperava no carro. Não falou sobre a noite anterior. Eu também não. Às vezes o silêncio entre duas pessoas não era paz. Era apenas uma forma mais educada de sangrar. O salão de acolhimento ficava em uma propriedade menor, próxima à mata, onde as famílias recém-chegadas passavam os primeiros dias antes de se instalarem em casas definitivas. Quando chegamos, crianças corriam pelo jardim coberto de neblina, mulheres conversavam perto da entrada e homens jovens observavam Caian com aquele misto de respeito e medo que ele sempre provocava. Ele desceu do carro e, automaticamente, estendeu a mão para mim. Olhei para os dedos dele. Depois aceitei. A matilha precisava ver estabilidade, mesmo que eu estivesse me tornando uma mentira vestida de azul. Caian apertou minha mão e se inclinou perto do meu ouvido. — Obrigado. A palavra quase me quebrou pelo absurdo. Obrigada por sempre me escolher. Soltei a mão dele antes que minha loba arrancasse minha pele por dentro. O início da cerimônia correu bem. Sorri para as crianças, abracei uma mãe que chorou ao dizer que não dormia sem medo havia semanas, ouvi um senhor de cabelos brancos prometer lealdade à nossa casa. Caian falou pouco, como sempre, mas sua presença bastava. Ele impunha segurança. Eu oferecia calor. Era assim que funcionávamos. Ou era assim que eu achava que funcionávamos. Até Mirela chegar. Ela apareceu na lateral do salão usando um casaco claro, os cabelos soltos e o rosto pálido demais para ser coincidência. Acompanhava um dos assessores da empresa, mas seus olhos procuraram Caian antes de qualquer outra coisa. E, como se o corpo dele ainda tivesse fios presos nela, Caian percebeu. Aurea ficou imóvel. Não. Eu mantive o sorriso enquanto entregava um pequeno cordão de prata a uma criança de sete anos, símbolo de proteção da matilha. O menino sorriu para mim, tímido, e por um segundo aquela inocência quase me salvou. Então ouvi o assessor sussurrar no ouvido de Caian. — Alfa, a senhorita Fontes pediu para falar com o senhor. Ela diz que é urgente. Minha mão parou no ar. Caian olhou para Mirela. Depois para mim. E ali, naquele intervalo de dois segundos, eu soube que ainda queria que ele me escolhesse. Mesmo depois do recibo, do cheiro, da marca, da noite anterior, da humilhação. Ainda havia uma parte estúpida e apaixonada de mim esperando que ele dissesse: agora não. Estou com minha esposa. Estou com minha Luna. Estou onde devo estar. — A cerimônia ainda não acabou — falei baixo. Caian endureceu. — É rápido. Rápido. Tudo com ela era rápido. Um minuto. Uma conversa. Uma tontura. Um cuidado pequeno. E, ainda assim, cada coisa rápida arrancava um pedaço inteiro de mim. — As famílias estão esperando sua bênção final. — Você pode conduzir. A frase saiu simples. Prática. Como se eu fosse perfeitamente capaz, e por isso descartável. Senti Aurea recuar. Você é forte, ele vai dizer. E Caian disse. — Você é forte, Helena. Consegue lidar com isso por alguns minutos. Não chorei. Não tremi. Não implorei. Só olhei para ele com uma calma tão fria que vi algo se mover no fundo dos seus olhos. — Sim — respondi. — Eu consigo. Ele pareceu aliviado. Aquilo foi o pior. Caian saiu. Atravessou o salão em direção a Mirela, e todos viram. As famílias recém-chegadas. Os guardas. Os anciãos. As crianças. Os lobos que ainda não sabiam o bastante sobre nossa matilha para fingir que aquilo era normal. E eu permaneci no centro do salão, com um cordão de prata nas mãos e o coração tão pesado que parecia impossível continuar de pé. Mas continuei. Porque eu era forte. Porque ele tinha acabado de usar minha força como desculpa para abandonar minha dor. Terminei a cerimônia sozinha. Falei sobre casa, proteção e pertencimento com a voz firme, enquanto minha loba se mantinha encolhida em algum lugar dentro de mim. Recebi agradecimentos. Aceitei abraços. Sorri para crianças. Toquei o ombro de uma mãe que me chamou de “nossa Luna” com tanta gratidão que senti vergonha de estar quebrando por dentro enquanto alguém me via como abrigo. Quando tudo acabou, encontrei Caian no corredor lateral. Com Mirela. Ela estava sentada em um banco, uma xícara de chá entre as mãos, parecendo frágil como porcelana. Caian estava ajoelhado diante dela, falando baixo, a postura protetora demais para um alfa diante de uma simples assessora. Mirela me viu primeiro. Seus olhos baixaram na hora. — Luna Helena, eu sinto muito. Não queria atrapalhar a cerimônia. Aurea mostrou os dentes. Mentira. Caian se levantou. — Ela recebeu uma ameaça. A palavra deveria ter me preocupado. E preocupou, por um instante. — Que ameaça? Mirela apertou a xícara. — Um bilhete. Dizendo que eu deveria deixar o território. Caian olhou para mim como se esperasse que eu entendesse. E eu entendi. Entendi que uma ameaça sem assinatura, sem prova e sem sangue tinha sido suficiente para ele deixar a própria Luna diante de uma matilha inteira. Entendi que o medo de Mirela chegava nele mais rápido que minha vergonha. Entendi que minha dor precisava ser madura, silenciosa, controlada, enquanto a dela podia parar cerimônias. — Já acionou os guardas? — perguntei. Caian pareceu surpreso com minha objetividade. — Sim. — Ótimo. Mirela ergueu os olhos marejados. — Eu realmente sinto muito. O alfa disse que você conseguiria continuar sem ele, mas eu sei que era importante. Era uma frase doce. Cuidadosa. Cruel. Porque ela repetiu para mim o que ele tinha dito para ela. O alfa disse que você conseguiria continuar sem ele. Sorri devagar. — Ele tem razão. Eu consigo continuar sem muita coisa. Caian ficou tenso. Mirela piscou, fingindo não entender. Eu me virei antes que qualquer um dos dois pudesse me alcançar. No caminho de volta para casa, Caian tentou falar comigo três vezes. Na primeira, eu olhava pela janela. Na segunda, fingi responder uma mensagem. Na terceira, apenas disse que estava cansada. E eu estava. Mas não do evento. Estava cansada de ser compreensiva. Cansada de ser forte. Cansada de assistir meu marido correr para cuidar de arranhões invisíveis enquanto deixava minha alma aberta no meio da sala. Naquela noite, quando Caian chegou tarde ao quarto, eu não estava lá. Ele me encontrou no escritório da mansão, sentada diante dos arquivos da Voss & Vale Holdings, com uma pilha de documentos aberta sobre a mesa e a primeira taça de vinho da noite intocada ao meu lado. — O que está fazendo? — perguntou. Não olhei para ele. — Sendo forte. Aurea se moveu dentro de mim pela primeira vez em horas. E, dessa vez, ela não rosnou. Apenas observou. Como se também tivesse entendido que talvez a força que Caian usava para me deixar sozinha fosse exatamente a mesma que um dia me faria ir embora.






