Capítulo 4
(Ponto de Vista de Kennedy)

— Então, se o gato saiu… O que os ratos vão fazer? — Tommy provocou.

— Esta ratinha tem lição de casa para fazer e o Beta me deu algo para testar neste fim de semana, então vamos brincar de esconde-esconde. — Todos me encararam na hora. E, pelas expressões chocadas, percebi que eu teria que lutar pela minha liberdade.

— Não é uma boa ideia, Ken. Você ouviu o Jeremiah. Ele vai surtar se descobrir que deixamos você sozinha na floresta. — Ben tentou encerrar o assunto antes mesmo de começarmos.

— Foi ideia do seu pai! Ah, qual é, Ben! Por favor?

— É… Não.

— Jason, me ajuda... Foi um trabalho passado pelo Beta. Vocês podem conferir com ele!

— Posso garantir que ele não te daria essa tarefa justo no fim de semana em que o Alfa, a Luna, o Gama, o Delta e o Jeremiah estão fora. Até ele sabe o que o Jer vai fazer se algum de nós permitir isso. E ele estará ocupado administrando toda a alcateia por dois dias, então ninguém vai supervisionar. Nem chance. Eu te amo, Ken, mas eu gosto ainda mais das minhas bolas. — Ele riu.

— Credo… Tommy? O que você diz?

— Se eles estão fora, eu também estou. Você dá trabalho quando entra no modo teste, e isso meio que faz meu cérebro doer.

— Sério? Que saco… Traidores! — Eu já esperava aquela resposta, mas ainda assim valia tentar. — Vou me trocar. A gente ainda vai ter noite de filme? Ou nem isso estou autorizada a fazer, já que Jeremiah não vai estar presente? — Afastei-me antes que eles pudessem dizer qualquer coisa, já que, mesmo não sendo culpa deles, aquela sensação de estar presa me consumia. Ficou evidente para mim que eu ainda não tinha provado meu valor, e, por isso, eu apenas teria que intensificar meu treinamento.

— Relaxa, vamos ver o filme. — Tommy gritou pelo corredor. — Você vai usar aquela coisa sexy que eu te dei de Natal? — Virei para encará-lo com um olhar maligno, mas perdi a postura quando ele arqueou as sobrancelhas.

— Nem em um milhão de anos, traidor. — Sorri. — Pela sua total incapacidade de criar coragem para me ajudar, eu vou usar um monte de camadas de roupa. — Virei para ir ao meu quarto quando ouvi ele murmurar:

— Camadas tornam tudo mais interessante… Vai ser tipo desembrulhar um presente. "Um completo tarado!"

O fim de semana inteiro passou sem que fizéssemos quase nada e eu mal saí do meu quarto, quem dirá da casa da alcateia, já que isso evitava o interrogatório inevitável sempre que eu tentava sair. Mantive-me afastada dos meninos e, conforme o Jeremiah permanecia longe, minha irritação aumentava por me sentir presa, mesmo sabendo que eles não mereciam carregar o peso da minha frustração.

No domingo, a tia Beth me ligou, enquanto os outros meninos receberam um vínculo mental do tio James. Eu não tinha acesso a esse vínculo por não ser oficialmente parte da alcateia. Os anciãos haviam encontrado registros dizendo que humanos não eram capazes de suportar um vínculo de alcateia e que tentar poderia me matar. A tia Beth, claro, rejeitou a possibilidade na mesma hora, sem sequer abrir espaço para debate.

Algo tinha acontecido e eles precisaram ficar mais um dia, e isso não combinava com o jeito dela, já que a tia Beth raramente era tão vaga, embora talvez houvesse outras pessoas por perto e esse "algo" não fosse de conhecimento geral. Eu sentia falta do Jeremiah e os pesadelos estavam piorando. Os meninos sabiam disso, mas era só mais uma daquelas coisas que jamais comentávamos.

Depois da ligação, o Ben passou a noite comigo sem fazer perguntas e sem esperar o pesadelo acontecer, apenas me acompanhou até o quarto em silêncio, deitou atrás de mim e me envolveu enquanto eu agarrava a camisa do Jer, respirando aquele cheiro que já começava a desaparecer após dois dias. Os pesadelos sempre pioravam quando eu não esperava que o Jer estivesse longe, e, mesmo sem entendermos a conexão que compartilhávamos, era como se fôssemos gêmeos de verdade, capazes de sentir as emoções um do outro e de nos comunicar sem falar ou usar o vínculo mental, como se tudo fosse instintivo.

A pior parte era que eu não tinha recebido nenhuma mensagem do Jeremiah havia dois dias, e eu nem me lembrava de alguma vez termos ficado mais de 24 horas sem falar ou trocar mensagens. Nada parecia errado, embora algo tivesse mudado de forma evidente, algo tão palpável no ar que me deixava profundamente inquieta.

A segunda-feira na escola se arrastou, já que, mesmo com o Ben tentando me tranquilizar, o pesadelo girava sem parar na minha cabeça e eu não conseguia escapar daquele ciclo. Estávamos ambos cansados, mas ele sabia esconder, então adotei sua postura e atravessei o treino da manhã e a primeira aula em silêncio absoluto.

Eu estava perdida nos meus pensamentos depois de trocar os livros no armário para ir para a segunda aula, quando ouvi uma voz:

— Estava ocupada demais se divertindo ontem à noite? Você está meio acabada, mas talvez seja assim que você gosta. É assim que você mantém todos aqueles garotos entretidos? Espero que eles te paguem bem pelos serviços, humana.

— Tão engraçadinha, Janelle. Fico feliz em ver que nosso sistema educacional não foi desperdiçado com você. — Eu me afastei sem nem olhar para ela, certa de que levaria alguns minutos até perceber que eu a chamara de burra, tempo mais do que suficiente para eu chegar à próxima aula.

— Elas ainda estão nessa? — O Jason perguntou do assento atrás do meu e eu praticamente pulei, porque aquele ninja infeliz sempre aparecia do nada.

— Sim. Essa história é velha, mas elas retomam essa merda toda vez que o Jer fica longe e elas não têm mais assunto. Pelo visto vocês não são intimidadores o suficiente para afastá-las só de aparecer, então tratem de melhorar isso. — Dei um sorriso fraco.

— Bom, pelo menos seu humor está funcionando. Ah… Temos que ir. Agora.

— Espera, o quê? A gente acabou de chegar e a aula está prestes a começar. — No entanto, ele apenas me ignorou completamente, se levantou e pegou a mochila dele e a minha. "Mas que inferno?"

— Sr. Jones, desculpa interromper. O Alfa precisa da gente. É urgente. — Ele apontou a cabeça na minha direção, sem tirar os olhos do professor.

— Vou precisar de confirmação disso, Jason, até o fim do dia.

— Sim, senhor. — Foi tudo o que ele respondeu ao me puxar pelo braço, praticamente me arrastando para fora da escola.

— Mas que merda você está fazendo… Jason? Qual é a pressa?

— O Alfa mandou você ir para a casa da alcateia agora e pediu para eu te levar. O resto dos meninos já está lá.

Assim que entramos no carro, ele dirigiu para a casa da alcateia depressa demais, algo estranho vindo do Jason, já que ele não era exatamente o tipo de ser que perdia o controle.

— Jason, o que está acontecendo? Todo mundo está bem? — Minha mente começou a disparar, imaginando algo ruim com tia Beth, Jeremiah ou até o tio James. — Jason, fala comigo, o que está acontecendo? Eu estou surtando aqui. — Com isso, ele finalmente olhou para mim. — O que aconteceu? — As lágrimas ameaçavam e eu nem sabia por quê ainda.

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— Ah, merda. Foi mal, Ken, nem passou pela minha cabeça. Mas, olha, todo mundo está bem, pelo menos pelo que eu sei. Não disseram que alguém se machucou, e ele sempre contaria primeiro. O Alfa James só avisou que tinham novidades e que a gente precisava chegar rápido. Foi só isso, eu prometo.

Fiquei olhando pela janela, tentando impedir as lágrimas de caírem até conseguir entender o que estava acontecendo, embora aqueles dez minutos de viagem parecessem intermináveis e meu coração não se ajustasse de volta ao ritmo normal. "Eu só precisava ver eles, e tudo ficaria bem…" Era o que eu me dizia sem parar enquanto subíamos a estrada e eu reconhecia os carros familiares na entrada, junto de um SUV branco e elegante que eu nunca tinha visto.

Saltei do carro do Jason antes mesmo de ele estacionar e corri pela porta da frente sem me preocupar em fechá-la, porque eu já estava tão nervosa que precisava ver o Jer antes de enlouquecer. Assim, atravessei a casa inteira seguindo as vozes no salão principal e, no instante em que o avistei, todo o resto simplesmente desapareceu da minha visão.

— Jer… — Sussurrei, e ele virou na minha direção com o maior sorriso do mundo, radiante por me ver. Desse modo, corri até ele e saltei em seus braços sem hesitar, prendendo minhas pernas em sua cintura e escondendo o rosto em seu pescoço enquanto respirava fundo, deixando a calma me tomar na mesma hora.

Então um rosnado alto e ameaçador fez o ar tremer à nossa volta, e o Jeremiah simplesmente me soltou, literalmente me deixando cair no chão antes de virar as costas. Caí sentada de qualquer jeito e fiquei atônita, porque ele nunca me soltara daquela forma, pelo menos não fora do treino.

— Mas… Quem diabos é essa! — Uma voz feminina que eu nunca tinha ouvido rugiu, e, como o Jeremiah tampava minha visão, eu não conseguia enxergá-la, enquanto o restante do grupo já se posicionava ao lado dela.

— O que está acontecendo? — Forçada a me erguer do chão, acabei perguntando para aquelas costas que continuavam se virando contra mim, embora ninguém tivesse a decência de responder. Logo, meu coração voltou a disparar, denunciando que algo estava muito… muito errado.

— Eu não vou perguntar de novo, Jeremiah. — A voz dela soou mais aguda e, além disso, carregava uma autoridade evidente, de modo que eu senti o poder emanando dela mesmo à distância, uma aura intensa que revelava alguém de posto elevado.

— Não é nada, sério. Essa é a minha melhor amiga, Kennedy. Kennedy, essa é minha companheira, Rayna. — Mesmo quando ele finalmente se virou para mim, eu não tive certeza de que realmente me enxergava, dado que os olhos castanhos dele iam de mim para ela o tempo todo. Assim que percebi que ele já estava perdido de amores, meu coração afundou.

O sorriso não era para mim e sim para ela, que me encarava como se quisesse me despedaçar com aqueles olhos verdes e cortantes. Ela era perfeita, literalmente perfeita. Tinha um rosto simétrico de traços quase feéricos, além de ser alta, esguia e com curvas nos lugares exatos. O cabelo negro descia em ondas até a metade das costas e a pele oliva parecia brilhar por conta própria. Aquele conjunto rosa-bebê lhe dava um ar atlético, não de viajante cansada, e ela estava deslumbrante a ponto de ficar incrível ao lado do meu melhor amigo.

No fim, eu escolhi ignorar o insulto de ter sido largada no chão e foquei na empolgação dos meus amigos.

— Sua companheira? Não acredito! Jer, isso é incrível! — Avancei um passo para abraçá-lo outra vez, porém o rosnado dela voltou a ecoar e me obrigou a recolher os braços, usando toda a força de vontade para não tocá-lo. Logo, fechei os punhos ao lado do corpo, totalmente perdida no silêncio pesado que tomou a sala. Eu queria ficar feliz por ele, ainda que nada ali se parecesse com o que eu tinha sonhado, e, pior, eu nem tinha certeza do que esperava, só sabia que… Não era aquilo. Nesse instante, Tommy quebrou a tensão ao se apresentar:

— Olá, Rayna. Prazer em conhecer você. Eu vou ser seu Delta. Este é Jason, seu futuro Gama, e Ben, seu futuro Beta. A Kennedy é uma das nossas guerreiras também. — Ele acabou apontando para mim, e eu imediatamente desejei que não tivesse feito aquilo, já que ela finalmente estava se acalmando, mas a tensão retornou assim que ouviu meu nome.

— Eu… Vou indo. Rayna, foi um prazer te conhecer. — Virei para sair o mais rápido que pude, ignorando todos os protestos, sem ter a menor ideia de para onde iria. Eu morava ali, ela ficaria ali e, depois, viveria ali, e estava claro que não gostava nem um pouco do fato de eu ser amiga do Jeremiah. Então saí pela porta da frente. "Será que ela conhecia a nossa amizade, ou será que ele tinha ocultado a minha existência? Depois de achar sua companheira, será que ele passou a ter vergonha da amiga humana?" Eu nunca tinha me sentido tão deslocada na casa da alcateia, e aquela estranheza caía como um peso no meu estômago, de modo que o enjoo veio quase de imediato.

Eu não fazia ideia do que aquilo significaria para nós, porque nunca tinha imaginado que a companheira dele pudesse não gostar de mim ou não querer que eu estivesse por perto. Sempre acreditei que ela entraria no nosso grupo, não que tomaria o meu lugar. A sensação me atravessou como um coração partido, igual ao que senti quando perdi meus pais, e eu precisava desesperadamente respirar… E acertar alguma coisa. De preferência, com muita força.

Caminhei sem rumo até que finalmente reconheci o único lugar possível para ir: o campo de treino. Eu precisava liberar toda a frustração e confusão nos pesos e no saco de pancadas. Atrás, Ben e Jason me seguiam de perto, indicando que Tommy não deveria estar longe. Eles estavam ali para me observar, garantindo que eu não fizesse nada que aborrecesse Jeremiah, e isso só alimentou ainda mais a minha irritação. "Sim, eu sabia que ele assumiria como futuro Alfa, mas ainda assim não entendia por que tudo sempre dependia do que ele queria ou esperava de mim. Por que ninguém considerava as minhas necessidades?"

Depois de trocar de roupa com um conjunto reserva e enfaixar as mãos para enfrentar os sacos de pancadas, deixei que cada pensamento inseguro aumentasse o fogo que já queimava dentro de mim enquanto os três aguardavam do lado de fora do vestiário. Tommy abriu a boca para falar, mas eu o silenciei erguendo a mão e balançando a cabeça, porque não queria ouvir nada, nem desculpas suaves, nem palavras destinadas a diluir minha raiva, já que eu não suportaria nenhuma racionalidade naquele momento e só precisava extravasar tudo em alguma coisa.
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