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A Luna do Rei Alfa
A Luna do Rei Alfa
Por: Luna Campbell
01: O cheiro que não era meu

POV HELENA VALE

O jantar já estava frio quando ouvi o relógio marcar meia-noite. O som ecoou pelo salão da mansão Voss como uma provocação. À minha frente, dois pratos postos. Apenas um ocupado.

Outra vez.

Passei o polegar pela borda da taça de vinho sem beber. A vela no centro da mesa queimava até o fim, espalhando o cheiro de cera derretida pelo ar. A lareira crepitava ao fundo, mas nem o calor das chamas conseguia afastar a sensação de vazio que se acumulava naquela casa grande demais.

Caian tinha prometido chegar antes das dez. Eram quase meia-noite. Dentro de mim, Aurea se agitou. Minha loba nunca gostou dos atrasos dele.

— Ele está atrasado — murmurei.

Ela respondeu com uma inquietação quente sob minha pele.

Ele está longe demais.

Fechei os olhos por um instante.

— Está trabalhando.

A resposta soou fraca até para mim. Nas últimas semanas, Caian tinha se tornado uma sequência de ausências. Reuniões que se estendiam. Ligações interrompidas. Explicações rápidas demais. Eu repetia para mim mesma que um alfa carregava responsabilidades que poucos compreendiam. Mas o vínculo entre companheiros ensinava a reconhecer mudanças antes mesmo de existirem palavras para elas.

E alguma coisa tinha mudado.

Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Meu peito apertou. Eu era a Luna da Serra de Ravena. A mulher que sentava ao lado do alfa diante do Conselho, que acolhia famílias feridas, que ajudava a sustentar o peso de uma matilha inteira. Ainda assim, ultimamente eu me sentia como alguém esperando do lado de fora de uma porta que um dia teve minha chave. O som de um carro atravessando a entrada da propriedade fez meu coração disparar. Aurea ergueu a cabeça dentro de mim.

Ele chegou.

O alívio veio primeiro. A raiva veio logo depois. Fiquei imóvel enquanto a porta principal se abria. O cheiro de chuva entrou antes dele. Depois veio Caian. Caian Voss atravessou o hall tirando o sobretudo preto dos ombros. Alto, forte, bonito de um jeito quase cruel. Cabelos castanhos desalinhados pela umidade, barba por fazer sombreando o maxilar, olhos de alfa carregando aquele dourado escuro que um dia me fez esquecer todas as advertências da minha mãe sobre homens poderosos demais.

Quando ele me viu sentada à mesa, parou por um instante.

— Helena.

Meu nome na boca dele ainda tinha poder. Eu odiei isso também.

— Você disse que chegaria antes das dez.

Ele passou a mão pelo cabelo, cansado, e deixou o sobretudo sobre uma cadeira sem se aproximar de mim.

— A reunião se estendeu.

— Outra?

— Território não se administra sozinho.

A frase veio seca. Não agressiva o bastante para ser uma briga, mas distante o suficiente para me lembrar que ele já tinha chegado armado. Caian vinha fazendo isso com frequência: entrava em casa como se eu fosse uma cobrança, não uma espera. Aurea rosnou baixo.

Ele não quer que você chegue perto.

Meu estômago apertou. Levantei devagar, segurando a vontade de perguntar por que ele não tinha avisado. Por que não tinha mandado uma mensagem. Por que eu, a esposa, a Luna, a companheira dele, precisava descobrir o atraso pelo vazio da cadeira.

— Eu sei disso melhor do que ninguém — respondi. — Jantei sozinha de novo.

Os olhos dele passaram pela mesa posta. Pelo prato intocado. Pela vela quase no fim. Por mim. Por um momento, vi algo parecido com culpa. Foi rápido. Rápido demais.

— Você não precisava esperar.

Sorri sem humor.

— Engraçado. Antes você gostava quando eu esperava.

O maxilar dele travou, e eu percebi que acertei algum lugar que ele não queria mostrar. Caian desviou o olhar, caminhou até o aparador e serviu uma dose de whisky como se precisasse colocar alguma coisa entre nós.

— Estou cansado, Helena.

— Eu também.

Ele virou de volta para mim.

— Então por que está começando isso agora?

A pergunta me atravessou. Começando. Como se a distância tivesse sido criada pela minha voz, não pelo silêncio dele. Fiquei olhando para o homem que um dia me puxava para o colo mesmo depois de reuniões exaustivas, só para enfiar o rosto no meu pescoço e dizer que precisava do cheiro da própria casa. O mesmo homem que agora permanecia a três metros de distância, com a gravata frouxa, os olhos impacientes e o corpo inteiro fechado para mim.

Aurea se agitou de novo. Dessa vez, não foi só inquietação. Foi alerta.

Cheiro.

Franzi o cenho antes de entender. O cheiro de Caian sempre vinha primeiro para mim: madeira escura, couro, chuva e o calor selvagem do alfa que minha loba reconhecia como companheiro. Mas havia outra coisa naquela noite. Algo preso na gola da camisa dele. Delicado. Doce. Feminino. Jasmim. Não meu perfume. Não de nenhuma sala da empresa. Não de nenhuma reunião de fronteira. Meu estômago afundou. Dei um passo na direção dele antes de conseguir impedir. Caian percebeu o movimento e endureceu, como se minha aproximação fosse uma ameaça. Aquilo doeu quase tanto quanto o cheiro.

Não é nosso.

A voz de Aurea veio baixa, ferida.

— Onde você estava? — perguntei.

Ele franziu a testa.

— Eu já disse.

— Disse que estava em reunião.

— E estava.

Mente.

A palavra de Aurea me atravessou como garra.

Eu queria não ouvir. Queria que minha loba estivesse exagerando, que fosse ciúme, medo, insegurança. Mas Aurea nunca reagia assim sem motivo. Ela reconhecia Caian como companheiro desde o primeiro dia. Conhecia o cheiro dele melhor do que eu conhecia minha própria pele. E, naquela noite, ela não reconhecia apenas ele.

— Helena, você está me olhando como se eu tivesse cometido um crime.

Respirei devagar.

— Cometeu?

Os olhos dele brilharam.

— Cuidado.

A palavra veio baixa. Não como ameaça física. Caian jamais precisou levantar a mão para impor presença. Era alfa o bastante para fazer uma sala inteira se calar apenas mudando o tom. Mas eu não era uma loba qualquer da sala dele. Eu era a mulher marcada por ele.

— Não fala comigo como se eu fosse uma subordinada sua — falei.

Ele me encarou por alguns segundos. Algo passou pelo rosto dele, uma sombra de irritação, talvez de arrependimento. Depois ele suspirou e pousou o copo vazio.

— Eu não quero brigar.

— Nem eu.

— Então para de procurar problema onde não existe.

Aurea ficou imóvel. Não porque acreditou. Porque se feriu. Não deixe ele diminuir sua dor. Senti a garganta fechar. Abaixei os olhos para a camisa branca sob o paletó. Havia um vinco na gola. Uma marca quase imperceptível perto do botão. Não era batom forte, daqueles que qualquer homem notaria antes de chegar em casa. Era um rosado suave, apagado pelo atrito, pelo tempo, talvez pela pressa de esconder. Meu coração bateu uma vez. Depois pareceu esquecer como se fazia. Caian acompanhou meu olhar. Por um instante, o rosto dele mudou. Foi mínimo.

Mas eu conhecia cada reação daquele homem. Conhecia quando mentia para o Conselho, quando ocultava dor da matilha, quando fingia calma antes de punir um lobo traidor. E, naquela noite, Caian Voss me olhou como quem tinha sido pego. Ele levou a mão à gola.

— Helena...

Meu nome saiu diferente. Mais baixo. Mais cuidadoso. E foi esse cuidado que me destruiu. Porque se houvesse uma explicação inocente, ele teria ficado irritado. Teria perguntado o que eu estava insinuando. Teria me puxado para perto, deixado que eu sentisse sua pele, sua verdade, sua impaciência. Mas ele não fez nada disso. Apenas tocou a gola da camisa e tentou pensar rápido.

— Quem é ela? — perguntei.

O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi resposta. Caian deu um passo na minha direção.

— Você está cansada. Está tarde. Vamos conversar amanhã.

Aurea rosnou.

Covarde.

Eu ri, mas o som saiu quebrado.

— Amanhã?

— Sim.

— Você chega depois da meia-noite com cheiro de outra mulher na pele, uma marca na camisa, e quer que eu durma para conversar amanhã?

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Não transforma uma coisa pequena em guerra.

Pequena. A palavra bateu em mim como um tapa. Aurea avançou dentro da minha mente, os olhos dourados dela brilhando no escuro do meu peito.

Pequena?

A voz dela veio baixa, perigosa, cheia de uma dor que parecia antiga demais para caber em mim.

Ele chamou nossa dor de pequena.

Meus olhos arderam, mas eu não chorei. Encarei Caian, esperando que ele percebesse. Esperando que o vínculo gritasse dentro dele como gritava em mim. Esperando que o lobo dele reagisse à dor da companheira que estava diante dele. Mas Caian apenas parecia cansado. Irritado. Com pressa de encerrar a cena.

— Uma coisa pequena? — repeti.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Mas foi o que disse.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Eu tenho carregado a matilha inteira nas costas, Helena. Pressão do Conselho, instabilidade na divisa, acionistas cobrando decisões, lobos jovens testando autoridade... e quando chego em casa, encontro mais julgamento.

A culpa tentou me morder. Por anos, eu me acostumei a aliviar o peso dele antes de olhar para o meu. Era automático. Caian chegava tenso, eu tocava sua nuca. Ele explodia, eu traduzia sua raiva para a matilha. Ele sangrava, eu costurava. Ele falhava, eu protegia a imagem do alfa. Talvez por isso ele tivesse aprendido que podia chegar quebrado e ainda assim encontrar em mim um lugar inteiro. Naquela noite, no entanto, alguma coisa dentro de mim não conseguiu se mover para salvá-lo. Aurea encostou em mim por dentro, cansada.

Não o salve desta vez.

— Eu não sou mais um problema para você administrar, Caian.

Ele ficou sério.

— Eu sei disso.

— Sabe?

Ele não respondeu. O silêncio voltou para a mesa, para o jantar frio, para a vela morrendo, para o espaço entre nós que parecia maior do que a própria mansão. Caian respirou fundo e pegou o sobretudo.

— Vou tomar banho.

Eu olhei para ele, incrédula.

— É isso?

— Eu não vou discutir nesse estado.

— Nesse estado de culpa ou de cansaço?

Os olhos dele douraram por um segundo, o alfa vindo à superfície. Antes, aquilo teria feito minha pele arrepiar de desejo, de reconhecimento, de vínculo. Naquela noite, só senti frio.

— Cuidado com o que você está insinuando — ele disse.

Dessa vez, a ameaça estava mais clara. E talvez fosse isso que me fizesse calar em outros tempos. Talvez eu respirasse fundo, esperasse o banho, deitasse ao lado dele, fingisse sono e chorasse baixinho sem deixar que ele escutasse. Mas eu permaneci de pé.

— Eu não estou insinuando nada. Estou perguntando.

— Então pergunta amanhã.

Caian subiu as escadas sem olhar para trás. O som dos passos dele desapareceu no corredor do andar superior, e eu fiquei sozinha com a mesa posta para dois, o vinho intocado e um cheiro de jasmim que parecia ter se espalhado pela casa inteira. Meu corpo só tremeu quando a porta do quarto se fechou. Levei a mão ao peito, pressionando o lugar onde Aurea ainda rosnava baixo, ferida e alerta.

— Fala comigo — sussurrei.

Por alguns segundos, achei que ela não responderia. Então a senti se aproximar, como uma sombra branca tocando a parte mais funda de mim.

Ele trouxe outra para dentro do nosso vínculo.

A dor veio tão forte que precisei me apoiar na mesa.

— Não fala isso.

Mas era tarde. Aurea já tinha dado nome ao que eu tentava negar. Eu queria chamá-la de ciumenta. Queria dizer que Caian jamais faria isso comigo, que o homem que me marcou diante da lua não seria capaz de dividir o corpo com outra mulher e depois voltar para casa como se eu fosse apenas mais uma obrigação do dia. Mas minha loba não lidava com mentiras humanas. Ela sentia. E o que ela sentia estava me destruindo. Fui até a cadeira onde Caian havia deixado o sobretudo. Meus dedos pararam sobre o tecido caro antes de tocar.

Não procure, Helena.

A voz de Aurea veio diferente. Não como ordem. Como medo.

— Eu preciso saber.

Já sabemos.

— Não. Eu preciso ver.

Revirei os bolsos com mãos frias, sentindo-me ridícula, pequena, desesperada. A Luna de uma matilha poderosa, esposa de um alfa temido, reduzida a procurar provas no casaco do próprio marido como uma mulher que já sabia a resposta e só precisava sofrer de um jeito mais concreto. No bolso interno, encontrei um recibo dobrado. Um restaurante fora do território central. Duas taças de vinho. Dois pratos. Uma sobremesa.

Horário: vinte e uma e dezessete.

A mesma hora em que Caian deveria estar em reunião. Engoli em seco. O papel tremeu entre meus dedos. Havia algo escrito no verso, em uma caligrafia feminina, delicada demais para ser casual.

"Obrigada por sempre me escolher."

Não havia assinatura. Não precisava. Aurea ficou em silêncio. E, pela primeira vez naquela noite, esse silêncio me assustou mais do que qualquer rosnado.

— Aurea...

Ela demorou a responder. Quando respondeu, a voz dela estava baixa, quase quebrada.

Ele não escolheu apenas ela hoje.

Fechei os olhos, sentindo as lágrimas queimarem.

— O que você quer dizer?

A loba dentro de mim recuou como se a resposta também a ferisse.

Ele deixou de escolher nós.

Olhei para o alto da escada, para o corredor onde meu marido tinha desaparecido, e senti alguma coisa muito fina rachar dentro de mim. Não foi o amor. Ainda não. Foi a confiança. E descobri, com uma dor quase calma, que quando a confiança de uma Luna começa a morrer, nem o vínculo predestinado consegue fazê-la respirar de novo.

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