Mundo ficciónIniciar sesiónA batida ensurdecedora da música eletrônica na Boate Pandora era tão forte que fazia as taças de cristal e os copos de uísque tremerem sobre as mesas do camarote VIP. O ar do ambiente era denso, pesado, impregnado por fumaça de narguilé, fragrâncias de perfumes importados e uma energia palpável de pura libertação e pecado.
No camarote mais reservado do andar superior, Clara ria. Era uma risada solta, genuína, límpida — um som que ela não ouvia sair de sua própria garganta havia pelo menos três longos e sufocantes anos. O champanhe Dom Pérignon, servido trincando de gelo, subira rapidamente à sua cabeça, deixando todos os seus pensamentos leves, dourados e livres de qualquer amarra.
Marco, o acompanhante contratado com o cartão do marido, estava cumprindo o seu papel com maestria irretocável. Ele não tentava tocar em Clara de forma vulgar ou desrespeitosa. Em vez disso, ele apenas a ouvia. Ele elogiava a luz do seu sorriso, a intensidade do seu olhar e a forma impecável como o vestido vermelho-sangue abraçava cada curva do seu corpo. Pela primeira vez em anos, Marco a fazia se sentir verdadeiramente vista e desejada.
— Então você está me dizendo que nunca viajou para Paris? — Marco perguntou, erguendo a garrafa e servindo delicadamente mais uma taça para ela. — Uma mulher com todo esse charme e estilo? Isso é um verdadeiro crime.
— Meu marido sempre dizia que Paris é um clichê ultrapassado — Clara respondeu, o sorriso vacilando no rosto por um mero segundo ao mencionar o nome dele. — Ele viaja para lá quase todo mês para fechar negócios com a divisão da holding. Mas nunca me levou. Dizia que eu ficaria entediada e seria uma distração enquanto ele trabalhava.
— Ele é um completo idiota — disse Marco, erguendo a taça com um olhar caloroso. — Um brinde aos idiotas que deixam diamantes raros trancados em casa.
Clara ergueu a taça, fazendo o cristal tinir com um som cristalino.
— Aos idiotas — ela repetiu, tomando um gole demorado.
De repente, a música parou.
Não foi uma transição suave entre faixas conduzida pelo DJ. Foi um corte abrupto, seco e violento. As luzes estroboscópicas que piscavam em tons de néon cessaram de uma só vez, e as luzes de emergência brancas e difusas da casa se acenderam, revelando a realidade crua e sem maquiagem da boate: o chão de taco pegajoso, rostos maquiados com traços de suor e olhares profundos de profunda confusão.
Um murmúrio apreensivo correu instantaneamente por toda a multidão na pista de dança.
Seguranças enormes, vestindo ternos pretos impecáveis que custavam mais do que o carro de Marco, abriram caminho pela pista como Moisés abrindo o Mar Vermelho. Eles não precisavam empurrar ninguém; as pessoas simplesmente se afastavam em pânico diante da aura de poder e perigo que emanava daqueles homens.
E logo atrás deles, caminhava Ricardo Albuquerque.
Ele ainda usava o terno cinza-chumbo de três peças que vestira para a reunião em Tóquio, mas a gravata estava levemente frouxa e o paletó aberto. Seu rosto era uma máscara esculpida em pedra, mas seus olhos... seus olhos eram dois poços profundos de escuridão, varrendo a boate com um desprezo absoluto por tudo e por todos.
Clara sentiu o coração falhar uma batida no peito. Todo o efeito do álcool pareceu evaporar do seu sangue instantaneamente, deixando apenas a clareza cortante da realidade.
Ele estava ali. Ele realmente atravessara o mundo para ir buscá-la.
Ricardo subiu os degraus em direção à área VIP sem olhar para nenhum dos frequentadores ao redor. Ele sabia exatamente em qual camarote ela estava; o instinto de predador e o rastreador da conta o guiavam com precisão cirúrgica.
Quando ele finalmente pisou no camarote, parou.
A cena diante de seus olhos era um insulto pessoal, direto e imperdoável à sua soberba. Clara, sua esposa, vestida como uma deusa do pecado em um vestido vermelho-sangue, rindo descontraidamente ao lado de um garoto jovem e atraente que tinha a mão pousada de forma casual no encosto do sofá, a escassos centímetros do ombro dela.
O silêncio dentro do camarote tornou-se ensurdecedor. Marco, percebendo a mudança drástica na atmosfera e reconhecendo imediatamente o homem mais influente e rico do país, recolheu a mão lentamente do encosto do sofá e se levantou da poltrona de veludo.
— Sr. Albuquerque… — Marco começou a dizer, a postura elegante e o charme profissional desaparecendo diante da ameaça real que pairava no ar.
Ricardo nem sequer olhou para ele. Seus olhos permaneciam cravados exclusivamente em Clara.
— Levante-se — disse Ricardo. Sua voz não foi um grito. Foi um comando baixo, frio, calmo e absolutamente terrível.
Clara sentiu o velho pavor de anos voltar à tona por um segundo — aquele reflexo condicionado de baixar a cabeça, obedecer e tentar conter os estragos. Levante-se. Peça desculpas. Baixe a cabeça.
Mas então, em uma fração de segundo, a lembrança da imagem do exame veio à sua mente. O tumor. Os noventa dias restantes. O vaso de cristal explodindo contra a cômoda.
Ela não se levantou. Em vez disso, Clara cruzou as pernas devagar, a fenda ousada do vestido se abrindo ainda mais sobre a coxa, e tomou um gole lento e calmo do champanhe na taça.
— Você demorou, querido — disse ela, sustentando o olhar sombrio dele sem piscar. — A festa já está quase no fim.
Uma veia saltou visivelmente na têmpora de Ricardo. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com sua presença sufocante.
— Eu disse para se levantar, Clara. Você já se humilhou o suficiente por uma única noite. Vamos embora daqui. Agora.
— Eu não estou nem um pouco humilhada — Clara sorriu, um sorriso afiado, perigoso e radiante. — Eu estou me divertindo. Algo que você nunca se deu ao trabalho de me proporcionar em três anos. Aliás, este é o Marco. Ele custou vinte mil reais no seu cartão, mas já me deu mais atenção em uma hora do que você em toda a nossa vida de casados. Acho que foi um excelente investimento.
O rosto de Ricardo perdeu a pouca cor que tinha, ficando branco de pura fúria contida. Ele se curvou e agarrou o pulso de Clara — não com força suficiente para machucá-la, mas com firmeza inabalável para demonstrar que a conversa havia terminado.
— Acabou o show — ele rosnou entre os dentes.
Ele a puxou para cima com autoridade. Marco fez um menção sutil de dar um passo à frente para intervir, mas o chefe da segurança de Ricardo colocou a mão espalmada contra o peito do jovem, parando-o no lugar com um olhar fulminante.
— Não se envolva, garoto — o segurança advertiu em um tom baixo e gutural. — Ou você não sai deste prédio andando.
Ricardo arrastou Clara para fora do camarote e pelas escadas. Ela não ofereceu resistência física, mas manteve o queixo erguido e os ombros retos enquanto atravessavam a multidão silenciosa da pista. Todos assistiam à cena em choque: o poderoso e intocável Ricardo Albuquerque arrastando sua esposa rebelde para fora de uma boate decadente no centro.
Ao alcançarem a calçada fria da rua, onde o Maybach blindado esperava com o motor ligado e as portas abertas, Ricardo a soltou como se a pele dela queimasse. Em um movimento rápido, ele a prensou contra a lataria do carro, seu corpo cobrindo o dela, enquanto o aroma forte de sândalo misturado à raiva pura tomava conta dos sentidos de Clara.
— O que diabos você pensa que está fazendo da sua vida? — ele sibilou, o rosto a milímetros do dela, as pupilas dilatadas. — Expulsar a minha mãe da mansão? Gastar uma fortuna do meu dinheiro com um prostituto? Você por acaso perdeu totalmente o juízo?
— Talvez — Clara respondeu, sentindo o coração desacelerar e pulsar forte contra as costelas. Não por pavor, mas pela pura descarga de adrenalina que corria em seu sangue. — Ou talvez eu tenha finalmente encontrado o meu juízo.
— Você quer atenção, Clara? É isso que você está buscando com esse circo todo? — Ele segurou o queixo dela com os dedos, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos. — Pois parabéns. Você conseguiu. Agora você tem toda a minha atenção.
Ele abriu a porta traseira do veículo blindado e a empurrou para o banco de couro.
— Para a mansão — Ricardo ordenou ao motorista com voz de trovão, entrando logo em seguida e batendo a porta com força. — E tranque os portões principais. Ninguém entra e absolutamente ninguém sai daquela propriedade até que eu dê a ordem.
O Maybach arrancou pela noite fria, as travas automáticas do carro disparando com um estalo seco e definitivo. Clara olhou pelo vidro fumê para as luzes da cidade que ficavam para trás, sentindo o silêncio denso e perigoso que se instalara entre ela e o marido no banco traseiro.
Clara ajeitou o decote do vestido vermelho com calma, encostou a cabeça no banco e olhou para Ricardo com um sorriso provocante, sabendo que a verdadeira guerra pela sua liberdade estava apenas começando assim que as trancas daquela mansão se fechassem.







