Capítulo 3
(Ponto de Vista de Kennedy)

— Ei, Kennedy! Você está incrível, garota! Acho que você fica mais gata cada vez que eu te vejo.

— Tommy, você me viu ontem… No treino… Quando eu chutei a sua bunda. — Eu não tinha exatamente chutado a bunda dele, mas eu não tinha perdido e ainda o fiz trabalhar por cada movimento.

— Não posso negar que isso anda melhorando a cada vez também. — Ele fechou os olhos e sorriu, e nós apenas caímos na risada.

— Você é tão idiota! — Falei para o nosso futuro Delta, enquanto seguia rindo. — Sério que essa cantada funciona com alguma garota?

— Eu guardo minhas melhores falas para você, até eu achar minha companheira, claro. Aí eu nem vou precisar de cantadas, porque ela vai me amar de qualquer jeito. — Ele colocou a mão sobre o coração.

— Nossa… Que sortuda. — Fingi vomitar em cima do Jason, que só riu.

— Você devia agradecer que a Deusa da Lua vai obrigar alguém a ficar com você pra sempre. Caso contrário, eu não sei se alguém teria paciência para te aguentar por tanto tempo. — Ben soltou um sopro de riso. Eu não sabia se já tinha visto nosso amigo durão demonstrar qualquer emoção tão claramente, visto que ele era um cara realmente legal quando as pessoas o conheciam de verdade. Para o mundo exterior, porém, ele parecia rígido e silencioso, mas aquilo funcionava como charme, considerando a quantidade de garotas que tentavam fazê-lo se abrir, como se quisessem ‘consertá-lo' ou ‘salvá-lo'. Para mim, ele não era quebrado, apenas retraído. E somente a companheira dele teria acesso àquele lado que ele guardava tão bem.

Logo, seguimos para dentro da escola, prontos para começar o primeiro dia do nosso último ano.

-

A primeira semana de aula correu como eu já esperava. As garotas maldosas continuaram falando coisas desagradáveis, porém os caras não deixaram que aquilo fosse longe demais. Eles só não intervinham tão rápido quanto antes.

Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, o fato de eu ser humana e melhor amiga do filho do Alfa foi tema de fofoca, e, independentemente da espécie, raça ou poderes sobrenaturais, adolescentes podiam ser completos idiotas. Por isso, os meninos entravam no meio para me proteger, mas aquilo só piorava a situação. Eu virava um alvo ainda mais fácil, como se fosse fraca ou vulnerável demais.

Depois do acidente, eu mal conseguia sair da cama, e a hostilidade na escola só piorava tudo. Jeremiah me arrastava para o treino para garantir que eu saísse de casa, e, com o tempo, aquilo virou meu refúgio, principalmente quando minha depressão avançou para a fase de raiva do luto. Em um desses treinos, uma garota perdeu a linha depois que começaram a rir dela. Uma pegadinha que ela armou contra mim saiu pela culatra e ela acabou passando parte do dia com xarope de bordo na calça.

Assim, ela partiu para a vingança publicamente. Como eu era humana, deduziu que eu não teria habilidade o bastante para lutar, mesmo treinando todos os dias com eles. Primeiro erro. E, por ser loba, achou que não precisaria fazer esforço nenhum. Segundo erro. Eu a venci sem qualquer compaixão e, desde então, passei a treinar com os rapazes como futura guerreira, além das aulas de autodefesa no estúdio da minha mãe.

Havia coisas que eu não podia fazer, como me transformar em uma criatura gigantesca, mas eu continuava treinando com eles até quando estavam em forma de lobo, o que me deixou mais rápida e muito mais atenta. Eu achava que eles pegavam leve comigo, mas as garotas invejosas não faziam o mesmo, e, por causa disso, meu conjunto de habilidades acabou ficando mais variado e eficiente.

Além disso, eu vinha trabalhando com os treinadores para desenvolver meus outros sentidos, tratando cada um como um músculo a ser fortalecido. Nesse ínterim, percebi que tinha talento para rastrear e para despistar rastreadores, mesmo aqueles com o faro aguçado dos lobos, tanto que consegui até enganar o Jeremiah, que era um dos mais fortes por carregar sangue de Alfa.

— Então, sobre o que exatamente é essa reunião? Quero dizer, todas as alianças estão boas, certo? — Tommy perguntou ao Jer enquanto eles circulavam um ao outro no ringue de combate depois da escola.

— Acho que é mais para preparar a mim e os outros futuros Alfas para assumir. Sabe, conhecer os outros Alfas, fortalecer relações, esse tipo de coisa. Eu conheço a maioria deles desde criança, então não vai ser tão ruim. É mais uma formalidade. — Jeremiah desviou de uma sequência de golpes, porém não reagiu rápido o bastante, já que sempre falava com as mãos, e acabou derrubado por uma rasteira antes de atingir o chão com força. Na sequência, ele se recuperou, rolou para longe antes que Tommy acertasse outro chute, empurrou o pé dele e o desequilibrou, levantando-se para contra-atacar.

No entanto, antes que eles ficassem mais agitados, Jason se aproximou e tocou no ombro do Tommy, trocando de lugar para lutar com Jer. Nós sempre nos revezávamos para fortalecer a resistência dele e, naquela rodada, eu tinha começado. Acabei acertando um direto excelente, embora ele tivesse me derrubado logo em seguida com um soco nas costelas. Talvez eu tivesse até escutado algumas delas estalando, porém permaneci calada porque, da última vez em que pensaram que eu me machucara de verdade, fiquei um mês inteiro sem que ninguém aceitasse treinar comigo. Eu vinha buscando nossa curandeira na clínica para encontrar maneiras de acelerar minha recuperação e evitar ficar doente, já que os lobos não lidavam com enfermidades nem demoravam para se curar, regenerando ossos em poucos dias e arranhões em poucas horas. No entanto, meu corpo humano precisava de bem mais tempo, embora as ervas e os chás da curandeira deixassem tudo mais rápido e diminuíssem quase toda a dor.

— Quando você viaja? — Jason perguntou enquanto continuava circulando. Nosso surfista residente, com cabelo loiro-areia e olhos escuros, era a calma gentil que equilibrava a rigidez militar do Ben e a loucura divertida do Tommy.

— A gente parte hoje à noite, então fiquem de olho nela. — Ele apontou para mim, e eu quase cuspi a água que estava bebendo.

— O que você quer dizer com 'ficar de olho em mim'? Por que eu precisaria de babá? Você só vai passar o fim de semana fora. — Mesmo tentando manter a calma, eu percebia que estava falhando completamente e isso só piorava, já que eu detestava quando eles agiam assim.

— Você sabe que tem havido ataques de invasores pelas fronteiras do sul. Eles não chegaram muito perto, mas agora que estou em transição para assumir o título de Alfa, ficamos vulneráveis, e você se torna um alvo por vários motivos. Os outros novos Alfas perceberam algo parecido. É apenas uma precaução, eu prometo.

— E quais seriam esses motivos exatamente? — Eu não pretendia desistir daquela conversa, pois ele vinha demonstrando uma obsessão crescente em me proteger, algo que eu não conseguia compreender. Havia alguma coisa acontecendo e eu queria entender o que era.

— Você sabe por quê, Ken, por favor… — Ele pediu quase em súplica, já prevendo o rumo daquela discussão, porém mal conseguia focar em mim graças ao Jason, que insistia em treinar as técnicas de agarramento enquanto o resto do grupo usava minha presença para tirar a concentração dele.

— Não. Você vai ter que desenhar essa merda para mim, porque eu não entendi nada.

Ele bufou e lançou um olhar para os outros, como se esperasse que alguém o resgatasse, ainda que todos soubessem que não deveriam se meter no meu caminho, mesmo sem fazerem muito esforço para se afastar.

— Bom. Isso não pode se repetir, porque eu não tenho condições de suportar e nós tampouco conseguimos. — Ele gesticulou para os meninos.

— Je-re-mi-ah… O quê… — Pronunciei o nome dele com cuidado. — Não pode se repetir?

— Você não pode ser levada de novo! — Ele rosnou entre os dentes cerrados.

— Nada aconteceu da última vez. — Minha voz subiu. — Eles ficaram comigo por, no máximo, dois dias. Você precisa superar isso.

— Mentira! Você foi alvo por minha causa… E isso não pode voltar a acontecer!

Mudei de abordagem.

— E quem teve que me resgatar então, hein? — Eu tentei agarrar qualquer vestígio de calma, mesmo sem senti-la, e, apesar de compreender os sentimentos dele, eu não estava disposta a tolerar aquelas respostas desmedidas.

No mesmo instante, ele respirou fundo e parou de lutar com Jason.

— Você escapou sozinha, ok? A gente sabe disso, todos nós sabemos. Mas isso não importa. Você é uma humana que estava desprotegida. — Ele rosnou para mim.

— Como é que é? Eu era e sou uma guerreira dessa alcateia. Qualquer pessoa na minha posição, naquele lugar, poderia ter sido levada. Ou eu não sou mais boa o bastante para merecer esse título?

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— Você sabe que é, eu só… — Ele resmungou, frustrado. — Eu não posso te perder. As pessoas sabem que você é importante para mim e, por isso, vão te mirar, ainda mais pelo fato de você ser humana. — Ele esfregou o rosto.

— Ben, Jason e Tommy também são importantes para você. Vai colocar uma equipe de babás neles também?

— O quê? Não, claro que não. Isso é o trabalho deles. Eles só são… — Ele parou novamente, percebendo que estava perdendo a discussão.

— Só o quê? Homens? Lobos? — Dei de ombros. — Eu sei que você se preocupa comigo, mas eu não sou burra a ponto de correr para o perigo. Então pare de me tratar como um pedaço de vidro prestes a quebrar. E quanto à sua futura Luna? Vai trancá-la dentro de casa quando encontrá-la? Eu adoraria ver essa briga.

— Mas você é frágil, Ken, ah… — Ele pulou na minha frente, segurou meus ombros e me puxou contra o peito, prendendo meus braços naquela espécie de abraço-controle que ele sempre usava. — Você é mais frágil do que nós. Um dos novos Alfas estava levando a companheira para a própria alcateia e o carro dela foi atacado no caminho. Ela ficou bem, mas muita gente saiu ferida e ela foi mantida como refém. Ela lutou, Ken, lutou muito, e ainda assim foi capturada.

Eu não podia argumentar que eles eram menos quebráveis do que eu, porque aquilo era um fato científico. E uma Luna era o coração da própria alcateia, o que fazia um Alfa mais forte, mas também podia destruí-lo por completo. No entanto, ele parecia esquecer constantemente que eu não era a Luna dele…

— Eu vou ficar bem. — Murmurei, sem compromisso.

— Ah é? E como estão as costelas?

— Quê…?

— Não tente mentir. Eu senti elas racharem. Não acho que estejam quebradas, já que você ainda consegue gritar comigo, mas esse é o ponto. Para mim, você é como uma irmã e tem uma importância enorme. E claramente está precisando da curandeira. — Ele apertou meu lado e eu senti a pontada na hora. — Vamos.

— Não! Eu vou ficar bem em alguns dias. A curandeira Gwen me deu algo para acelerar a cura. Então, eu vou estar nova para chutar a sua bunda quando você voltar.

— Ou vamos agora… Ou eu faço um vínculo mental com a mamãe.

Ao ouvir isso, eu engasguei.

— Golpe baixo, Jer.

— Vamos, Ken. A gente te leva para ser examinada e depois ele paga alguma coisa para a gente comer, só para garantir que você vai se sentir melhor. — Tommy se meteu no meio da conversa, completamente pronto para ir, com o material já arrumado, e, ao checar as horas, percebi que estávamos discutindo mais tempo do que eu tinha percebido.

— Aqui, Kennedy. — Ben me entregou minha mochila. "Pelo visto, estávamos indo mesmo…" Assim, os segui de má vontade até o carro do Jeremiah, já que sabia que, se demorasse muito, alguém acabaria me pegando e jogando lá dentro como se eu fosse um brinquedo.

Eram duas pequenas fraturas, e os meninos juraram guardar segredo, porque a tia Beth sempre ficava absurdamente protetora quando eu me machucava, pior até do que o próprio Jeremiah, e eu vivia cheia de hematomas e arranhões. No fim das contas, era quase um milagre ela ter me deixado treinar com a alcateia, embora eu achasse que ela sabia que eu daria um jeito de entrar de qualquer maneira, já que os meninos, e provavelmente o tio James, apoiariam completamente a anarquia. Eu também passei a vida tendo aulas com minha mãe, então eu não era desastrada nem fraca, apenas humana, e eu sempre jogava duro, sempre, como se carregasse um pouco de loba dentro de mim.

Quando entramos outra vez na casa da alcateia, encontramos a tia Beth com várias pizzas já colocadas à nossa espera, e, embora o Tommy tivesse nos parado no caminho da curandeira para comer hambúrguer, os meninos se lançaram para cima da comida assim que a avistaram.

A tia Beth veio até mim enquanto o tio James e o Delta Drake levavam as malas para o lado de fora.

— Voltamos em alguns dias, querida. — Com os olhos brilhando naquela preocupação de sempre, ela me puxou para um abraço.

— Sério, eu vou ficar bem. Além disso, tenho a boy band para me fazer companhia. — Apontei o polegar por cima do ombro para Tommy, Ben e Jason, que estavam sentados no balcão devorando uma pizza. — É melhor ir logo, senão eles não vão deixar nada para mim. — Dei outro abraço nela.

Em seguida, aproximei-me do balcão e dei um tapa na mão do Tommy antes que ele alcançasse a última fatia de pizza de queijo, o que o fez rir feito uma criança. Então, senti braços fortes me envolverem por trás e me apertarem com firmeza.

— Te amo, Ken. Eu deixei uma camisa no seu quarto. Só por garantia. — Ele sussurrou no meu ouvido.

— Obrigada. Também te amo. — Encostei as costas nele e apertei o braço enorme dele com a minha mão. Depois disso, ele se foi.

Simplesmente… Se foi.
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