Mundo de ficçãoIniciar sessãoCASSIUS
O bar estava insuportável. Cheiro de álcool barato, fumaça e humanos apertados em um espaço pequeno demais. Uma mulher ria alto perto da mesa de sinuca enquanto alguém quebrava uma garrafa no fundo do salão. Eu já deveria ter ido embora. — Você odeia humanos — Demétrius resmungou. — E mesmo assim insiste em se esconder entre eles. Levei o copo de uísque à boca. — Humanos são previsíveis. — Fracos. — Exatamente oque preciso. — Você quer é que algum deles compre briga com você, assim poderíamos arrancar sua garganta sem o conselho nos encher a paciência. — Do que está reclamando? Você também adora matar essa escória dos humanos. Demétrius riu de forma prazerosa. Sim, era verdade, ele adorava aniquilar alguns humanos, muitas vezes só por diversão. —Agora cale-se. E me deixe relaxar. O álcool queimou minha garganta, mas não ajudou. Nada ajudava ultimamente. As alcateias do norte estavam inquietas. Territórios sendo invadidos, acordos rompidos, desaparecimentos próximos às fronteiras. E havia aquela sensação constante de que algo estava se aproximando. Algo ruim. — Mate logo alguém e vamos embora — Demétrius rosnou. — Estou cansado desse lugar. Ignorei. O garçom colocou outra dose na minha frente, mas antes que eu tocasse no copo, meu corpo inteiro ficou imóvel. Então veio o cheiro. Jamais havia sentido coisa igual. Chuva, terra molhada, flores silvestres e pele aquecida pelo vento da noite. sabia como era, já havia lido em livros ou ouvido histórias. Mas nada me preparou para isso. Meu coração bateu pesado. Demétrius ficou em silêncio, e aquilo sozinho já era suficiente para me alarmar. Inspirei novamente. Mais fundo. O aroma atravessou o bar como uma corrente elétrica, despertando algo violento dentro de mim. — Não… — murmurei. Demétrius surgiu imediatamente na minha mente, atento e faminto. — Encontramos ela. Minha mandíbula travou. — Não. — Sim Cassius. Vá até ela ou assumo o controle agora mesmo. Levantei tão rápido que o banco caiu para trás. Alguns humanos olharam na minha direção. Um deles murmurou algo irritado, mas bastou um olhar meu para abaixar a cabeça imediatamente. Atravessei o bar sem hesitar. O ar frio da rua atingiu meu rosto quando empurrei a porta dos fundos. E então senti novamente. Mais forte. Mais perto. Demétrius praticamente vibrava dentro de mim. — Companheira… — Cale a boca Demétrius. — Você sentiu. — Eu disse para calar a boca. Fechei as mãos em punhos. Aquilo não podia estar acontecendo. Não comigo. Não agora. A Deusa Lua tinha um senso de humor cruel. Décadas esperando… e ela me entrega uma humana. Um rosnado baixo escapou da minha garganta. — Isso é errado. — Não desafie a deusa da Lua. — Ela é fraca. — Ela foi capaz de sentir nosso cheiro, você sabe que isso eraro. E ela está lá, não fugiu imediatamente. Ela é corajosa Cassius. Continuei andando pela viela escura até vê-la melhor, alguns metros adiante. Pequena diante das sombras da rua. O vento movia os cabelos escuros enquanto ela apertava o casaco contra o corpo. Humana, frágil e completamente inadequada para o mundo ao qual eu pertencia. E ainda assim, meu peito apertou violentamente. Demétrius avançou dentro da minha mente como uma fera inquieta. — Ela é nossa. — Não. — Minta melhor Cassius, ou esqueceu que sinto tudo que você sente? Meu maxilar travou porque o maldito vínculo já estava acontecendo. Eu conseguia sentir cada passo dela. Cada batida acelerada do coração. Cada respiração. Aquilo era perigoso. Se meus inimigos descobrissem que o Alfa Supremo tinha uma humana como companheira, veriam aquilo como fraqueza. Usariam ela contra mim. Contra minha alcateia. Contra tudo o que construí. — Rejeite o vínculo — murmurei para mim mesmo. Demétrius rosnou furiosamente. — Não ouse Cassius. Não estou brincando. — Ainda há tempo. Posso rejeitá-la. Nada foi concretizado. — Você a sentiu. Ela é nossa. É especial. Parei de andar. Porque ele tinha razão. Eu tinha sentido. E aquilo mudava tudo. A maldição da nossa linhagem nunca permitia meios vínculos. Ou a companheira aceitava o destino… ou a Lua enlouquecia o Alfa lentamente. Meu pai enlouqueceu. Foi assim que o perdi. Meu avô massacrou uma alcateia inteira. E eu conhecia exatamente o monstro que existia dentro de mim. Por isso aquilo não podia acontecer. Não com ela. Me aproximei mais devagar dessa vez, controlando cada músculo do corpo. Então a sola da minha bota raspou na pedra. Ela percebeu imediatamente. Os ombros ficaram tensos. Alerta. Interessante. Ela realmente nos sente. — Eu falei. Ela sente você — Demétrius murmurou satisfeito. Amália virou parcialmente o rosto, ainda sem me encarar diretamente. Mas eu podia sentir o vínculo puxando, exigindo, chamando. Meu lobo queria tocá-la. Marcá-la. A possessividade foi tão brutal que precisei parar de andar. Respirei fundo. Isso era errado demais. Selvagem demais. Tudo naquilo era errado. — Você precisa ir embora — murmurei mais para mim mesmo do que para ela. Demétrius soltou uma risada sombria. — Você não quer que ela vá. Pare de se enganar seu Alfa tolo. Cerrei os dentes porque, pela primeira vez em muitos anos, eu não tinha certeza de quem estava no controle. Então ela finalmente olhou para mim. E naquele instante, o mundo inteiro pareceu silencioso. Droga. Eu estava totalmente perdido.






