Mundo de ficçãoIniciar sessãoA batida da música eletrônica na Boate Pandora era tão forte que fazia os copos tremerem nas mesas. O ar era denso, carregado de fumaça, perfume barato e feromônios.
No camarote VIP, Clara ria. Era uma risada solta, genuína, algo que ela não ouvia sair de sua própria garganta há anos. O champanhe Dom Pérignon subira à sua cabeça, deixando tudo leve e dourado.
Marco, o acompanhante, estava cumprindo seu papel com maestria. Ele não tentava tocá-la de forma desrespeitosa. Ele apenas a ouvia. Ele elogiava seu sorriso, seus olhos, a forma como o vestido vermelho abraçava seu corpo. Ele a fazia sentir vista.
— Então você está me dizendo que nunca viajou para Paris? — Marco perguntou, servindo mais uma taça para ela. — Com todo esse estilo? É um crime.
— Meu marido dizia que Paris é clichê — Clara respondeu, o sorriso vacilando por um segundo. — Ele viaja para lá todo mês. Mas nunca me levou. Disse que eu ficaria entediada enquanto ele trabalhava.
— Ele é um idiota — Marco disse, erguendo a taça. — Um brinde aos idiotas que deixam diamantes em casa.
Clara brindou, o cristal tinindo.
— Aos idiotas — ela repetiu.
De repente, a música parou.
Não foi uma transição de DJ. Foi um corte abrupto, seco. As luzes estroboscópicas cessaram, e as luzes de emergência brancas se acenderam, revelando a realidade crua da boate: chão pegajoso, maquiagem borrada, rostos confusos.
Um murmúrio correu pela multidão. Seguranças enormes, vestindo ternos pretos que custavam mais que o carro de Marco, abriram caminho pela pista de dança como Moisés abrindo o Mar Vermelho. Eles não empurravam; as pessoas simplesmente se afastavam diante da aura de poder que emanava deles.
E atrás deles, caminhava Ricardo Albuquerque.
Ele ainda usava o terno cinza-chumbo de três peças que vestira para a reunião em Tóquio, mas a gravata estava frouxa e o paletó desabotoado. Seu rosto era uma máscara de pedra, mas seus olhos… seus olhos eram dois poços de escuridão varrendo o local com um desprezo absoluto.
Clara sentiu o coração parar. O álcool evaporou de seu sangue instantaneamente.
Ele estava ali. Ele realmente estava ali.
Ricardo subiu os degraus para a área VIP sem olhar para ninguém. Ele sabia exatamente onde ela estava. O instinto de predador o guiava.
Quando ele chegou ao camarote, parou.
A cena diante dele era um insulto pessoal. Clara, sua esposa, vestida como uma deusa do pecado em vermelho sangue, rindo com um garoto bonito que tinha a mão pousada casualmente no encosto do sofá, a centímetros do ombro dela.
O silêncio no camarote era ensurdecedor. Marco, percebendo a mudança na atmosfera e reconhecendo o homem mais rico do país, recolheu a mão lentamente e se levantou.
— Sr. Albuquerque… — Marco começou, o charme profissional desaparecendo diante do perigo real.
Ricardo nem olhou para ele. Ele olhou apenas para Clara.
— Levante-se — Ricardo disse. Sua voz não era um grito. Era baixa, calma e terrível.
Clara sentiu o velho medo, o reflexo condicionado de obedecer, tentar assumir o controle de seus músculos. Levante-se. Peça desculpas. Baixe a cabeça.
Mas então ela se lembrou da mancha no cérebro. Dos noventa dias. Do vaso quebrado.
Ela não se levantou. Ela cruzou as pernas, a fenda do vestido se abrindo ainda mais, e tomou um gole lento de champanhe.
— Você demorou, querido — ela disse, sustentando o olhar dele. — A festa já está acabando.
Uma veia pulsou na têmpora de Ricardo. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.
— Eu disse para se levantar, Clara. Você já se humilhou o suficiente por uma noite. Vamos embora. Agora.
— Eu não estou humilhada — Clara sorriu, um sorriso afiado. — Estou me divertindo. Algo que você nunca me proporcionou. Aliás, este é o Marco. Ele custou vinte mil reais, mas já me deu mais atenção em uma hora do que você em três anos. Acho que foi um excelente investimento.
O rosto de Ricardo ficou branco de fúria. Ele agarrou o pulso de Clara, não com força suficiente para machucar, mas com firmeza suficiente para mostrar que a conversa tinha acabado.
— Acabou o show — ele rosnou.
Ele a puxou para cima. Marco fez menção de intervir, mas um dos seguranças de Ricardo colocou a mão no peito dele, parando-o com um olhar.
— Não se envolva, garoto — o segurança avisou. — Ou você não sai daqui andando.
Ricardo arrastou Clara para fora do camarote. Ela não resistiu fisicamente, mas manteve a cabeça erguida enquanto passavam pela multidão silenciosa. Todos olhavam. O grande Ricardo Albuquerque, arrastando sua esposa rebelde para fora de uma boate.
Ao chegarem à calçada fria, onde o Maybach blindado esperava com o motor ligado, Ricardo a soltou como se ela queimasse. Ele a prensou contra a porta do carro, o corpo dele cobrindo o dela, o cheiro de sândalo e fúria invadindo os sentidos de Clara.
— O que diabos você pensa que está fazendo? — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — Expulsar minha mãe? Gastar uma fortuna com um prostituto? Você perdeu o juízo?
— Talvez — Clara respondeu, sentindo o coração bater forte contra as costelas. Não de medo, mas de adrenalina. — Ou talvez eu tenha finalmente encontrado.
— Você quer atenção, Clara? É isso? — Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo. — Parabéns. Você conseguiu. Agora você tem toda a minha atenção.
Ele abriu a porta do carro e a empurrou para dentro.
— Para casa — ele ordenou ao motorista. — E tranque as portas. Ninguém entra e ninguém sai daquela mansão até eu dizer o contrário.







