7. ELE ESTÁ SE APROXIMANDO DEMAIS!

Meu coração batia rápido demais.

Minhas mãos estavam úmidas, pegajosas, e eu tinha certeza de que ele perceberia.

Os olhos de Luther continuavam fixos na minha tatuagem.

Calmos.

Pacientes.

Esperando minha resposta.

Mas minha boca simplesmente não funcionava.

Ficou entreaberta, como se meu cérebro tivesse esquecido como formar palavras.

— Fiz alguma pergunta que não deveria? — ele perguntou, com suavidade.

Como não respondi, continuou:

— Essa tatuagem tem algum significado pessoal? — insistiu.

O olhar dele desceu novamente para o meu tornozelo.

Agora mais lento. Mais analítico. 

Senti um frio no estômago ao perceber seus olhos voltando a subir.

Deslizaram lentamente pelas minhas pernas.

Puxei a bainha do vestido com pressa. Havia coberto o número tatuado.

Ao mesmo tempo, aproveitei para secar discretamente a mão no tecido.

— Se não quiser dizer, senhorita… — ele fingia desistir.

— É uma data de aniversário — falei, sem encará-lo.

— Hum… faz sentido. Vinte e três de julho?

Era como se estivesse me ajudando a sustentar minha própria mentira.

— Uhum. Uma data de aniversário sim.

— O seu, suponho — sugeriu.

Por um segundo, considerei concordar. 

Mas bastaria um documento para desmontar tudo.

— Não. Aniversário minha mãe, senhor Luther.

— Ah, claro, claro. Interessante. Deve ser muito próxima dela, pelo visto.

Eu não era. Na verdade, nunca pudemos ser próximas.

O destino não quis ser gentil comigo.

— Somos um pouco distantes agora.

— Por quê?

— Eu posso não falar sobre isso?

Essa parte era sincera. Não precisei mentir.

Tocar no nome da minha mãe me faria desmoronar.

— Certamente, senhorita Rose. Não quero soar invasivo.

— Não se preocupe. Tá tudo bem.

Ele levou a xícara aos lábios e tomou um gole de chá com aparente despreocupação.

Meu olhar caiu no braço do senhor Luther.

Ele o contraiu levemente ao erguer a xícara. 

Era forte. Mais do que eu havia percebido antes.

Depois reparei em seu rosto.

A linha da mandíbula era marcada, quase dura. 

Ainda assim, havia algo… atraente demais ali.

Bonito.

Perigoso.

Fora do meu alcance.

— Bem, e quanto à entrevista… — era hora de mudar de assunto.

— Diga, senhorita Rose.

— Tem outras candidatas?

— Outras candidatas?

— Sim… imagino que tenha entrevistado outras meninas.

Ele relaxou levemente na poltrona, soltando uma pequena risada.

— Já conversei com algumas, sim.

— E quais são as minhas chances?

Luther me observou por alguns segundos antes de responder.

Ele devia estar pesando não só na pergunta, mas tudo em mim.

— Suas chances são boas — disse, por fim. — Mas começo a achar que você tem mais questões do que seu currículo mostra, senhorita Rose.

Meu coração pulou duas batidas. 

Gelei.

— Sinto muito se transpareci isso.

— Não me deve desculpas. Só acho que me antecipei um pouco.

Os olhos dele voltaram ao meu tornozelo.

Rápido, um piscar de olhos.

Depois voltaram a me encarar.

Eu me sentia totalmente exposta, mesmo coberta pelo vestido.

— Se antecipou em me entrevistar?

A resposta delee demorou. Na verdade nem veio.

— Seu currículo é bom — disse ele. — Bom demais para alguém de trinta anos.

— Se quiser perguntar mais alguma coisa… — falei, tentando recuperar algum controle.

— Hum… Há algo além do que colocou no currículo? Algo que não me contou?

Além de ser uma fugitiva de um ex-marido violento?

Bem, não. Acho que nada demais, senhor Luther.

— Creio que não tenho nada a acrescentar.

— Só a tatuagem… que não mencionou.

Engoli em seco.

— Não achei relevante falar dela, senhor.

Seu rosto estava estático em mim.

Aparentava decidir se insistiria naquele assunto ou não.

— Você sabe que terá que trabalhar aos finais de semana?

— Sim, estava no anúncio.

— E morar aqui?

Meu coração acelerou, dessa vez por outro motivo.

— Estou totalmente disposta.

— Às vezes será necessário viajar.

— Sem problemas.

— E nada de homens aparecendo na porta da casa.

Quase ri.

Homens eram a última coisa que eu queria por perto.

— Isso não será um problema.

Ele passou a mão pelo queixo, pensativo, desviando o olhar por um momento. 

O silêncio se alongou o suficiente para me deixar tensa outra vez.

— Sofia é uma garota com algumas questões, senhorita Rose.

— Tipo…?

— Ela perdeu a mãe.

Torci para que ele entrasse em detalhes, mas não foi adiante.

— Sinto muito.

— Mas não quero que seja permissiva com a menina por causa disso.

— Poderia explicar melhor?

— Certo. — Ele descansou a xícara na mesa. — Sofia tem só cinco anos…

Soltei uma risadinha ao olhar para a foto fofa de Sofia no porta-retrato.

— Tudo bem. Gosto de crianças pequenas.

Ele me cortou:

— Ela pode se apegar a você.

— Não vejo problemas, senhor Luther.

— Acho que não me entendeu.

— O que seria para entender?

Luther inclinou-se para frente, parecendo mais sério e enfático:

— Não quero que haja como se fosse mãe dela.

— Mas… eu não posso decidir o que a menina sentirá.

— Mas pode manter-se no seu lugar de babá.

— De forma alguma vou querer ocupar um lugar que…

— Apenas espero que fique ciente disso — ele me cortou outra vez.

Foi seco. 

Senti algo dentro de mim murchar.

A menininha da foto parecia doce. Como me manter fria?

— T-tudo bem. Acho que entendi tudo.

— Fico satisfeito. 

Outro silêncio longo.

Até pude escutar o tic-tac de algum relógio perdido pela sala.

— A vaga é sua, senhorita Rose. Seja bem-vinda.

Mal pude esconder a empolgação súbita.

Eram regras malucas, de um viúvo meio excêntrico.

Só que eu estava oficialmente empregada.

— Meu Deus… sério, senhor Luther?

— Sim. Pode começar amanhã.

Um alívio imediato me atravessou.

Eu me inclinei levemente para frente, sorrindo sem conseguir conter a felicidade.

— Muito obrigada. O senhor não se arrependerá.

Porém não esboçou muita reação.

Em vez diso, Luther se levantou e caminhou até mim com calma.

Meus olhos acompanharam seus movimentos até o senhor Luther parar bem à minha frente.

Perto.

Muito perto.

Próximo o bastamte para sentir o cheiro suave do seu perfume me invadir.

O silêncio que se formou era estranho… íntimo demais.

— Um momento, senhorita Rose.

— O que foi? — falei reparando a mim mesma,

A forma que me observou me fez sentir completamente errada.

Então senhor Luther estendeu a mão em minha direção…

A mão dele tocou a pele do meu ombro. 

Seu toque estava gelado. Mas nem por isso deixou de queimar.

E fez algo aparentemente banal.

Mas que ainda assim soou como um aviso.

Ele ajustou a alça do meu vestido. Apenas isso!

A laça havia descido pelo ombro sem que eu percebesse.

Há quanto tempo eu estava daquele jeito?

Esse era o motivo dele não parar de me e n carar?

O gesto do senhor Luther foi devagar demais para algo tão simples.

Eu podia jurar que…

— Pronto — disse ele se afastando um passo.

Minha respiração falhou por um instante ao encará-lo.

Era só uma alça boba, caída.

Mas…

… O senhor Luther me invadiu em uma fração de segundos.

Não fazia sentido aquilo me afetar tanto.

Ou foi o jeito que as pupilas negras dos olhos dele pareciam me…

Devorar?

POV SENHOR LUTHER

A entrevista como um todo foi uma tortura.

A moça era desajeitada, mas incrivelmente espontânea.

Porém, eu podia imaginar que meus desejos mais sombrios reacenderiam ali.

Ela preenchia exatamente os requisitos que meu inconsciente procurava.

Mas deveria recusá-la como babá da minha filha.

Claro que devria. Que merda, Luther!!

A protegeria de mim. Do que eu posso causar. Do que Alba me transformou.

Mas, em vez disso, me ergui e me permiti tocá-la com o pretexto da alça caída.

Ao sentir o choque na pele macia da nova babá, eu tive certeza:

As coisas desandariam muito em breve.

E meu lado sombrio tomaria conta de mim outra vez.

----------------------------------------

NOTA DA AUTORA: O que esse Luther está escondendo?????

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP