Mundo de ficçãoIniciar sessãoAMÁLIA
Por mais que eu tentasse, o sono simplesmente não vinha. Virei de um lado para o outro, puxando o cobertor até o pescoço e depois afastando-o irritada, sentindo o calor e o frio brigarem sobre minha pele ao mesmo tempo. Nada ajudava. Fechei os olhos com força, como se aquilo pudesse apagar as imagens que insistiam em me assombrar. Mas era inútil. Aqueles malditos olhos dourados voltavam. Sempre voltavam. Brilhantes. Intensos. Vivos demais para serem apenas fruto da minha imaginação. Eu já tinha visto aqueles olhos antes. Não daquela forma. Não tão próximos. Mas o dourado… aquele tom específico, quente e selvagem ao mesmo tempo… fazia algo dentro de mim se mover. Algo antigo. Uma lembrança distante que eu nunca conseguia alcançar por completo. Engoli em seco, sentindo um arrepio subir lentamente pela minha nuca. Quando eu era criança, costumava acordar no meio da noite assustada. Meu pai dizia que eu tinha pesadelos frequentes quando minha mãe morreu. Mas eu nunca conseguia explicar exatamente o que via. Só lembrava da sensação. A floresta escura. O vento frio. E olhos dourados me observando entre as árvores. Por muitos anos achei que fossem apenas sonhos infantis. Minha mente tentando preencher vazios que eu era pequena demais para entender. Só que, agora… Já não parecia mais um sonho. Soltei um suspiro cansado, passando a mão pelo rosto. — Pare com isso, Amália… — murmurei para mim mesma. — Você está deixando sua imaginação longe demais. Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos. — É só cansaço… trabalho demais, horas extras demais… e livros demais antes de dormir. Minha voz saiu mais firme dessa vez, quase como uma bronca. — Sua mente está pregando peças. Só isso. Precisava ser só isso. Porque a outra possibilidade… Não. Era ridículo sequer considerar. Ainda assim, meu coração apertava toda vez que aqueles olhos voltavam à minha memória. Não fazia sentido sentir medo e atração ao mesmo tempo. Mas era exatamente isso que acontecia. Uma parte de mim queria fugir. A outra… queria encontrá-lo de novo. Queria entender por que, mesmo assustada, eu não conseguia parar de pensar nele. Queria entender por que aqueles olhos me causavam a estranha sensação de pertencimento. Como se eu estivesse procurando algo a vida inteira sem perceber. Como se alguma parte esquecida de mim despertasse sempre que se lembrava deles. Fechei os olhos por um instante. — Isso não está acontecendo… — sussurrei. Mas até minha própria voz soou incerta. Afastei o cobertor de uma vez e me levantei, inquieta demais para permanecer deitada. O piso frio sob meus pés arrancou um leve arrepio da minha pele enquanto eu caminhava lentamente pelo quarto escuro. A casa inteira estava silenciosa. Silenciosa demais. Por um instante, lembrei de quando era pequena e corria para o quarto do meu pai durante as tempestades. Eu dizia que alguém estava me observando pela janela. Ele sempre sorria, me pegava no colo e dizia: “Não existe nada lá fora, pequena.” Na época, eu acreditava nele. Agora… já não tinha tanta certeza. Aproximei-me da janela e respirei fundo antes de abri-la. O vento noturno entrou imediatamente, bagunçando meus cabelos. Era suave. Mas carregava algo diferente naquela noite. Algo mais pesado. Mais vivo. Fechei os olhos por um instante, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim. Não funcionou. Meu coração acelerou de novo. Forte. Descompassado. Como se estivesse reagindo a alguma presença invisível antes mesmo que minha mente pudesse compreender. Franzi o cenho, confusa. E então veio aquela sensação outra vez. Clara. Inegável. Eu não estava sozinha. Meu corpo inteiro ficou em alerta. — Tem alguém aí? — perguntei, a voz mais baixa do que pretendia. O silêncio veio imediatamente. Pesado. Quase sufocante. Nenhuma resposta. Nenhum som. Nada. Soltei uma risada curta e nervosa, cruzando os braços na tentativa inútil de me acalmar. — É… Amália… — balancei a cabeça. — Você realmente está enlouquecendo. Dei um passo para trás. — Vou dormir. Amanhã preciso acordar cedo. Mas antes de fechar a janela, hesitei. Uma última olhada. Só isso. Inclinei levemente o corpo para frente, forçando os olhos através da escuridão da floresta. E então… Eu vi. Bem ao longe. Parados. Fixos em mim. Dois olhos dourados. Meu ar desapareceu. O coração disparou tão forte que chegou a doer. Minhas mãos ficaram frias imediatamente, enquanto um medo cru subia pelo meu peito. Mas junto dele veio outra coisa. Algo ainda pior. Ou talvez pior justamente porque não parecia ruim. Reconhecimento. Uma alegria estranha e involuntária. Como se eu finalmente tivesse encontrado algo que esteve faltando dentro de mim durante anos. Meu Deus… Por que aquilo parecia tão familiar? Por que eu não conseguia desviar o olhar? Minha mente gritava para fechar a janela. Para correr. Para trancar a porta. Mas meu corpo não obedecia. Era como se alguma força invisível me puxasse em direção àquela presença. Como se aqueles olhos me chamassem sem precisar dizer uma única palavra. Antes que eu pudesse pensar melhor, meus pés se moveram sozinhos. Corri. Desci as escadas às pressas, quase tropeçando, enquanto meu coração martelava violentamente contra o peito. Atravessei o chalé rápido demais, dominada por uma necessidade irracional que eu não conseguia controlar. Eu precisava vê-lo. Precisava entender. Precisava descobrir por que ele mexia comigo daquela forma. “O que você quer de mim?” A pergunta ecoava sem parar dentro da minha cabeça. “Uma simples humana…” Foi o que ele disse. Então por que aqueles olhos carregavam aquela expressão quando me olhavam? Por que parecia que ele também me reconhecia? Abri a porta com força. O vento gelado da noite atingiu meu rosto imediatamente. Olhei ao redor. Nada. Apenas o breu da floresta. O silêncio. A escuridão absoluta. Nenhum sinal dele. Nenhum movimento. Nenhuma presença. Fiquei parada por alguns segundos, tentando recuperar a respiração enquanto meus olhos percorriam o vazio ao redor. Esperando. Talvez torcendo para vê-lo novamente. Mas ele não apareceu. Engoli em seco. E, pela primeira vez naquela noite, a dúvida começou a se misturar ao medo. Porque, se aquilo não era real… Por que parecia tão inevitável? E pior… Por que uma parte de mim já sentia falta daqueles olhos?






