O relógio marcava quase meia-noite, mas Lorenzo Moretti permanecia sozinho no escritório da cobertura da família. A cidade abaixo dele brilhava como um tapete de luzes, cada lâmpada refletindo o poder que ele conquistara com esforço, disciplina e ambição. Era tudo dele ou ao menos deveria ser. Cada centímetro daquele império lembrava-lhe da responsabilidade que carregava desde os quinze anos, cada decisão moldada pela família, cada passo calculado para nunca falhar.
E, no entanto, por um momento, o vazio foi mais profundo do que qualquer sucesso poderia preencher.
Aurora. Seu nome ecoava em sua mente como uma melodia proibida, doce demais para ser esquecida, mas dolorosa demais para ser admitida. Ele podia reviver cada detalhe: o riso leve, a forma como ela inclinava a cabeça quando estava concentrada, a delicadeza das mãos que um dia tocaram as suas sem medo, confiantes, entregues.
Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando afogar o sentimento. Mas não conseguia.
Aurora não estava ali. Não estava na cobertura, não estava ao lado dele, e não havia planos para ela voltar. Ele havia decidido. E a decisão, fria e firme, precisava permanecer.
Lorenzo abriu os olhos. Sobre a mesa, os contratos esperavam. Alguns deles eram rotineiros fusões, aquisições, decisões de investimento. Outros eram mais pessoais, estruturando a própria vida que ele moldava com precisão: um noivado estratégico, alianças firmadas com a família mais influente do país, passos calculados para consolidar sua imagem de herdeiro imbatível.
E, ainda assim, nada parecia preencher o espaço que Aurora deixara.
Ele se levantou e caminhou até a janela. A cidade brilhava, indiferente, como se nada pudesse importunar o poder que ele tinha acumulado. Mas a lembrança dela era diferente. Ela não respeitava hierarquias, contratos ou estratégias. Ela era espontânea, intensa, impossível de domar e, de alguma forma, impossível de esquecer.
A escolha já estava feita. Ele optara pelo império, pelo futuro, pelo legado. E não havia volta. Mas a mente dele não aceitava completamente o preço dessa escolha.
A família o observava. Sempre observando. Sempre controlando. O pai, rígido e severo, nunca tinha espaço para fraqueza; a mãe, astuta e estratégica, esperava perfeição em cada movimento. Lorenzo havia aprendido a obedecer a cada expectativa, a cada regra. Ele podia ser brilhante, mas nada disso importava se a emoção o enfraquecesse.
Aurora era o teste que ele não estava pronto para passar. Ele não podia perder o controle. Ele não podia mostrar vulnerabilidade.
Mas, por dentro, ele sentiu algo estranho algo que jamais admitiria em voz alta: culpa.
Culpa por algo que ainda não sabia. Porque ele não sabia da criança. Ele não sabia que, naquele mesmo instante, Aurora carregava um pedacinho dele dentro dela. E que, por mais que ele tivesse escolhido o poder, o futuro o lembraria de que escolhas nunca são permanentes.
A manhã seguinte traria o anúncio oficial. Valentina Moretti, com sua postura impecável e sorriso estudado, seria apresentada como noiva de Lorenzo. Uma aliança perfeita, conveniente, estratégica. Aurora jamais faria parte disso. Ela jamais ocuparia aquele espaço nos holofotes ou nos contratos da família.
Ele sabia que isso seria um golpe. Que ela sentiria dor. Que ele, de alguma forma, seria o responsável. Mas o sacrifício era necessário. A ambição não podia esperar.
O telefone vibrou sobre a mesa, lembrando-o do mundo real, do império que exigia decisões agora. Lorenzo pegou o aparelho e confirmou algumas pendências com os diretores, sua voz firme e decidida contrastando com o turbilhão que tentava ignorar. Ele precisava parecer o mesmo de sempre: impenetrável, inabalável, seguro.
Mas a noite o lembrava que nem todo poder é suficiente para manter o coração protegido.
Lorenzo se levantou novamente e caminhou até a sacada. O vento frio da cidade tocou seu rosto, e ele fechou os olhos, tentando encontrar clareza. As luzes abaixo, as ruas movimentadas, os carros passando apressados, tudo era metáfora do mundo que ele controlava. Mas Aurora não se encaixava nesse mundo. Ela nunca se encaixou. E, talvez, por isso, ele a amasse tanto.
Um silêncio pesado tomou a cobertura. Não havia música, nem conversa, nem telefone tocando. Apenas o som da própria respiração. E, no meio do silêncio, uma sensação incômoda cresceu: ele havia escolhido o poder, mas não havia calculado a falta que o amor faria.
No dia seguinte, o anúncio seria feito. Valentina sorriria ao lado dele, uma noiva perfeita para os olhos do mundo. Todos aplaudiriam, todos comentariam sobre a estratégia brilhante do CEO. Mas, por trás dos sorrisos e dos flashes, Lorenzo carregaria consigo o vazio que Aurora deixara.
E, mesmo sem saber, ele não imaginava que aquele vazio estava apenas começando. Que a vida, em sua ironia cruel, logo mostraria que certas escolhas nunca permanecem sem consequências.
Enquanto os primeiros raios de sol começavam a iluminar a cidade, Lorenzo permaneceu ali, de pé, olhando para o horizonte, consciente de que nada, absolutamente nada, o prepararia para o que viria.
Aurora havia partido. Mas o legado de seu amor silencioso, profundo e inesperado começava a tomar forma.
E Lorenzo, por mais que tentasse, não conseguiria controlar os sentimentos que já haviam sido plantados. O império poderia esperar. Mas o coração… o coração jamais perdoaria tanto descuido.