Capítulo 2
(Ponto de Vista de Kennedy)

O som estridente de pneus raspando no asfalto ecoou primeiro, seguido por um baque seco e pela explosão de vidro, enquanto uma força invisível me arremessava para frente. Eu não tinha controle algum, não tinha onde me segurar, apenas sentia minhas mãos voarem pelo ar até que bati contra uma superfície sólida e despertei num sobressalto.

Arfei, piscando várias vezes até abrir os olhos. Eu estava no meu quarto. Eu estava no meu quarto, como acontecia todas as noites, embora o cheiro de borracha queimada misturado à gasolina ainda ardesse dentro do meu nariz. O pesadelo continuava ali. Idêntico, constante, há dois anos. Assim, respirei fundo de novo, numa tentativa inútil de livrar-me tanto do odor no meu nariz quanto da imagem que permanecia escondida atrás das minhas pálpebras.

A porta se abriu violentamente e meu melhor amigo atravessou o quarto num salto. "Pensando bem, já fazia tempo que eu achava que deveríamos compartilhar o mesmo quarto, pelo tanto que ele estava ali comigo…" Ele não falou nada, só entrou por baixo do meu cobertor fofinho, me cercou com os braços e colocou minha cabeça apoiada em seu peito. Logo, o cheiro familiar e o ritmo constante do coração dele me puxaram de volta para um sono sem sonhos.

O pesadelo que se repetia todas as noites desde o acidente me fazia perder qualquer noção do que fazer dali em diante. Mesmo depois de visitar todos os médicos recomendados pela tia Beth, nada parecia melhorar, exceto quando eu permanecia perto de Jeremiah. No fim, essa situação estava virando minha vida de cabeça para baixo, que já era um caos antes disso, e eu não precisava de mais confusão. Para completar, aquilo também acabava não sendo nada conveniente para ele.

— Ah, docinho, você parece exausta. Outra noite ruim? — Tia Beth perguntou como se não tivesse me ouvido gritar do outro lado da casa.

Eu não conseguia simplesmente ser uma adolescente rabugenta com ela, porque a tia Beth e o tio James tinham feito demais por mim nos últimos anos. Eles não tinham obrigação de me acolher. Mas, quando nenhum dos meus outros parentes quis assumir a tutela de uma adolescente de quinze anos, a melhor amiga da minha mãe e o marido dela me receberam sem hesitar. Ela ficou comigo no hospital enquanto eu me recuperava e foi quem me abraçou quando os médicos contaram que meus pais não sobreviveram. Ainda por cima, garantiu que eu tivesse acesso aos melhores médicos e especialistas para me ajudar a lidar com tudo aquilo.

— Sim. Parece que estão piorando, mas não sei por quê… — Eu resmunguei enquanto me sentava na bancada enorme da cozinha. Ela colocava um prato cheio das minhas comidas favoritas de café da manhã na minha frente. Eu apenas sorri e comecei a devorar tudo.

— Já está pronta? — O uivo melodioso do meu melhor amigo ecoou de algum lugar da casa dez minutos depois. "O que seria de mim sem ele na minha vida?"

— Quase. A tia Beth está tentando me empanturrar. Não posso ser mal-educada e deixar comida no prato. — Falei, enfiando mais uma garfada na boca.

— Mãe, você sabe que ela não precisa comer a mesma quantidade que eu, né? Se continuar assim, vou acabar tendo que rolar ela até a escola. — Ele lançou, caminhando até a geladeira, como se não fosse pegar um prato enorme e devorar tudo em segundos.

— Espera… Você acabou de me chamar de gorda? — Tentei acertar um tapa nele ali da cadeira, mas ele foi rápido pra caramba e eu errei. — Eu gostaria de te lembrar, senhor, que meu ritmo de treino sempre acompanhou o seu, ainda que meu corpo não tivesse nascido com essa vocação divina para empilhar músculos.

— Então você está dizendo que eu sou gostoso e que a gente devia sair alguma hora? — Ele provocou, encostando no batente da porta da cozinha enquanto jogava a mochila no ombro e enfiava comida na boca ao mesmo tempo.

Eu seria hipócrita se tentasse dizer que meu melhor amigo não era gostoso. No meio de tantos homens bonitos, ele ainda chamava atenção, quase confirmando minha teoria de que os lobisomens recebiam esse tipo de beleza de fábrica. O charme começava pelo cabelo chocolate, propositalmente desarrumado, como se ele tivesse desistido de arrumar depois de passar a mão. Os olhos, num tom de caramelo claro quase hipnótico, atraíam tanto que até faziam alguém ignorar os lábios cheios. E sua altura, passando de um metro e oitenta, gritava "eu vou te proteger" ou "eu vou te ferrar", dependendo para quem ele olhava. Mas eu jamais diria isso em voz alta, porque o ego dele não precisava de reforço. Além disso, eu nunca senti aquela atração hormonal por ele. Afinal, ele era meu amigo em tudo que importava, e nós éramos super próximos, mas só isso.

Copyright © 2024 by Miss L Writes and Ember Mantel Productions

— Ah, por favor. Qualquer uma das suas candidatas a Luna me mataria durante o sono se tivesse chance. E agora que você completou dezoito, elas ficaram simplesmente mais malucas. — Fiz uma careta e fingi vomitar.

— Aquelas meninas ainda estão pegando no seu pé, querida?

— Tia Beth, tudo bem. Elas pegariam no meu pé até se nós fôssemos companheiros destinados. — Eu disse, fingindo engasgar de novo. — No fundo, elas não gostam de mim porque eu sou humana e, portanto, inferior, mas ainda assim eu tenho a atenção do futuro Alfa destemido delas. Além disso, ninguém tentou me acertar com nada há algum tempo. No fim, são só garotas idiotas com insultos idiotas. — Revirei os olhos como se nada ali me afetasse enquanto empurrava a bunda enorme de Jeremiah para fora de casa para irmos ao nosso primeiro dia do último ano.

Evitei contar a ela que os insultos tinham se agravado. Para as garotas, o fato de eu ser órfã e uma humana em meio a uma alcateia de lobisomens já não rendia diversão suficiente. Agora, a fofoca da vez era que eu dormia com todos os amigos do Jeremiah pelas costas dele, embora a verdade fosse bem simples: nunca namoramos e nunca iremos namorar.

Crescemos literalmente lado a lado desde o dia em que nascemos, porque chegamos ao mundo no mesmo hospital e compartilhamos o mesmo aniversário. Nossas mães eram inseparáveis desde a faculdade, se formaram juntas e abriram um estúdio de yoga e defesa pessoal feminina. Quando a tia Beth virou Luna após conhecer o tio James, minha mãe assumiu o estúdio sozinha para que a amiga pudesse lidar com a rotina exaustiva da alcateia.

O estúdio tinha sido mantido pela tia Beth justamente para mim, então eu aparecia alguns dias por semana para trabalhar. Além de ajudar nos treinos, a gerente vinha me ensinando toda a administração, preparando-me para assumir o negócio no futuro. Aquilo era a herança mais significativa que minha mãe deixara, o que realmente me mantinha conectada a ela. Afinal, as duas haviam criado tudo do nada, acolhendo humanos e lobisomens da mesma forma, e eu queria continuar esse legado, independentemente das escolhas que eu ainda faria para minha vida.

— Você ainda planeja ir para a faculdade no ano que vem? — Jeremiah fez a pergunta sem sequer desviar os olhos da estrada, sentado no banco do motorista daquele carro enorme e fosco, completamente preto, cujo motor roncava como um aviso. Eu nem sabia identificar o modelo, só sabia que era poderoso.

E, sinceramente, depois de termos repetido essa mesma conversa tantas vezes no último ano, eu já nem tinha respostas novas para dar.

— Sim, Jer. Eu preciso ir, e você sabe disso. Você vai entrar de cabeça no treinamento de Alfa e, no meu caso, sendo humana, não faz sentido ficar atrás de um companheiro. Até porque… Não é você, e eu duvido que alguém pudesse realmente se igualar. — Declarei de forma dramática, levando o dorso da mão à testa. — E, agora mesmo, eu não tenho nenhuma outra função útil na alcateia.

— Você tem noção do quão bizarra aquela situação foi, né? Todo mundo parado, só esperando para ver se a gente ia ser companheiros... E, olha, não me leve a mal… Você é incrível e linda, mas continua sendo minha irmã gêmea. — Ele estremeceu de maneira exagerada e eu apenas caí na risada.

— Você é muito esquisito, sabia? Enfim… Está pronto para este ano? Porque, com tanta expectativa em cima de você, as coisas finalmente começaram a parecer reais.

— Preparado dentro do possível, eu acho. — Ele respondeu, dando de ombros. — Já temos várias viagens marcadas para visitar outros Alfas das alcateias, e isso deve ser o começo para estabelecer um bom relacionamento com eles. Pelo menos eu não sou o único Alfa novo. Existem mais dois na nossa aliança, o que ajuda. Assim eu não vou ser o cara deslocado sendo tratado como um pirralho sozinho. — Eu ri dele, mas entendia perfeitamente.

Os Alfas visitantes podiam ser bem condescendentes com lobos mais jovens. Era uma coisa de hierarquia, embora alguns, assim como certos membros da nossa própria alcateia, achassem que espécie, posição e título os deixavam automaticamente acima de todos, podendo agir e falar do jeito que quisessem sem nenhuma consequência.

Quando chegamos à escola e estacionamos na vaga do Jer, o séquito das vadias, claro, já estava ali esperando.

— Ora, ora… O fã-clube inteiro resolveu aparecer só para garantir que você chegue às aulas sem enfrentar sequer uma brisa contrária. — Eu entoei de forma debochada.

— Cala a boca. — Ele rosnou, inspirando fundo antes de sair do carro.

Aquelas garotas não davam descanso. Perseguiam ele o tempo todo e, mesmo tendo a nossa idade, dezoito anos, e sabendo perfeitamente que ele não era o companheiro de nenhuma delas, continuavam insistindo como se ele estivesse livre para escolher. E, sinceramente? Ele não era nenhum santo, assim como os outros caras do grupo. Eles agiam como verdadeiros maníacos por sexo. Afinal, segundo Tommy, tudo aquilo era "treino" para impressionarem suas futuras companheiras.

Mas, depois do nosso aniversário, assim que ele chegou à idade em que pôde sentir sua companheira, percebi que o Jer não aparecera com nenhuma outra garota, até porque eu duvidava que o lobo dele deixasse. A espécie dele se importava apenas com a futura companheira, concentrando toda a atenção nela, porém, o séquito das vadias, obviamente, não parecia ciente dessa informação.

A falta de atenção dele gerou outros rumores sobre ele estar "se rebaixando" comigo, mas eu conseguia acabar com isso bem rápido quando lembrava a elas que, se fosse verdade, significaria que ele tinha me escolhido e não a elas. Diante da situação, elas mudavam de tática na mesma hora.

Assim que descemos do carro, tive que me apertar no meio da multidão que sempre se formava ao redor dele para conseguir avançar, ainda que ele jamais me deixasse na mão, mesmo quando algumas daquelas garotas agiam com toda a crueldade possível, e naquela manhã, não foi diferente. Eu apreciava demais o fato de ele não me tratar como frágil nem assumir as minhas brigas, porque ele entendia que isso só tornaria tudo pior. Afinal, eu podia me defender muito bem sozinha e tinha atitude para isso, enquanto ele apenas afastava as criaturas irritantes que tentavam bloquear meu caminho ou atrasar meu horário.

— Kennedy, vamos, garota. Os caras estão esperando. — Ele passou o braço ao redor do meu pescoço e me guiou para longe. — Como vou me virar sem você aqui servindo de escudo para toda a confusão? Entendeu agora? É por isso que você não pode ir para a faculdade. Eu preciso de você aqui.

— Primeiro, essa é a função da sua companheira, então anda logo e encontra ela de uma vez para que eu possa passar o bastão. E, quanto ao resto, você já sabe: eu preciso ir porque não quero viver como um fardo. Quero honrar meus pais, a tia Beth e o tio James, aprendendo a me manter sozinha, em vez de depender de vocês para sempre.

— Para com isso, você sabe que é mentira. O melhor seria você continuar dependendo de mim para sempre. Eu, pelo menos, pretendo depender de você, Guerreira. — Ele tentou parecer sério, mas o rosto bonito dele não combinava com a expressão quando ele não estava realmente bravo. — E você sabe que a minha mãe nunca vai deixar você ir. Ela está tramando tanto quanto eu para te manter aqui.

Antes que eu pudesse responder, o resto dos caras apareceu, parecendo um desfile de Magic Mike antes de tirarem a roupa. Não ia mentir, talvez eu tivesse babado um pouco, mas o que você poderia esperar quando todos os meus amigos eram gostosos pra caralho? Pena que nenhum deles era meu tipo e eu não era a companheira de nenhum deles. E eu já tinha testado todas as possibilidades, exceto Jeremiah. No fim das contas, existia entre nós uma regra silenciosa que nos impedia de mencionar ou discutir aquilo.

O Ben era nosso Beta moreno, tatuado e mal-humorado. O Tommy era nosso Delta brincalhão e o Jason, nosso Gama loiro estilo surfista. Todos eram altos e largos como o Jer, com músculos de Adônis espremidos em camisetas apertadas demais. E, no fundo, eu sempre me perguntava se aquilo era de propósito ou se eles simplesmente não se davam ao trabalho de achar roupas que servissem.

Assim que nos juntamos, eles fizeram aquele abraço clássico de amigos e, um por um, me deram um abraço e um beijo na cabeça ou na bochecha. A demonstração era totalmente pública e, claro, intencional por causa do que tinha ocorrido no ano passado.
Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App