O desenho apareceu sem aviso.
Aurora estava sentada no chão do quarto, com as pernas cruzadas e o caderno apoiado sobre as coxas. O lápis se movia devagar, com uma concentração diferente da habitual. Não era o desenho automático que ela fazia quando estava nervosa, nem os traços repetidos que surgiam quando precisava se acalmar. Havia intenção ali. Cuidado. Escolha.
Eu observei em silêncio por alguns minutos, respeitando aquele espaço que parecia quase sagrado.
Ela não percebeu minha presença de imediato.
Quando terminou, fechou o caderno com cuidado demais para alguém da idade dela. Como se quisesse proteger o que estava ali dentro. Aquilo, por si só, já fez meu estômago se contrair.
— Posso ver? — perguntei, mantendo a voz suave.
Aurora levantou os olhos lentamente.
Hesitou.
Depois assentiu com um movimento pequeno da cabeça.
Estendeu o caderno na minha direção, aberto na última página.
E o mundo mudou de lugar.
O desenho era diferente de todos os outros.
Não havia distância.
Não ha