Mundo de ficçãoIniciar sessão
Soure, Ilha de Marajó
(Seis anos antes...) Janaína Os convidados de Jane, minha irmã e do meu cunhado Miguel começam a chegar na fazenda para testemunharem o maior e mais falado evento de Soure: a renovação de dez anos de casados, ou como pesquisei no G****e, as bodas de zinco. É fim de tarde, um espetáculo à parte. E como não posso perder a oportunidade e tirar belas fotos da paisagem, aponto o meu celular capenga, mas com câmera boazinha e registro para a eternidade o cenário pitoresco, repleto de búfalos que pastam placidamente pelo campo. Alguns minutos depois, sigo em direção ao local escolhido para as bodas. Ainda bem que é na fazenda do casal, porque posso sumir dali assim que terminar a cerimônia e escolher a foto para o concurso que pretendo me inscrever, categoria iniciante para a revista Rural. Passando longe dos meus pais e sobrinhos, observo a decoração feita em frente ao casarão da fazenda. Tudo adornado de flores naturais, vermelhas, rosas e brancas e fazendo um reconhecimento panorâmico pela área, em busca de duas "pessoinhas". " Onde estão aqueles sumidos?" Vou passando pelas mesas, cumprimentando com sorriso e menear de cabeça alguns convidados, até encontrar os dois no fundão, como se tivessem na escola, fingindo estudar. Ali estão meu irmão caçula, Jackson e minha amiga Lene. Acelero os passos e ao parar cruzo os braços ao notar o quanto estão distraídos... ou posso dizer atraídos? Conversam como se não tivesse tocando o sucesso da banda Calypso e nem o burburinho dos convidados se confraternizando a todo vapor ou o cheiro de churrasco atiçando sem dó. Bato o pé esquerdo com impaciência para deixar claro que estou bem ali na fuça deles. Os dois ignoram totalmente o ar da minha graça. Interrompo os pombinhos, forçando uma tosse seca. — Ei, Lene, não vai atrás desse aí não! Se ouvem, não conseguem parar a conversa sobre mangás, animes, doramas... Agh!!! Suspiro indignada. Será que estou tão sem graça assim, no meu vestido midi bege de crepe de seda , que me tornei invisível? — Que saco! — reviro meus olhos acinzentados em desaprovação. Jogo meu cabelo castanho para trás, sento perto de Lene e resolvo acalmar meus nervos num singelo " confisco" dos salgados e dos refris. Sem alternativa, volto a atenção para a festa, já procurando ângulos perfeitos com meu dispositivo. Foto daqui, foto de lá. Caras e bocas para as selfies. Dou um tempo para não acabar a memória do celular. Volto a observar o lugar. A decoração está linda, ok! O casal anfitrião animado, ok! Falando neles, como bons anfitriões recebem os convidados exalando a alegria de um casal belo e apaixonado. Festa na fazenda é hilária. Um festival de chapéus e botas de couro e vestidos coloridos. Parece mais um arraial junino, sem nada empolgante. Até que... Chega uma família que não conheço. Pulo meus olhos do casal de idosos e travo no belo rapaz ao lado deles. Elegância selvagem! Bem apropriado a ele naquela camisa branca comprida, desabotoada até um certo ângulo em que posso ver tatuagens. Desço o olhar para o cinto de couro legítimo e a calça jeans que acentua cada músculo da coxa... Uau! Quando ele exibe um sorriso de canto de boca, sinto o coração acelerar e um fogo esquentar minhas bochechas. Que gato! Os olhos caatanhos , o cabelo preto, meio arrepiado e aquele ar soberbo de quem sabe que todas babam por ele. É pura masculinidade e não consigo parar de olhar! Um suspiro sai quando ele se vira e vejo os atributos das costas largas e bunda bem feita. "Ai, meu santinho das mocinhas imaculadas! Não tenho idade pra tanta emoção. Tenho dezenove anos. Preciso focar no ENEM e nem moro aqui pra me apaixonar!" Sem perda de tempo, cutuco a Lene, entretida na conversa "Inter galática" agora sobre os cavaleiros de zodíaco . A amiga se assusta com a interrupção e pergunta, meio ríspida: — O que foi, mulher? Para não me denunciar, aponto discretamente com o queixo, e começo como não quer nada: — Aquela família... Nunca tinha visto por estas bandas... Lene segue o meu olhar, observa a família em questão e responde sem muito interesse — Ah... É o João e a Vera Magalhães... A fazenda deles fica mais perto de Salvaterra. Faço um cálculo mental. Não é tão longe daqui da fazenda Monteiro. E antes de Lene voltar a atenção total para Jackson, emendo: — E aquele ali é o filho deles? Após essa pergunta, percebo a mancada. Jackson e Lene me observam desconfiados. — Hum... Digo já pra mamãe que tu quer namorar! — meu irmão usa um tom ameaçador. — Eu? Deus me livre! — disfarço. — Nem você, tá? Provoco de propósito. Os dois se mexem desconfortáveis em suas cadeiras. Minha amiga observa o rapaz, que se junta a um grupo de fazendeiros para as costumeiras prosas sobre grana. Se recompõe e continua: — Diego é o maior raparigueiro da Ilha de Marajó. Nem se engrace. — Lene avisa, cirúrgica. — Ele só gosta de quenga e de mulher safada. Sinto um golpe invisível no peito. — Credo, amiga, ele nem é tão bonito! Só perguntei porque nunca tinha visto. ( Que mentira!) — Bom... Ele não faz o meu tipo e mesmo assim... É velho! Tem vinte e cinco anos! — E essa idade é de velho? Lene, ele é só seis anos mais velho que a gente! — Pra mim, sim! — Ela afirma, dando como encerrada a minha intromissão, voltando ao dengo com meu irmão. "Papa-anjo duma figa, meu irmão tem dezessete!" Tive vontade de gritar no pé do ouvido dela. Mas o pensamento voa quando a minha "distração" passa caminhando bem na minha frente e se encosta num tronco de uma mangueira. Ele está vidrado no celular. Um amigo dele se aproxima e após conversarem por um momento, vão se sentar num lugar mais distante, porém de onde estou, dá pra ver qualquer movimento dele. Que monumento!






