8. O QUARTINHO MISTERIOSO

POV LUTHER

Afaste-se dela.

Afaste-se, Luther, antes que seja tarde demais.

Porém, nada do que dissesse a mim mesmo me faria voltar atrás.

Os monstros dentro de mim acordaram ao vê-la.

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POV SENHORITA ROSE

A cena dele tocando minha pele se repetia na minha mente.

Mesmo depois que o gesto terminou, eu ainda sentia queimar a pele.

Não me lembrava do toque de um homem daquela forma. 

Não daquele jeito.

Aquilo mexeu comigo.

— Justine ajudará você com as dúvidas.

A voz do senhor Luther estava distante.

Eu estava imersa no que tinha acabado de ocorrer.

O olhar escuro sobre minha pele. Como se fosse atacar.

— Justine?

— A governanta de que te falei.

— Ah, sim sim — ri sem graça.

— Espero que dê tudo certo, senhorita Rose.

— Tambéme espero. Obrigada pela oportunidade de trabalhar aqui, senhor Luther.

Eu me ergui e fui cumprimentá-lo.

Mas como se eu tivesse algo contagioso, ele deu um passo para trás.

Olhou para minha mão estendida e depois para mim.

Pela reação dele, suspeitei de que tinha quebrado alguma regra não dita.

— Agradeça cuidando bem de Sofia. Isso fará toda a diferença para mim.

— Eu prometo que serei a melhor babá.

Ele não respondeu. 

Agora evitava meu olhar. Um senhor Luther inquieto assumiu dali em diante.

Era como se algo também tivesse mudado dentro dele. 

Desabotoou um botão da camisa perto do pescoço. Mas o ar estava gelado.

Não era calor aquilo, era?

— Espero que se saia bem. Já tivemos experiências ruins — disse, ainda sem me encarar.

— Darei o meu melhor, senhor Luther.

— Começa amanhã. Às cinco da manhã.

Ele já caminhava em direção à saída, com mais pressa do que parecia precisar.

— Mas…

— Nem um minuto atrasada, senhorita Rose — avisou, seco.

O homem calmo e controlado de antes parecia outro agora. 

Mais distante. Mais… tenso.

— Às cinco? — perguntei, esperando que ele respondesse.

Mas o senhor Luther simplesmente saiu da sala, como se não tivesse ouvido.

Pensei em segui-lo. 

Um “Ah..” morreu antes de se tornar frase.

Então parei no meio do caminho e dei de ombros:

— Certo… às cinco da manhã — murmurei, ajeitando a bolsa no ombro. — Meu Deus… por que tão cedo?

E então, como se meu corpo insistisse em me sabotar, a lembrança voltou.

A aça caida sem que eu percebesse.;

O toque.

Simples.

Breve.

Mas intenso demais.

Aquilo não era normal. Não para mim. 

E eu sabia que não poderia deixar aquilo crescer.

Eu era apenas uma babá.

Nada além disso.

— Falando sozinha, moça?

Meu corpo virou automaticamente. A voz áspera me fez estremecer.

— Desculpe… pensei alto.

— Percebo.

Era a governanta. Justine.

O rosto rígido, o nariz e o queixo marcados.

As sobrancelhas arqueadas davam a ela um ar permanentemente desconfiado.

— Precisa que eu a acompanhe até a saída? — perguntou, me analisando com atenção.

— Acho que estou perto — respondi, olhando para a porta.

— Está, sim.

O olhar dela foi até a saída… e voltou para mim. Como um aviso silencioso.

— Até amanhã — falei, tentando soar simpática.

— Até amanhã? — repetiu, com um leve sorriso duvidoso.

— Fui contratada como babá.

Justine contraiu levemente as maçãs do rosto. 

Aquilo era um sorriso… ou algo próximo disso.

— Ah… o senhor Luther a escolheu.

— Sim.

Um silêncio desconfortável se instalou entre nós.

— Certo. Amanhã conversamos melhor sobre a casa, então.

— Obrigada.

— Seu nome?

— Rose.

— Até amanhã, senhorita… Rose.

— Até.

A porta parecia mais proxima segundos antes. 

Senti o olhar dela nas minhas costas enquanto caminhava até a saída. 

Só consegui relaxar quando já estava do lado de fora.

— Que mulherzinha mais esnobe — murmurei comigo mesma.

Eu procurava meu celular na bolsa.

Até amanhã, senhorita Rose… — imitava Justine de maneira afetada — Que mulherzinha chata, Deus do ceu.

Desci dois pequenos lances de escada.

Antes de virar à direita, olhei para a casa novamente.

Era como se algo me chamasse.

Mas devia ter seguido adiante.

Pois lá estava ele.

Na janela do segundo andar.

Me observando.

Sem disfarçar.

Sem se importar em ser visto.

Senti meu corpo arrepiar.

Era distante, mas podia ver com clareza as pupilas escuras me invadindo.

E, naquele momento… pela primeira vez, considerei desistir daquele emprego.

Talvez eu devesse ter feito isso.

Talvez eu devesse ter ido embora.

Deveria ter ficado longe do senhor Luther.

POV SENHOR LUHTER

A vi ir embora. Sozinha, com a bolsa encolhida embaixo do braço.

Era visível o medo da menina, o receio no olhar.

Eu presumia que algo de muito ruim tinha acontecido a ela.

Não era uma garota comum, das que já trabalharam como babá.

Mas não sabia nada sobre ela. Nada aelm  do que estava no currículo.

Nenhum perfil de rede social, de trabalho.

Tudo nela... me intrigava.

Me fazia desejar coisas que eu não poderia mais.

Como aquele lugar, aquele maldito lugar que minha esposa morta adorqava.

Eu prometi a mim mesmo que nunca mais voltaria aquele quarto.

Aquele quartinho era ideia da Alba, sempre foi.

Aliás, ela tinha ideias perversas.

No fim do casamento, nada lembrava a mulher doce que conheci.

— Não vá até lá, seja forte — dizia a mim mesmo ja’descendo as escadas.

Mas a babá nova fez uma rachadura na muralha.

Eu não deveria, mas queria sentir de novo a quele frio na barriga.

A mesma sensação gostosa de dor ao cutucar uma ferida.

Quando dei por mim, já estava com a chave abrindo a porta do quartinho.

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NOTA DA AUTORA: Que quartinho é esse pelo amor de Deus?

E o que acontecia nele?

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