Início / Lobisomem / A Luna do Rei Alfa / 02: A loba que todos evitavam olhar
02: A loba que todos evitavam olhar

POV HELENA VALE

Caian não voltou para a cama naquela noite. Eu soube antes mesmo de abrir os olhos. O lado dele estava frio. Não apenas vazio. Frio. Passei a mão pelo lençol onde o corpo do meu marido deveria estar e senti um buraco se abrir no peito, lento e silencioso, como se alguma coisa dentro de mim já tivesse entendido antes da minha mente ter coragem de acompanhar. Aurea estava quieta. Quieta demais.

— Ele dormiu no escritório? — perguntei baixo, embora soubesse que ela não precisava ouvir minha voz para entender.

Ela se mexeu devagar dentro de mim, pesada, como uma loba ferida que não queria levantar.

Dormiu longe.

Fechei os olhos com força. Longe. A palavra pareceu maior do que a distância entre o quarto e o escritório da mansão. Caian já tinha dormido fora antes, em noites de crise na fronteira, depois de ataques, quando a matilha sangrava e o alfa precisava permanecer acordado até o último lobo estar seguro. Mas nunca dormia longe por escolha. Nunca de mim.

Sentei na cama e olhei para a porta fechada. Ainda conseguia sentir o cheiro dele no quarto, preso às paredes, às roupas, à minha pele. O problema era que, agora, havia outro cheiro misturado à lembrança. Jasmim. Apertei os dedos contra o lençol. O recibo estava guardado na gaveta da mesa de cabeceira, dobrado como uma ferida que eu tinha medo de abrir de novo. Duas taças de vinho. Dois pratos. Uma sobremesa. A frase escrita atrás.

"Obrigada por sempre me escolher."

Aurea rosnou baixo quando pensei nas palavras.

Não leia de novo.

— Não preciso — sussurrei. — Já decorei.

Levantei antes que a fraqueza me convencesse a ficar ali. A Luna da Serra de Ravena não podia desmoronar porque o marido chegava tarde com cheiro de outra mulher. A Luna da Serra de Ravena tinha compromissos. Tinha reunião com famílias do território. Tinha presença marcada no evento da Voss & Vale Holdings naquela noite. Tinha uma matilha inteira olhando para ela. E talvez esse fosse o pior. Porque, pela primeira vez, eu tive medo de olhar de volta.

Tomei banho, escolhi um vestido azul-escuro de mangas longas e prendi parte do cabelo para trás. Nada exagerado. Nada que parecesse tentativa. Apenas o suficiente para lembrar a todos, inclusive a mim, que eu ainda ocupava meu lugar. Quando desci, Caian estava no hall. Camisa preta. Paletó impecável. Cabelos úmidos. Expressão fria. Por um segundo, quase consegui fingir que nada tinha acontecido. Então ele ergueu os olhos para mim, e o silêncio entre nós falou mais alto que qualquer pedido de desculpas.

— Temos o evento às oito — ele disse.

Não "bom dia". Não "como você está". Não "sobre ontem". Apenas o evento. Sorri devagar, sem humor.

— Eu lembro das minhas obrigações.

O maxilar dele contraiu.

— Helena...

Meu nome veio com aviso. Eu parei no último degrau.

— Não comece uma conversa que não pretende terminar, Caian.

Ele ficou imóvel. Aurea levantou a cabeça dentro de mim.

Diga. Faça ele dizer.

Mas ele não disse. Caian apenas passou a mão pelo botão do paletó, ajustando algo que já estava perfeito.

— Vamos sair juntos.

— Claro — respondi. — Aparências precisam ser preservadas.

Os olhos dele douraram por um instante.

— Você está com raiva.

— Estou acordada.

A diferença pareceu incomodá-lo. Ele me observou por mais alguns segundos, como se procurasse a esposa que teria chorado, perguntado, insistido. Talvez esperasse que eu facilitasse. Que eu puxasse a conversa. Que eu transformasse a culpa dele em algo que ele pudesse administrar. Mas eu apenas caminhei até a porta. O carro até o salão principal da empresa foi silencioso.

A Voss & Vale Holdings ocupava uma construção antiga no centro de Ravena, reformada com vidro, pedra e madeira escura. Para humanos, era uma companhia familiar que administrava reservas ambientais, propriedades rurais, segurança privada e hotéis de luxo na serra. Para os nossos, era muito mais. Era território.

Cada contrato, cada ação, cada terreno comprado escondia rotas de passagem, áreas de caça, limites de matilha e acordos antigos demais para aparecerem em papel comum.

Quando Caian e eu nos casamos, meu sobrenome entrou no império dele. Vale ao lado de Voss. Duas linhagens unidas. Dois poderes misturados. Uma promessa de estabilidade. Na época, ele segurou minha mão diante dos conselheiros e disse que jamais tomaria uma decisão importante sem mim. Naquela noite, entrando ao lado dele no salão iluminado, eu me perguntei em quantas promessas um alfa podia mentir antes da lua cobrar. As conversas diminuíram quando aparecemos. Isso era normal.

Um alfa e uma Luna sempre mudavam o peso de uma sala. Mas, dessa vez, o silêncio veio diferente. Não era respeito. Era cuidado. Como se todos estivessem pisando em vidro. Senti os olhares antes mesmo de atravessar metade do salão. Mulheres desviavam rápido demais. Homens cumprimentavam Caian com firmeza e evitavam permanecer diante de mim por tempo demais. Uma das conselheiras, Agnes, levou a taça à boca quando nossos olhos se encontraram, como se beber fosse mais fácil do que sustentar meu olhar.

Aurea ficou rígida.

Eles sabem.

Meu peito apertou.

— Não — respondi por dentro.

Sabem, Helena.

— Não.

Mas, a cada passo, a palavra dela parecia mais difícil de negar. Caian colocou a mão na base das minhas costas. O toque teria me acalmado em qualquer outra noite. Naquela, fez minha pele se lembrar de que ele ainda tinha o direito de tocar onde talvez outra tivesse tocado antes. Meu corpo endureceu. Ele percebeu.

— Relaxe — murmurou perto do meu ouvido.

Olhei para frente.

— Estou relaxada.

— Sua loba está rosnando.

— Talvez ela esteja vendo melhor do que eu.

A mão dele pesou um pouco mais nas minhas costas.

— Não aqui.

Virei o rosto para ele com um sorriso pequeno.

— Medo de cena, Caian?

A expressão dele fechou. Antes que respondesse, uma voz doce demais atravessou o espaço entre nós.

— Alfa.

Meu corpo soube antes dos meus olhos. O jasmim chegou primeiro. Delicado. Feminino. Quase inocente. Quase. Aurea se levantou dentro de mim com tanta força que precisei prender a respiração.

Ela.

Virei devagar. A mulher que se aproximava era bonita de um jeito cuidadosamente frágil. Cabelos castanho-claros caíam em ondas suaves sobre os ombros. O vestido bege claro a fazia parecer menor, delicada, quase deslocada no meio dos ternos escuros e joias discretas da elite licana. Os olhos grandes carregavam um brilho úmido, como se ela estivesse sempre a um passo de pedir desculpas por existir. Mas o cheiro dela...

O cheiro dela estava na camisa do meu marido. Caian tirou a mão das minhas costas. Foi pouco. Foi rápido. Foi o bastante. Aurea rosnou.

Viu?

Mirela Fontes parou diante de nós e abaixou a cabeça em respeito.

— Luna Helena.

A voz dela era macia. Macia demais.

— Mirela — Caian disse antes que eu perguntasse qualquer coisa. — Filha de Otávio Fontes. Ela está auxiliando nos projetos de expansão das reservas do norte.

Interessante. Ele apresentou rápido. Rápido demais. Como se quisesse controlar a forma como eu conheceria aquela mulher. Inclinei a cabeça.

— Não sabia que tínhamos uma Fontes trabalhando diretamente nesses projetos.

Mirela sorriu, apertando a pequena bolsa contra o corpo.

— É recente. O alfa foi generoso em me permitir ajudar. Depois que meu pai adoeceu, eu precisei assumir algumas responsabilidades.

Adoeceu. A palavra veio pronta para gerar pena. E funcionou em alguns ao redor. Vi uma loba mais velha tocar o braço de Mirela com compaixão. Vi um conselheiro baixar os olhos. Vi Caian ficar sério, como se a fragilidade dela fosse responsabilidade dele. Meu estômago embrulhou.

— Sinto muito pelo seu pai — falei.

E senti mesmo. Eu ainda não era cruel o bastante para ignorar uma dor real só porque vinha da mulher cujo cheiro estava no meu marido.

Mirela ergueu os olhos para mim.

— Obrigada, Luna. O senhor Caian tem sido muito... presente.

A última palavra ficou no ar. Presente. Algo quente e ácido subiu pela minha garganta. Aurea mostrou os dentes dentro de mim.

Ela está marcando território.

Eu encarei Mirela por um segundo a mais do que a educação permitia.

— Que bom que meu marido tem encontrado tempo.

Caian olhou para mim. Mirela piscou, como se não tivesse entendido a lâmina escondida na frase. Ou como se tivesse entendido perfeitamente e escolhido parecer inocente.

— Ele é muito dedicado a todos nós — ela disse.

Todos nós. Sorri.

— Sim. O alfa sempre foi generoso com o que é dele.

O silêncio que caiu foi pequeno, mas nítido. Mirela abaixou os olhos. Caian deu meio passo à frente.

— Helena.

Meu nome saiu baixo, duro. E ali, diante de todos, eu vi a primeira escolha antes mesmo que ela acontecesse. Não foi uma escolha grande. Não teve grito. Não teve abandono. Não teve escândalo. Foi só o tom dele. O aviso direcionado a mim. A proteção direcionada a ela. Aurea recuou como se tivesse sido atingida.

Ele corrigiu você. Não ela.

Eu senti. Senti tanto que precisei fechar a mão ao lado do corpo para não levar os dedos ao peito. Mirela respirou fundo, trêmula.

— Eu não queria causar desconforto. Desculpa. Talvez eu devesse me afastar.

Caian se virou para ela imediatamente.

— Não precisa.

Imediatamente. Como se a dor dela pedisse resposta antes da minha. Meu mundo não desabou naquele instante. Foi pior. Ele apenas inclinou um pouco. Uma rachadura fina. Daquelas que ninguém vê de longe, mas que partem a estrutura por dentro.

— Claro que não precisa — falei, com a voz calma. — Estamos em um evento da empresa. Todos devem permanecer onde se sentem confortáveis.

Mirela sorriu fraco.

— Obrigada, Luna.

A vontade que tive foi perguntar se ela também tinha me agradecido no verso daquele recibo. Mas não perguntei. Ainda não. O restante da noite foi uma sucessão de pequenas torturas. Caian circulava pelo salão com a postura de alfa impecável, cumprimentando acionistas, conselheiros e representantes de famílias aliadas. Eu estava ao lado dele como sempre estive. Sorrindo quando precisava. Falando quando era necessário. Traduzindo sua rigidez em diplomacia, sua frieza em estabilidade.

Por fora, eu era Luna. Por dentro, eu contava quantas vezes o olhar dele procurava Mirela. Uma. Duas. Cinco. Oito. Toda vez que alguém se aproximava dela, Caian percebia. Toda vez que ela ria baixo, ele escutava. Toda vez que ela levava a mão ao braço, à garganta ou à bolsa, como se estivesse desconfortável, o corpo dele reagia antes mesmo que ele decidisse.

Aurea não parava de rosnar.

Ele está atento demais.

— Eu sei.

Com ela.

— Eu sei.

Com nossa dor, não.

A frase me atingiu em cheio. Peguei uma taça de água de uma bandeja e bebi para engolir o gosto amargo da verdade. Foi perto das dez que Agnes, uma das conselheiras mais antigas da matilha, se aproximou de mim. Ela tinha os cabelos grisalhos presos em um coque e olhos que já tinham visto alfas demais caírem por arrogância.

— Luna Helena — cumprimentou.

— Agnes.

Ela hesitou. Agnes nunca hesitava.

— A senhora está bem?

A pergunta pareceu simples. Mas havia pena demais nela. Meu rosto ficou imóvel.

— Por que não estaria?

A velha conselheira empalideceu apenas o suficiente para confirmar o que Aurea já sabia. Eles sabem. Senti o chão se afastar.

— Eu apenas... — Agnes apertou os dedos na taça. — A senhora parece cansada.

— Estou.

— Se precisar de qualquer coisa...

— Eu preciso?

Ela não respondeu. Não precisava. Olhei ao redor. Dois lobos desviaram o rosto rápido demais. Uma mulher que conversava com Mirela me observava com pena. Pena. Aquilo doeu mais do que raiva. Eu não era apenas traída. Eu era comentada. Talvez há semanas. Talvez meses. Talvez todos naquela sala tivessem assistido meu casamento virar um teatro antes de mim. Aurea encostou em mim, mas ela também tremia.

Helena...

— Não agora — pedi por dentro. — Se eu sentir agora, eu caio.

Então não caia.

Minha loba falou com firmeza apesar da dor.

Faça todos lembrarem quem você é.

Respirei fundo. Quando Caian chamou os presentes para o brinde, fiquei ao lado dele no pequeno palco. A luz do lustre caiu sobre nós. Os olhares vieram juntos. Ele falou sobre crescimento, proteção de território, tradição, futuro. Futuro. A palavra na boca dele quase me fez rir. Então Caian ergueu a taça.

— À união que fortalece nossa matilha.

Todos ergueram as taças. Eu também. Mas, antes de beber, meu olhar encontrou Mirela no meio do salão. Ela não olhava para o brinde. Olhava para Caian. Com uma intimidade silenciosa, quase satisfeita. E então ela levou a própria taça aos lábios. No pulso dela, vi um pequeno bracelete dourado. Meu peito parou. Eu conhecia aquele bracelete. Tinha sido comprado por Caian em uma viagem a Évora, anos antes. Uma peça delicada, com uma lua pequena pendurada no fecho. Ele disse que era raro. Que tinha pensado em mim quando viu.

Mas nunca me entregou.

Na época, explicou que a peça havia se perdido com a bagagem. Mirela percebeu meu olhar. Por um segundo, a expressão frágil dela vacilou. Foi mínimo. Quase nada. Mas eu vi. Aurea também.

Mentira.

Caian terminou o discurso sob aplausos. Eu bebi a água como se fosse vinho. E sorri. Sorri porque todos esperavam que eu sorrisse. Sorri porque Mirela esperava que eu quebrasse. Sorri porque Caian ainda acreditava que eu não tinha visto o suficiente. Quando descemos do palco, ele tentou tocar minha cintura de novo. Dessa vez, eu me afastei antes. Os dedos dele ficaram suspensos no ar.

— Helena.

Olhei para ele.

— Estou cansada. Vou embora.

— Eu levo você.

A resposta veio rápida demais, quase automática. Por um segundo, a esperança tentou respirar. Então Mirela deixou a taça cair. O vidro se partiu no chão com um som agudo. Ela levou a mão ao peito, pálida, os olhos cheios de lágrimas.

— Desculpa... eu só fiquei tonta.

Caian virou antes de mim. Antes de qualquer um. Antes até que eu pudesse fechar os olhos para não ver.

— Mirela.

Ele atravessou o espaço até ela. Rápido. Preocupado. Presente. A palavra dela voltou à minha cabeça como deboche.

O senhor Caian tem sido muito presente.

Fiquei parada enquanto meu marido segurava o braço da outra mulher, inclinando o rosto para perguntar se ela estava bem. Mirela balançou a cabeça, frágil.

— Não foi nada. Eu não queria atrapalhar.

Mas sua mão fechou no paletó dele. E ele não se afastou. Aurea soltou um som baixo dentro de mim.

Não veja mais.

Mas eu vi. Vi Caian chamar um guarda. Vi pedir água. Vi dizer que ela precisava se sentar. Vi os olhares da sala recaírem sobre mim, alguns culpados, outros curiosos, todos conscientes demais. Vi o alfa da minha vida cuidar de um mal-estar pequeno como se fosse uma emergência. E vi, com uma clareza cruel, que ninguém achou estranho. Ninguém. Peguei minha bolsa com calma. Agnes se aproximou.

— Luna, quer que eu chame o motorista?

— Não precisa.

Minha voz saiu tão serena que até eu estranhei. Caian olhou na minha direção quando percebeu meu movimento.

— Helena, espere.

Sorri. Dessa vez, não para ele. Para a sala inteira.

— Cuide dela, alfa.

O rosto dele endureceu. Mirela abaixou os olhos, mas não antes que eu visse o brilho breve de vitória ali. Saí antes que minhas pernas falhassem. O ar frio da noite me atingiu do lado de fora, e só então percebi que estava prendendo a respiração desde o brinde. Caminhei até o carro sem olhar para trás, cada passo firme o bastante para sustentar a mentira de que eu ainda estava inteira. Quando entrei no banco traseiro, o motorista me olhou pelo retrovisor.

— Para a mansão, Luna?

Olhei para as janelas iluminadas do salão. Lá dentro, meu marido ainda estava com ela.

Com Mirela Fontes. Com o cheiro de jasmim.

Com o bracelete que deveria ter sido meu.

— Sim — respondi.

O carro começou a se mover. Aurea permaneceu em silêncio por quase todo o caminho. Quando as luzes da empresa desapareceram atrás das árvores, senti minha loba se aproximar devagar. Não rosnava mais. Não ameaçava. Não lutava. E isso doeu mais.

— Fala comigo — pedi.

Ela demorou. Quando falou, sua voz veio baixa, cansada, quase sem fúria.

Todos olhavam para nós como se já soubessem onde ele dormiria hoje.

Apertei os dedos contra a bolsa até as unhas machucarem minha palma.

— Não diz isso.

Aurea encostou em mim por dentro, triste.

Você pediu para eu falar.

Virei o rosto para a janela, encarando a floresta escura passar como uma sombra sem fim. Eu tinha visto o cheiro. Tinha visto a marca. Tinha visto a frase. Agora, tinha visto a mulher. E, pior do que tudo, tinha visto a sala inteira desviar o olhar. Naquela noite, entendi que talvez a traição de Caian não tivesse começado quando ele tocou Mirela. Talvez tivesse começado quando todos ao nosso redor aprenderam a fingir que eu não estava sangrando.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App