CASSIUS
Aquela maldita humana teve a ousadia de usar spray de pimenta contra mim.
— Contra mim. O último Alfa Supremo de uma linhagem pura.
O gosto ardente ainda parecia impregnar minha memória, mais ofensivo do que a própria dor. Minha mandíbula se contraiu, e o rosnado que ameaçava escapar precisou ser contido à força. Quem aquela humana pensava que era para tratar um Alfa Supremo como um qualquer? Como um homem comum, indefeso, descartável?
A sua audácia definitivamente não tinha limites.
— Cassius… — a voz de Demétrius ecoou em minha mente, vibrante, inquieta, quase eufórica. — Pare com essa besteira e foque no que realmente importa. Nossa companheira… finalmente ela apareceu. A Deusa Lua nos mandou aquela que irá nos libertar.
O contraste entre minha fúria e a empolgação dele era extremamente irritante.
Após décadas de espera, de buscas inúteis e noites marcadas pela maldição que nos consumia pouco a pouco… nos deixando a sensação de fim iminente, afinal, não sabiamos quantas transformações como aquelas meu corpo ainda aguentaria.
Ele estava certo em um ponto: algo havia mudado. Mas eu não estava pronto para admitir.
— Contenha-se, Demétrius — rosnei mentalmente. — Está parecendo um adolescente tolo.
Senti sua presença se agitar dentro de mim, como um filhote impaciente.
— Acha mesmo que vou ignorar isso Cassius? Você sentiu o vínculo tanto quanto eu. Ou vai continuar fingindo que não aconteceu?
Cerrei os punhos.
— Acha mesmo que eu aceitaria uma humana como minha companheira? — rebati, com desprezo. — Eu… um Alfa Supremo?
As palavras saíram carregadas de incredulidade, mas não consegui impedir que um resquício de dúvida se infiltrasse.
— Foi a própria Deusa da Lua quem a enviou — insistiu Demétrius, agora mais firme. — Nossa companheira predestinada. E você com essas bobagens de linhagem pura, pode estragar nossa única chance de finalmente sermos felizes.
— Não seja tolo. — Minha resposta veio rápida, dura. — Isso não passa de um erro. Uma confusão grotesca. A Deusa jamais nos faria isso… não depois de tudo que enfrentamos. Não depois da maldição que carregamos.
Uma humana.
Frágil. Limitada. Mortal.
Incompatível com tudo o que eu era.
— Você está se enganando — ele rebateu, mais irritado ainda, mas igualmente determinado. — Nós sentimos o vínculo. Eu sinto tudo o que você sente, Cassius. Porque somos um. Acha que pode ir contra o vínculo determinado pela Deusa?
Fechei os olhos por um breve instante, tentando ignorar a verdade incômoda pulsando dentro de mim.
Claro que eu havia sentido. E foi algo único. Que já havia perdido as esperanças de sentir um dia.
O puxão invisível. A conexão. A necessidade irracional de protegê-la… mesmo depois do ataque ridículo com o spray.
— Não me esqueci — murmurei, a irritação transbordando. — Só estou dizendo que deve haver uma explicação lógica para isso. A Deusa não cometeria um erro assim.
Ou… será que cometeria?
— Não diga bobagens Cassius. A Deusa Lua não comete erros. Ela sabe exatamente oque está fazendo. Nos dando uma chance.
O silêncio que se seguiu entre nós foi pesado.
— Enfim. Engano ou não — continuou Demétrius, mais contido — precisamos segui-la. Descobrir tudo o que pudermos. A Deusa da Lua não age por acaso. E cabe a nós investigarmos.
Suspirei, contrariado.Mesmo que fosse difícil admitir, ele estava certo.
Eu precisava entender. Precisava de respostas. E haviam tantas perguntas rodando em minha mente.
E, acima de tudo… precisava confirmar que aquilo não era real. Só assim Demétrius iria parar de me perturbar e aceitar a verdade. Tudo não passa de um engano.
Segui em minha forma humana, mantendo distância enquanto ela avançava apressada pela trilha estreita. Seus passos eram rápidos, quase descompassados, como se estivesse fugindo de algo… ou alguém.
De mim.
Um sorriso torto surgiu em meus lábios diante da ideia.
Talvez ela devesse mesmo temer.
— Pare com isso agora Cassius — Demétrius me repreendeu imediatamente, sua presença se tornando mais densa, mais protetora. — Ela é nossa companheira.
Revirei os olhos.
— Devo lembrá-lo de que somos uma besta sanguinária? — retruquei, ácido. — Ou prefere continuar se comportando como um cão domesticado?
O rosnado dele ecoou em minha mente, alto e ameaçador.
Fiquei chocado com o quão possessivo ele estava. Havíamos descoberto o vínculo a tão pouco tempo. Meu lobo só podia estar ficando louco.
Aquilo era novo e perigoso. Temia que ele conseguisse assumir o controle a qualquer momento.
cerrei meus punhos, iria me manter firme. O controle é meu.
Paramos a uma distância segura quando ela finalmente entrou em um pequeno chalé, fechando a porta com pressa, como se quisesse se esconder do mundo inteiro.
Observei o lugar com atenção.
Simples.
Pequeno.
Quase em ruínas.
As paredes pareciam cansadas do tempo, o telhado irregular denunciava abandono, e o ambiente ao redor não oferecia qualquer sinal de proteção real.
Era ali que ela vivia?
Um desconforto inesperado se instalou em meu peito.
— Viu? — murmurou Demétrius, mais suave agora. — Ela precisa de nós.
Ignorei o comentário, embora ele tenha se alojado fundo demais para ser descartado com facilidade.
Minutos se passaram em silêncio até que uma luz se acendeu no andar superior.
Inclinei levemente a cabeça, concentrando-me na janela acima. No fundo, por mais que não admitisse, ansiava por vê-la novamente.
—Maldito vínculo.
Graças à minha audição aprimorada, os sons do interior da casa começaram a se formar com clareza.
Podia ouvir algumas vozes vindas daquele quarto. Provavelmente era o quarto da humana.
O que ouvi a seguir fez meu corpo inteiro enrijecer, e nesse momento a fúria deu lugar a algo mais denso e mais perigoso.
Algo que eu não sentia há muito tempo.
E, pela primeira vez naquela noite…
Eu não tinha certeza se estava pronto para lidar com aquilo.