Capítulo 3. Ousadia

Lucas fitou o Alfa, completamente perplexo. Não sabia que havia um ritual. Na sua antiga Alcateia, nunca percebeu ou foi ensinado sobre isso. Simplesmente se reuniam, uivavam para a lua e a transformação acontecia.

— Eu não sabia, deixei Lorena em casa, para se transformar sozinha…

O Alfa rosnou e não aguentou mais.

— Guardas!

— Sim, Alfa!

— Levem-no para a cela, tranquem e que fique lá até eu decidir o que farei com ele.  Quanto ao seu grupinho de amigos, fiquem na linha ou vou cortar suas cabeças. Agora saiam.

Depois que todos saíram, com Lucas gritando impropérios, sentindo-se injustiçado, levantou-se e colocou Lorena de pé, longe dele. Tinha demonstrado cuidado com ela, apenas para que todos vissem e Lucas respondesse o que ele queria saber. Mas agora, queria distância daquela coisinha mirrada, que não se parecia em nada com uma Luna poderosa como deveria ser.

— Venha comer!

— O que fará comigo, Alfa.

— Ainda não sei. Por hora, quero que coma e descanse, para melhorar dessa fraqueza.

Sentou-se ele na cabeceira e ela permaneceu de pé, como fazia sempre, para servir seu irmão. Ele percebeu e olhou para ela de testa franzida.

— O que está esperando, sente-se.

— Posso?

Noah irritou-se, rangendo os dentes, ao ver o que Lucas fez com a própria irmã, mas Lorena entendeu que ele estava com raiva dela. Sentou-se, rapidamente, em uma cadeira na lateral da mesa, mas a duas cadeiras de distância dele.

— Bom dia, Alfa! — cumprimentou Dalva, entrando com um bule de café quente na mão — Quem é esta jovem fêmea?

— É isso, uma jovem fêmea que encontrei sozinha na floresta. Cuide bem dela, parece que passou muitas privações nos últimos tempos.

— Sim, Alfa.

Dalva era uma fêmea com mais idade, sem ser velha e mantinha sua aparência jovial. Como a governanta, serviu a xícara do Alfa e foi até Lorena, servindo sua xícara também. Desconfiou que ela era a irmã que o Beta Lucas estava procurando, pois ouviu um pouco da conversa que tiveram.

— Bom dia, querida. Meu nome é Dalva, sou a governanta desta casa e vou cuidar muito bem de você.

— Obrigada, me chamo Lorena.

De repente, um furacão em forma de mulher entrou na sala e se jogou no colo do Alfa, devorando sua boca com um beijo apaixonado.

Lorena, ao ver a ousadia da outra, tentou se controlar, mas sua loba rosnou em desagrado e em um segundo, a fêmea ousada foi atirada longe, caindo no chão.

Dalva não disse nada, mas ouviu nitidamente o rosnado da loba de Lorena e ficou desconfiada. Estaria ali, naquela figura mirrada e desnutrida, a companheira do Alfa? Pelo visto, ela não era nada fraca, mas ficou quieta, já que o rosnado foi baixo e a jovem nem se mexeu.

— O que foi isso? — perguntou a fêmea de voz esganiçada — você me empurrou, amor? Não gostou de me ver? — perguntou ela, levantando-se e se aproximando devagar, do Alfa, já que não queria levar outro tombo.

— Não fui eu que te empurrei, nem tive tempo de te ver para dizer que não gostei, pois estou com visita. Já falei para você não ser tão invasiva.

— Bom dia, Lídia. Esta é Lorena. Já tomou café? — falou Dalva.

Lídia aproximou-se de Lorena, sem ligar para Dalva e perguntou:

— Quem é você, coisinha?

— Sou Lorena, não coisinha e você, quem é? — perguntou Lorena, muito docemente.

— Olha como ela é marrenta… cuidado como fala comigo, coisinha, sou sua Luna, meu nome é Lí…

Conforme falava, a voz de Lídia ia ficando cada vez mais esganiçada, até que ela começou a cacarejar e não falou mais.

Dalva tentava disfarçar o riso, até que colocou a mão na boca para o conter.

Noah não foi tão discreto e soltou uma enorme gargalhada.

— O que está acontecendo com você, hoje, Lídia?

Ela cacarejou no lugar de responder.

— Pare de brincadeiras, Lídia, sente-se e beba um pouco de café quente, vai aliviar sua garganta. — sugeriu Dalva, servindo uma xícara de café quente para ela.

Lidia perdeu toda sua ousadia, sentou-se ao lado do Alfa e tomou vários goles de café. Essa foi a deixa para Lorena encerrar o seu feitiço e começar a comer tranquilamente.

Noah não tirava os olhos de Lorena, analisando os seus gestos e sua boca, para ver se falava alguma coisa, na tentativa de descobrir se era ela que estava fazendo aquilo com Lídia.

— Melhorou, Lídia? — perguntou ele, olhando para Lorena.

— Eu…parece que sim. — respondeu ela, sorrindo de alivio.

Noah não viu nenhum gesto ou murmuração vindos de Lorena e relaxou. Aquela fêmea era uma incógnita para ele.

— Quem é ela, amor?

Noah não gostou de ser chamado de amor, por Lídia, já não tinha apreciado o beijo e a forma dela entrar se jogando em seus braços, pois agora que encontrou sua companheira, seu lobo rejeitava qualquer outra fêmea.

— Não sou seu amor, Lídia. Meu lobo está sentindo falta de nossa companheira e está rejeitando qualquer outra que se aproxime.

— Mas eu pensei que…

— Eu nunca te iludi, foi sempre você que se atirou sobre mim e é melhor parar com isso. Se seu companheiro aparecer, também não vai gostar.

Noah notou um meio sorriso no rosto de Lorena e pensou:

“ Então ela sabe…como? “

— Você não respondeu quem é ela. — tentou Lídia, mudar de assunto, para não revelar que já encontrou seu companheiro e que ele é um idiota.

— Encontrei-a na floresta, nesta madrugada.

— Ah, tá. Pensei que essa coisinha era sua companheira, seria bem hilário.

— Por quê? — perguntou Lorena, surpreendendo a todos.

Dalva colocou um pote com mingau de aveia diante da jovem, que já havia devorado o fundo de um prato com ovos mexidos, linguiças e bacon.

— Você é bem abusada, garota! — respondeu Lídia.

— Não xingue minha convidada. — brigou o Alfa.

— Mas Noah, ela é muito ridícula! Como pode pensar que tem condições de ser uma Luna?

— Por quê não posso? Você acha que sou fraca, feia, burra, ou será que você não me aceita por quê a Luna não é você?

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