BUSCANDO CONFORTO

POV AMÁLIA

Após um banho quente, eu realmente acreditei que conseguiria me acalmar.

Mas estava enganada.

A imagem daquele homem — daquele selvagem — permanecia viva em minha mente, como se tivesse sido gravada ali com precisão inquietante. Os olhos intensos, a presença dominante… tudo nele parecia real demais para ser apenas fruto da minha imaginação.

—Ou será que não? Já não sabia mais oque pensar.

Suspirei, sentando-me na beirada da cama, ainda envolta pelo calor do banho.

Será que foi apenas cansaço?

Minha rotina tinha sido puxada demais nos últimos dias. Horas extras, noites mal dormidas… não seria a primeira vez que minha mente pregava peças em mim.

E, considerando o quanto minha imaginação costumava ser fértil, era perfeitamente plausível que tudo não passasse de uma ilusão.

—Eu preciso acreditar nisso.

Porque a única outra alternativa… era perturbadora demais.

Uma batida suave na porta interrompeu meus pensamentos.

— Posso entrar, minha querida?

A voz gentil do meu pai trouxe um conforto imediato ao meu peito. Sorri ao vê-lo.

— Claro, pai.

Ele entrou com um sorriso tranquilo, segurando uma xícara de chá ainda fumegante. O aroma suave se espalhou pelo quarto, trazendo consigo uma sensação de paz que eu tanto precisava naquele momento.

Observei suas mãos — um pouco trêmulas por conta da idade — e senti aquele aperto familiar no coração. Ainda assim, havia nelas o mesmo carinho de sempre, o mesmo gesto acolhedor que tantas vezes me acalmou ao longo da vida.

— Pai, o que faz acordado a essa hora? Não me diga que eu o acordei…quando cheguei? Sabia que tinha feito muito barulho ao entrar. Não era minha intenção, mas naquele momento o pânico me dominava.

Aproximei-me, pegando a xícara de suas mãos com cuidado, e depositei um beijo carinhoso em sua testa.

Ele já havia passado dos sessenta e cinco anos. Não era meu pai biológico — isso nãoimportava, nunca importou.

Fui deixada à sua porta ainda bebê, com nada além de um bilhete pedindo que cuidasse de mim.

E ele cuidou.

Com amor. Com dedicação. Com tudo o que tinha — e até o que não tinha.

Vinte e cinco anos depois, eu estava ali. Segura. Protegida. Amada.

Ele nunca me deixou faltar nada.

E, para mim, sempre foi — e sempre será — minha única família.

— Você sabe que não consigo dormir antes de você chegar, Amália — respondeu ele, com um leve sorriso, mas também havia um tom de queixa em sua voz.— Tem trabalhado demais, minha filha. Eu me preocupo com você. Devia descansar mais… sair com amigos… viver um pouco. Você é tão jovem.

Sua mão acariciou meus cabelos com ternura, e por um instante, permiti-me apenas sentir aquele cuidado silencioso.

— Ah, pai… o senhor sabe o quanto eu quero estudar, fazer minha faculdade … — falei, segurando sua mão com delicadeza. — Quero poder dar ao senhor uma vida melhor. O senhor merece isso. E eu sou forte… não me importo em trabalhar até tarde.

Hesitei por um segundo, mas as palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las:

— Eu sinto… como se estivesse correndo atrás de algo maior. Como se o meu destino estivesse me chamando. E esse chamado é constante. Sinto que preciso atendê-lo.

Ele me olhou de um jeito diferente. Pensativo.

Mais profundo.

Quase… preocupado.

— Minha filha… você é especial. Sempre foi. — Sua voz soou mais baixa, carregada de emoção. — Mas não é sua função cuidar de mim. Eu já vivi tudo o que tinha para viver. Só queria ter podido lhe dar mais… uma vida melhor… a vida de princesa que você sempre mereceu.

Balancei a cabeça imediatamente, apertando sua mão.

— Não diga isso, pai. O senhor ainda tem muitos anos pela frente. E eu vou estar aqui… do seu lado. Sempre.

Seus olhos suavizaram, e um sorriso leve surgiu em seus lábios.

— Você tem o maior coração deste mundo, minha querida Amália… Eu a amo tanto.

Senti meus olhos marejarem.

— Ah, senhor Omar Smith… o que seria de mim sem o senhor?

Ele soltou uma leve risada, mas havia algo diferente naquela noite. Algo escondido por trás de sua serenidade habitual.

Um silêncio breve se instalou.

Então, ele disse, com um brilho estranho no olhar:

— Tenho certeza de que o destino lhe reserva algo grandioso… algo tão brilhante quanto a lua. Você nasceu pra isso Amália.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Antes que eu pudesse responder, ele me abraçou com força. Escondi o meu rosto em seu peito, buscando ali a segurança que sempre encontrei.

Mas, pela primeira vez…

Nem mesmo os braços do meu pai conseguiam afastar completamente a sensação de que algo estava prestes a mudar.

Algo grande estava por vir, e eu podia sentir.

E, talvez… aquela figura enigmática na escuridão realmente não fosse apenas fruto da minha imaginação.

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