Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV HELENA VALE
Caian voltou para casa quase três da manhã. Eu não estava dormindo, mas também não estava esperando. Havia uma diferença entre as duas coisas, e naquela noite ela pareceu importante demais para ser ignorada. Eu estava deitada do meu lado da cama, ainda com o cheiro do salão preso no cabelo, ainda com o eco do vidro quebrando na cabeça, ainda com a imagem de Mirela segurando o braço dele como se aquele lugar pertencesse a ela. Não tirei o vestido quando cheguei. Não consegui. Apenas sentei diante do espelho, encarei a mulher de olhos vermelhos que me encarava de volta e tentei reconhecer nela a Luna que todos cumprimentavam com respeito poucas horas antes. Aurea ficou quieta por muito tempo. Eu senti quando Caian entrou na mansão. Senti o peso do passo dele no andar de baixo, o cheiro de chuva, whisky e jasmim subindo pela casa como uma verdade que ninguém tinha coragem de nomear. Meu vínculo reagiu primeiro, porque o corpo era idiota o bastante para reconhecer o companheiro mesmo quando a alma queria se proteger dele. O coração apertou, a pele esquentou, aquela parte de mim que ainda era dele se moveu com uma saudade humilhante. Fechei os olhos e apertei os dedos no lençol. Ele voltou. A voz de Aurea veio baixa. — Eu sei. Com ela na pele. Não respondi, porque responder seria admitir que eu também tinha sentido. A porta do quarto se abriu minutos depois, e eu mantive os olhos fechados, fingindo uma paz que não tinha. Caian parou na entrada. Eu soube pelo silêncio. Ele não veio até a cama. Não tocou meu ombro. Não pediu desculpas por ter ficado. Apenas ficou ali, parado, como se não soubesse o que fazer com uma esposa que não tinha esperado sentada no escuro para cobrar explicações. — Helena. Abri os olhos devagar, mas não me virei. — Ela melhorou? O silêncio dele respondeu antes da voz. — Mirela teve uma queda de pressão. Eu não podia simplesmente deixá-la lá. Aurea rosnou dentro de mim, mas o som saiu cansado, sem a força feroz da noite anterior. Sempre ela. Eu virei o rosto o bastante para vê-lo. Caian estava sem o paletó, a camisa dobrada nos antebraços, o cabelo bagunçado como se tivesse passado a mão nele muitas vezes. Havia cansaço em seu rosto. Talvez preocupação. Talvez culpa. Talvez apenas incômodo por precisar se explicar. — Eu fui embora sozinha — falei. — Você saiu sem me esperar. A frase me fez rir, mas não foi um riso bonito. — Interessante como, na sua versão, o problema começa quando eu saio. Não quando você fica. O maxilar dele contraiu. — Você fez aquilo diante de todos. — Aquilo o quê? Ir embora? — Me constranger. Fiquei alguns segundos olhando para ele, tentando entender se Caian realmente tinha escutado a própria frase. Talvez tivesse. Talvez o problema fosse justamente esse. Para ele, a noite não tinha sido sobre eu descobrir a mulher cujo cheiro estava na camisa dele, nem sobre a matilha inteira me olhar como se eu fosse a última a ser avisada da minha própria humilhação. Para ele, a noite tinha virado sobre o constrangimento dele. Sentei na cama devagar. — Eu constrangi você? Caian soltou o ar pelo nariz, impaciente. — Não distorce. — Eu estou tentando acompanhar. Você passou a noite cuidando de Mirela depois de me deixar sozinha em um salão onde todo mundo parecia saber mais do meu casamento do que eu, mas sou eu que distorço? Algo passou pelos olhos dele quando mencionei “todo mundo”. Uma sombra rápida demais para ser arrependimento e pesada demais para ser surpresa. Aurea se levantou dentro de mim, atenta. Ele sabe que sabem. Meu estômago afundou. Caian desviou o olhar primeiro. — Você está machucada e está procurando culpados. A frase atravessou a pouca paciência que ainda me restava. — Eu encontrei um recibo. Ele ficou imóvel. — No seu sobretudo — continuei, e minha voz saiu baixa, quase calma. — Duas taças de vinho, dois pratos, uma sobremesa, no horário da sua reunião. E uma frase atrás. “Obrigada por sempre me escolher.” O rosto de Caian não se abriu em surpresa. Não havia susto. Não havia indignação. Havia apenas aquele silêncio cuidadosamente montado de quem procura a melhor maneira de fazer uma verdade parecer menor. Aurea sussurrou: Viu? Eu tinha visto. E ainda assim doeu. — Helena… — Não mente. Dessa vez, ele me olhou. — Não é o que você está pensando. Eu quase sorri. Quantas mulheres antes de mim tinham ouvido essa frase? Quantas esposas humanas, lobas, Lunas, amantes traídas, companheiras predestinadas? Não é o que você está pensando. Como se o pensamento fosse o problema. Como se a dor tivesse nascido da minha imaginação e não do cheiro de jasmim colado nele. — Então me diz o que é. Ele abriu a boca. Fechou. E eu tive minha resposta. Por um instante, o quarto pareceu menor. A cama grande demais. O vínculo apertado demais. Eu respirei fundo porque, se não respirasse, eu choraria, e eu não queria dar a ele o alívio de lidar com lágrimas. Lágrima ele saberia administrar. Minha calma, não. — Amanhã temos o acolhimento das famílias do norte — falei, mudando de assunto porque eu não conseguiria arrancar uma confissão dele naquela noite. — Você precisa estar comigo. Caian franziu o cenho, surpreso com a mudança. — Eu sei. — Sabe mesmo? — Helena. — Não. Me responde. Você vai estar comigo ou vai surgir outra emergência da Mirela no meio do caminho? O dourado dos olhos dele brilhou. — Você está sendo injusta. Aurea rosnou. Ela sangra e ele chama de injustiça. Levantei da cama, sentindo o vestido pesar no corpo. — Dorme onde quiser, Caian. Passei por ele antes que pudesse me tocar. Ele segurou meu braço com cuidado, mas o cuidado dele já não me enganava como antes. Olhei para a mão dele em mim, depois para seu rosto. Caian soltou devagar. — Você não precisa transformar isso em uma guerra. — Eu não estou transformando nada. Só estou começando a enxergar o campo. Saí do quarto e dormi no antigo quarto de hóspedes pela primeira vez desde o nosso casamento. Ou tentei dormir.






