Richard Foster não dormiu naquela noite.
Passou horas encarando o teto, revivendo cada palavra dita pelo assistente de Brian Beckman, como se tentasse encontrar uma alternativa que simplesmente não existia. Ele sempre soube negociar, sempre encontrou uma saída, sempre conseguiu manter o controle mesmo nos piores cenários. Mas aquilo era diferente. Não era uma negociação comum. Era um ultimato.
E Brian Beckman não era o tipo de homem que fazia ameaças vazias.
Na manhã seguinte, ele já estava no carro antes mesmo do sol nascer completamente, com a decisão tomada de forma fria e prática, como tudo o que fazia quando o assunto envolvia negócios. Porque, no final das contas, era assim que ele enxergava aquilo.
Como um negócio.
A empresa Foster não era apenas uma fonte de renda. Era o nome da família, o status, a posição que sustentava tudo o que construíram ao longo dos anos. Perder aquilo significava cair. E Richard Foster não aceitava cair.
Quando entrou no prédio da própria empresa, a sensação era estranha. Tudo parecia igual, mas já não pertencia mais a ele. Os funcionários ainda o cumprimentavam com respeito, mas havia algo diferente nos olhares, como se todos já soubessem que o poder havia mudado de mãos.
Ele foi direto para a sala que antes era sua.
E encontrou alguém já esperando.
O assistente de Brian Beckman estava sentado com tranquilidade, como se aquele lugar já fosse dele há muito tempo.
— Senhor Foster — ele disse, levantando-se com educação — estava esperando por você.
Richard fechou a porta atrás de si.
— Eu tomei minha decisão.
O assistente o observou, atento.
— Aceito o acordo.
Não houve surpresa.
Apenas um leve aceno de cabeça, como se aquilo fosse o esperado.
— Ótimo.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado.
— O senhor Brian irá jantar com sua filha hoje à noite — o assistente continuou, ajustando o paletó com calma — prepare-a adequadamente.
Richard franziu a testa.
— Hoje?
— Sim. Meu chefe não é um homem conhecido pela paciência.
A mensagem era clara.
— E peça para que ela coloque um sorriso no rosto — ele completou, com um tom educado que não escondia a ameaça — ele aprecia… cooperação.
Richard assentiu, mesmo sentindo um peso incômodo no peito.
— Eu vou falar com ela.
— Recomendo que faça isso.
O assistente pegou sua pasta, já se preparando para sair.
— Porque, caso ela não esteja disposta a colaborar… as consequências não serão agradáveis.
E então saiu, deixando para trás um silêncio que parecia ainda mais opressor.
Quando Richard chegou em casa, não houve rodeios.
Ele chamou as filhas e a esposa para a sala, e o clima já dizia tudo antes mesmo que qualquer palavra fosse dita.
— Eu aceitei o acordo.
Cecília sentiu o estômago apertar.
— O quê?
— Você vai jantar com ele hoje à noite — Richard continuou, direto — e vai agir como a Celina.
O silêncio caiu pesado.
— Eu não vou fazer isso.
A resposta veio imediata.
— Você vai — a mãe disse, firme — e vai fazer isso direito.
Cecília deu um passo para trás, incrédula.
— Vocês perderam completamente a noção.
— Não — Richard respondeu, a voz mais dura — nós estamos tentando salvar essa família.
— Me usando.
— Fazendo o que é necessário.
O ar parecia faltar.
— Você vai se arrumar de forma impecável, vai agir como sua irmã e vai sorrir — a mãe continuou, fria — não me faça passar vergonha.
Cecília riu, sem humor.
— Isso é doentio.
— Doentio é ver tudo o que construímos acabar — Richard rebateu.
— Então deixa acabar — ela disse, a voz tremendo — eu não vou viver uma mentira por causa disso.
O tapa veio rápido.
O som ecoou pela sala, fazendo o silêncio se tornar ainda mais pesado.
— Para de ser mimada — ele disse, olhando diretamente para ela — eu não vou falir por sua causa.
As lágrimas vieram, mas Cecília não abaixou a cabeça.
— Sua filha quer roubar o meu noivo, a minha vida… e você diz que eu sou mimada?
Richard respirou fundo, como se aquilo fosse irrelevante.
— Celina não suportaria um casamento com alguém como Brian Beckman.
As palavras vieram frias.
Calculadas.
— Mas você suporta.
O impacto foi imediato.
Não havia preocupação ali.
Não havia dúvida.
Apenas uma decisão.
Cecília ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo, sentindo algo dentro dela quebrar de forma definitiva.
Porque não era sobre escolha.
Nunca foi.
— Se você não fizer isso — a mãe disse, se aproximando — nós vamos cortar tudo. Você não terá para onde ir, não terá apoio, não terá nada.
A ameaça foi clara.
— Você vai perder tudo.
Cecília fechou os olhos por um instante.
Respirou.
Mas o ar ainda parecia insuficiente.
— Você vai para aquele jantar — Richard finalizou — e vai fazer exatamente o que precisa ser feito.
O silêncio que se seguiu não foi de concordância.
Foi de rendição.
Porque, naquele momento, Cecília Foster entendeu que não havia saída.
E que, gostando ou não…
Naquela noite, ela seria entregue ao homem mais perigoso de Nova York.