Mundo ficciónIniciar sesiónDiego
Não era bem a minha intenção estar nas bodas dos Monteiros. Até gosto do casal. Eles têm três filhos lindos, são respeitados e, sem dúvida, os queridinhos de Soure. O problema é que, justo hoje, o meu esquema perfeito com a minha mais nova ficante foi por água abaixo. O motivo? Tive que assumir o posto de motorista do meu pai. Meu velho amanheceu indisposto, mas se recusou a perder o evento mais comentado da cidade. E não é exagero de interior: a ilha simplesmente parou! Todas as famílias que conheço em Soure e nas redondezas estão na fazenda para prestigiar o Miguel e a Jane. Passo os olhos pelas mesas adornadas de flores e solto um suspiro abafado. Nenhuma carinha nova interessante no horizonte. Tentando disfarçar a contrariedade, cumprimento com apertos de mão firmes os fazendeiros mais velhos que cruzam meu caminho, rindo das piadas sem graça sobre criação de gado e o preço da arroba do búfalo. Aproveito para pegar um salgado na bandeja de um garçom que passa e me servir de uma bebida. Ao fundo, a música regional, o bom carimbó que animava a recepção, começa a diminuir de volume, dando lugar a uma melodia instrumental suave. No centro do altar improvisado sob as árvores, o Padre Bello já se posiciona com sua bíblia em mãos, ajeitando a túnica. O início da renovação de votos está prestes a começar. Exatamente nesse momento de tédio solene que meu celular vibra no bolso da calça. Pego o aparelho com a habilidade treinada e deslizo o polegar pela tela. Quando vejo a notificação, um sorriso de canto me escapa no mesmo instante. A mensagem é daquela turista carioca gostosa que conheci numa feira artesanal em Belém. A mensagem veio curta e direta: “Tá na cidade, meu tigrão?” Logo abaixo, carregou uma foto que me faz prender a respiração. A mulher exibe seus dotes físicos numa lingerie preta absurdamente decotada, deitada de lado numa cama de hotel, com uma pose que não deixa margem para dúvidas. Porra! Eu definitivamente não estava preparado para receber uma imagem tão suculenta. Peço licença discretamente ao grupo de conhecidos e me afasto para o pé de uma mangueira. Me encosto no tronco e fico ali, admirando o proibidão na tela. Que delícia de mulher! Começo a digitar, empolgado: “Nas bodas de um amigo do meu pai aqui em Soure, mas se eu conseguir uma embarcação mais tarde, dou um jeito de ir aí te ver.” Apenas a ideia do que poderíamos fazer a noite toda faz minha frustração de mais cedo evaporar. A outra ficante de Soure já virou passado distante. — Diego! — uma voz familiar me tira do paraíso. Disfarço o susto, bloqueando a tela e encaro o cara loiro que me olha com um sorriso sarcástico e uma taça de vinho na mão. — Credo, Bil! Quer me matar de susto? — Pensei que tu não vinha... O que aconteceu pra arrastar essa cara de enterro até aqui? Suspiro, me encostando melhor na árvore: — Virei motorista e babá dos meus pais, acredita? O velho cismou que tinha que vir. Bil balança a cabeça de um lado para o outro, fazendo um teatro de lamento: — Eita! Trabalho duro... — Ele dá um passo à frente e coloca os olhos no meu celular. — Tá conversando com a "fruta" de ontem? — Não... — Meu sorriso se estica. — Essa é outra. Melhor. Ligo a tela rapidinho e mostro a foto. O miserável arregala os olhos, abre uma gargalhada abafada e me dá um empurrão amigável no ombro, quase derramando o vinho. — Puta que pariu! Tu não brinca em serviço mesmo, né? — Pois é, mano. E além disso, dá uma olhada em volta... Aqui só tem a velha guarda de Soure. Bil toma um gole do vinho, junta as sobrancelhas e me encara com ar de quem sabe de um segredo valioso: — Tá cego, é, Diego? Aqui tem umas frutinhas novas, cara. Se ficar só focado nesse celular, vai perder o que há de melhor na festa. — Como assim? — pergunto, franzindo o cenho. Ele ri mais baixo, inclinando-se na minha direção e sussurrando com malícia: — Tem uma mocinha ali atrás que tá te secando. Mas ó... disfarça. Vou me afastar um pouco pra tu dar uma olhada sem dar na cara. Ela tá com um vestido bege... Fingindo estar apenas observando a decoração de flores , olho por cima do ombro esquerdo de Bil, cruzando o gramado com o olhar. Lá está ela. Meus olhos se cravam nos dela, movidos mais por pura curiosidade do que por expectativa. No mesmo segundo em que nossos olhares se cruzam, a garota paralisa. Os olhos dela se arregalam levemente e os lábios desenham um "O" perfeito de surpresa. Em seguida, num gesto rápido e desesperado de disfarce, ela vira o rosto para o lado. O cabelo balança junto, caindo sobre o ombro e funcionando como um véu para tentar esconder a timidez. Avalio por dois segundos. Ela é bonitinha, sem dúvida. Uma fruta... mas verde. E para o meu consumo, convenhamos, eu só gosto de fruta bem madura e pronta para colheita. Volto a olhar para o Bil, que me encara ansioso por uma aprovação. — E aí? Gostou do que viu? Balanço a cabeça negativamente, dando de ombros: — Não é feia, mas é muito novinha ainda... Ela é filha de quem? Bil faz um gesto com a mão livre, mostrando que não tem a menor ideia. Antes que a gente pudesse continuar a especulação, a voz da mestra de cerimônias ecoa pelos alto-falantes. Começaria a cerimônia. Decidimos nos posicionar mais longe dos lugares reservados para a família. Todos estavam atentos ao altar, menos a garota do vestido bege. A cada dois minutos, eu sinto um comichão incômodo na nuca. Uma sensação estranha, quase física, como se uma cobra me espreitasse no mato, pronta para dar o bote enquanto eu estou ali, de costas e totalmente vulnerável.






