O amor não acabou de repente.
Ele foi morrendo aos poucos.
Aurora percebeu isso no exato momento em que Lorenzo soltou sua mão dentro do salão iluminado pelo maior evento empresarial do ano.
O toque dele sempre foi firme. Seguro. Protetor.
Naquela noite, foi frio.
Distante.
— Fique aqui — ele disse, ajustando o próprio paletó como se estivesse se preparando para uma reunião comum, não para destruir o coração dela.
Aurora sentiu o estômago apertar.
O salão estava lotado. Homens poderosos. Mulheres impecáveis. Fotógrafos. Sócios. A elite que respirava luxo e julgava fraqueza como se fosse pecado.
Ela nunca pertenceu àquele mundo.
Mas pertencia a ele.
Ou pelo menos acreditava que sim.
Lorenzo Moretti era o futuro CEO do Grupo Moretti. Jovem, brilhante, ambicioso. Criado para vencer. Moldado para liderar. Treinado desde a infância para nunca demonstrar fraqueza.
E Aurora… era a única coisa que ele não tinha planejado.
Eles se conheceram longe dos holofotes. Longe dos sobrenomes. Longe das expectativas. Ele era apenas Lorenzo. Ela era apenas Aurora. Dois jovens apaixonados acreditando que o mundo poderia ser simples.
Mas o mundo de Lorenzo nunca foi simples.
— Lorenzo — ela chamou quando percebeu que ele não voltaria para buscá-la.
Ele virou apenas o rosto, não o corpo inteiro.
Pequeno gesto. Grande aviso.
Aurora atravessou o salão ignorando os olhares. Alguns curiosos. Outros claramente reprovadores.
Ela já estava acostumada.
A família Moretti nunca fez questão de esconder o desprezo.
“Ela não é adequada.”
“Não tem sobrenome.”
“Não agrega valor.”
Aurora aprendeu que, naquele universo, amor era irrelevante se não viesse acompanhado de poder.
— O que está acontecendo? — ela perguntou, parando diante dele.
Lorenzo demorou alguns segundos antes de responder. Tempo suficiente para ela perceber que algo estava errado.
Muito errado.
— Precisamos conversar.
Quatro palavras.
As quatro palavras que antecedem desastres.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Aqui?
— Sim.
Sem privacidade. Sem cuidado. Sem carinho.
Ele estava diferente havia semanas. Mais distante. Mais imerso no trabalho. Mais frio. Aurora tentou ignorar. Tentou ser compreensiva. Afinal, ele estava prestes a assumir oficialmente a presidência do grupo.
Pressão. Era só pressão.
Ela queria acreditar nisso.
— Minha família fez uma exigência — ele começou, com a voz baixa, porém firme.
Exigência.
Aurora engoliu seco.
— Que tipo de exigência?
O olhar dele endureceu.
— Eles não aceitam você ao meu lado.
O mundo não fez barulho quando se parte. Ele apenas silencia.
Aurora sentiu o sangue fugir do rosto.
— Isso não é novidade — ela tentou sorrir, frágil. — Você sempre disse que não se importava.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, o homem diante dela já não era o mesmo que prometia enfrentar qualquer coisa por eles.
— Eu preciso assumir a presidência sem conflitos. Sem escândalos. Sem resistência interna.
Cada palavra era calculada.
Corporativa.
Fria.
— E eu sou um conflito? — a voz dela saiu quase em um sussurro.
Ele hesitou.
E a hesitação foi pior que qualquer resposta.
— Você sabe como esse mundo funciona.
Não.
Ela não sabia.
E não queria saber.
— Então é isso? — Aurora perguntou, sentindo os olhos arderem. — Você vai me afastar porque sua família mandou?
— Não é só isso.
— Então o que é?
Silêncio.
E, pela primeira vez, ela viu ambição acima de sentimento nos olhos do homem que dizia amá-la.
— Eu não posso arriscar tudo agora.
Arriscar.
Era isso que ela era?
Um risco?
Aurora riu, mas o som saiu quebrado.
— Você prometeu que nunca deixaria que eles decidissem por você.
— As circunstâncias mudaram.
— Não — ela balançou a cabeça. — Você mudou.
As palavras ficaram suspensas entre eles.
Lorenzo manteve a postura firme, mas os olhos denunciaram algo. Culpa? Dor? Ou apenas conflito interno?
Aurora segurou as lágrimas. Ela não choraria ali. Não daria aquele espetáculo que todos esperavam.
— Está me deixando? — perguntou diretamente.
Ele respirou fundo.
— É o melhor para todos.
Para todos.
Mas não para ela.
— E para nós?
— Não existe mais nós, Aurora.
A frase caiu como sentença.
Ela sentiu o chão sumir.
Tantas promessas. Tantos planos. Tantos sonhos de um futuro que agora evaporava diante de uma decisão prática.
Ele escolheu.
E não foi ela.
Aurora deu um passo para trás, como se precisasse reaprender a se equilibrar.
— Você me ama? — perguntou, num último fio de esperança.
Lorenzo demorou.
E esse foi o maior erro dele.
— Isso não é suficiente.
Ali, algo dentro dela quebrou de vez.
Não era falta de amor.
Era falta de coragem.
— Você está com medo de perder o poder — ela disse, finalmente entendendo. — E eu nunca fui prioridade.
Ele não negou.
E a não negação foi a confirmação.
Aurora assentiu lentamente.
— Eu não vou implorar.
— Eu sei.
— E não vou competir com sua ambição.
O maxilar dele tensionou.
Mas ele não a impediu.
Não a segurou.
Não lutou.
E isso doeu mais do que qualquer palavra.
Aurora virou as costas antes que as lágrimas escapassem. Caminhou pelo salão sob olhares atentos. Alguns curiosos. Outros satisfeitos.
A família Moretti estava ali.
Observando.
Vencendo.
Quando alcançou a saída, finalmente respirou.
O ar parecia pesado demais.
Ela colocou a mão sobre o próprio ventre instintivamente.
Um gesto inconsciente.
Um segredo que ainda não tinha contado.
Um segredo que ele jamais soube.
Naquela mesma manhã, Aurora havia descoberto que estava grávida.
Ela planejava contar naquela noite.
Imaginava o sorriso dele. O abraço. O brilho nos olhos.
Imaginava que aquela criança os uniria ainda mais.
Ironia cruel.
Agora, ela carregava sozinha a herdeira que o império tanto exigia, mas jamais aceitaria vindo dela.
Aurora fechou os olhos por um segundo.
Não.
Ela não correria atrás.
Não imploraria.
E, acima de tudo, não permitiria que aquela criança crescesse sentindo-se indesejada.
Se Lorenzo escolheu o poder, ela escolheria proteger o que restava.
Virou-se uma última vez.
Lá dentro, ele ainda estava parado no mesmo lugar.
Imóvel.
Observando-a ir embora.
Mas não se moveu.
E foi naquele instante que Aurora entendeu:
Alguns homens não perdem o amor.
Eles simplesmente o sacrificam.
Ela saiu da vida dele naquela noite.
Sem escândalo.
Sem despedida dramática.
Sem revelar que, dentro dela, o verdadeiro legado do CEO já existia.
E Lorenzo Moretti jamais imaginou que a maior consequência de sua escolha ainda estava por vir.