Capítulo 8: A Guerra Fria Esquentou

O trajeto da boate até a Mansão Albuquerque foi percorrido sob um silêncio sufocante e pesado. O ar no interior do Maybach blindado parecia rarefeito, completamente consumido pela fúria contida que emanava de Ricardo. Ele mantinha o olhar cravado na estrada, com o maxilar travado com tanta força que um músculo de sua bochecha pulsava ritmicamente sob a pele.

Clara, por sua vez, observava a paisagem do lado de fora da janela. As luzes da metrópole passavam como borroes coloridos de néon pela vidraça escura. À medida que os minutos avançavam, ela sentia a névoa do champanhe desaparecer, sendo substituída por uma clareza fria e cristalina. Ela estava no mesmo veículo com o homem mais influente do país — um empresário capaz de desmantelar impérios comerciais com um simples telefonema — e ele estava tremendo de raiva. Por causa dela.

Pela primeira vez em três anos de casamento, ela não era uma figura invisível na vida dele. Ela tornara-se o centro do universo de Ricardo, ainda que um centro alimentado por puro ódio e ego ferido.

Quando o Maybach parou diante da imensa entrada da mansão, Ricardo não esperou que o motorista contornasse para abrir a porta. Ele saltou do carro e abriu a porta de Clara com um puxão brusco e violento.

— Para dentro — ordenou ele, com a voz grave.

Clara desceu sem pressa, ajeitando com calma a alça fina do vestido vermelho-sangue. Ela não correu nem demonstrou hesitação. Caminhou com a cabeça erguida, ouvindo o som firme de seus saltos agulha estalando contra o pavimento de pedras portuguesas. Subiu os degraus da fachada como uma rainha que caminha rumo ao próprio julgamento — ou à sua consagração.

Assim que cruzaram as portas do hall de entrada, onde os cacos do vaso e os destroços da cômoda francesa já haviam sido minuciosamente recolhidos por uma equipe de limpeza acionada às pressas, Ricardo dispensou os funcionários com um aceno rígido de mão.

— Sumam — rosnou ele, sem olhar para os lados. — Quero esta casa absolutamente vazia em dois minutos.

Assim que a porta de acesso à cozinha se fechou e o silêncio do mármore os envolveu por completo, Ricardo virou-se para ela. Toda a sua armadura de autocontrole corporativo ruiu diante dos olhos de Clara.

— Quem é você? — perguntou ele em tom baixo, denso e perigoso, dando passos lentos em sua direção como um predador encurralando a presa contra o canto da sala. — Porque a mulher com quem eu me casei não se veste como uma prostituta de luxo, não frequenta boates de quinta categoria e, definitivamente, não coloca a minha mãe para fora da minha própria casa.

Clara não deu um passo para trás. Manteve-se firme, sentindo a irradiação de calor do corpo dele e a energia bruta que ele emanava.

— A mulher com quem você se casou morreu de tédio, Ricardo — respondeu ela, sustentando a força daquele olhar sem piscar. — Eu sou apenas o que sobrou dela.

— Não brinque comigo, Clara — avisou ele, reduzindo a distância até ficar a poucos centímetros do rosto dela, invadindo seu espaço pessoal. — Você tem a menor dimensão do escândalo que poderia ter causado? Se um único paparazzi tivesse fotografado você com aquele... garoto de aluguel? As ações da Albuquerque Tech despencariam logo no início do pregão amanhã de manhã!

Clara soltou uma risada curta, seca e amarga.

— As ações. Claro. Sempre o valor das ações — ela balançou a cabeça, encarando-o com desdém. — Eu passei três longos anos interpretando a esposa submissa e exemplar unicamente para proteger o valor das suas preciosas ações. Eu sorri em jantares corporativos insuportáveis, usei as roupas bege sem graça que você aprovava, aguentei sua mãe me chamando de inútil, falida e interesseira dia após dia. E onde você estava durante tudo isso, Ricardo?

— Eu estava trabalhando! — esbravejou ele, a voz ecoando com força pelas paredes e pelo teto alto do hall. — Trabalhando duro para pagar por este teto, por essas roupas de alta costura, por essa vida de rainha que você leva sem precisar mover um dedo!

— Vida de rainha? — Clara ergueu a voz pela primeira vez, a raiva represada explodindo em seu peito. — Isso aqui nunca foi um palácio, Ricardo! É uma prisão de luxo! Eu sou uma prisioneira trancada que recebeu um cartão de crédito ilimitado para compensar a sua ausência! Você me trancou nesta casa e jogou a chave fora. Você nem sequer sabe a cor dos meus olhos, Ricardo! Você sabe? Sem olhar para o meu rosto, me diga agora a cor dos meus olhos!

Ricardo piscou, pego de surpresa pela pergunta inesperada. Ele abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu de sua garganta. Ele olhou diretamente para ela — realmente olhou para o rosto da esposa após anos de desatenção — e enxergou as nuances de castanho-dourado e os pequenos detalhes verdes ao redor da íris. Ele sabia, mas percebeu, com um solavanco no peito, que jamais havia prestado atenção suficiente para notar.

— Exatamente — sussurrou Clara, a voz carregada de um triunfo amargo. — Você não sabe nada a meu respeito. Não sabe o que eu gosto de comer, não sabe os livros que eu leio, não sabe nada sobre o que eu sinto. Você só se lembra de que eu existo quando eu quebro uma antiguidade ou gasto o seu dinheiro.

— Eu lhe dei absolutamente tudo... — começou ele, mas a defesa soou vazia até para os seus próprios ouvidos.

— Você me deu coisas materiais! — Clara apontou para o lustre de cristal Baccarat e para as obras de arte nas paredes. — Eu não queria coisas, Ricardo. Eu queria um marido de verdade. Eu queria alguém que chegasse em casa e me perguntasse como fora o meu dia. Mas agora... — ela deu de ombros com um gesto de fria indiferença que atingiu o ego dele mais do que qualquer acusação. — Agora é tarde demais. Eu não quero mais você. Eu quero apenas o que o seu dinheiro pode comprar. Diversão. Prazer. Vida real.

Ricardo avançou e a agarrou pelos ombros, os dedos pressionando a pele nua do vestido com força contida.

— Você é a minha esposa — sibilou ele, aproximando o rosto a ponto de ela sentir a respiração quente e descontrolada dele. — Você carrega o meu sobrenome. Você mora na minha casa. Você é minha. E não vai sair por aí agindo como uma solteira desesperada por atenção.

— Ou o quê? — provocou Clara, com um brilho desafiador nos olhos. — Vai me bater? Vai mandar me trancar no porão? Vai pedir o divórcio?

A palavra divórcio congelou o ar entre os dois. Ricardo sentiu uma contração estranha no peito que não soube classificar. Medo? Não, ele não aceitava a ideia de perder o controle sobre algo que considerava seu. Era puro sentido de posse.

— Eu nunca vou lhe dar o divórcio — declarou ele, articulando cada sílaba como uma sentença definitiva. — Você vai permanecer nesta casa. Vai continuar agindo como a Sra. Albuquerque. E se ousar pisar fora da linha novamente, eu corto até o último centavo da sua mesada. Cancelo seus cartões, demito seus empregados e deixo você sem nada.

Clara olhou para ele e, para o absoluto espanto de Ricardo, começou a rir.

Não era uma risada histérica ou acuada. Era uma gargalhada solta, genuína e profunda. Ela ria porque a ameaça dele era patética. O que significava perder dinheiro para quem só tinha noventa dias de vida? O que significava ficar sem cartões para quem estava com os dias contados?

— Você realmente acredita que pode me controlar com ameaças financeiras? — perguntou ela, enxugando uma lágrima de riso do canto do olho. — Ah, Ricardo... você é tão previsível. Tão pequeno.

Ela se desvencilhou das mãos dele com um movimento rápido e firme, virando as costas e caminhando com elegância em direção à imensa escadaria de mármore.

— Aonde você pensa que vai? — questionou ele, atordoado pela ausência total de medo no comportamento dela.

— Para o meu quarto. A suíte master — Clara fez uma pausa no primeiro degrau da escada e olhou para trás por cima do ombro, a seda vermelha do vestido desenhando as linhas de suas costas. — E Ricardo? Não se dê ao trabalho de trancar a porta. Eu não vou a lugar nenhum. Eu vou ficar exatamente aqui e assistir você tentar lidar com a mulher que você mesmo ajudou a criar.

Ela subiu os degraus sem olhar para trás, deixando-o sozinho na imensidão do hall, cercado por sua fortuna, sua autoridade e sua completa incapacidade de dobrá-la.

Ricardo encarou as próprias mãos, que ainda guardavam a sensação do toque na pele dela. Em um impulso de pura frustração, desferiu um soco violento contra a parede de mármore ao lado, esfolando os nós dos dedos enquanto a dor física tentava anestesiar sua fúria.

Clara estava irreconhecível. Algo fundamental havia se quebrado dentro dela — ou despertado de forma irreversível. E, pela primeira vez em sua trajetória de riscos calculados e controle absoluto, Ricardo Albuquerque não tinha a menor ideia do seu próximo passo.

Enquanto ouvia o som abafado do soco dele lá embaixo, Clara fechou a porta da suíte master e encostou as costas na madeira fria. A respiração estava acelerada, mas os lábios ainda ostentavam aquele sorriso sombrio.

Ela sabia exatamente o que passava pela cabeça de Ricardo. Ele achava que a trancaria ali. Acreditava que isolá-la naquela gaiola de ouro, cortar seus limites e impor sua presença seria a vitória definitiva dele sobre a sua rebeldia. Ele achava que a mantinha sob controle.

Clara caminhou até o closet, tirou o vestido vermelho e olhou para o próprio reflexo no espelho. A contagem regressiva continuava correndo em sua mente, mas agora cada segundo parecia pulsante de vida e vingança.

Se Ricardo pensava que a noite na boate fora o limite do seu desespero, ele não perdoaria o que estava por vir. Ele achava que conhecia o jogo, mas não tinha a menor ideia das peças que ela moveria assim que o sol nascesse.

Deitada na cama king size que agora dominava sozinha, Clara fechou os olhos com um riso silencioso, sabendo que Ricardo mal podia esperar pelo amanhecer — e que ele jamais estaria preparado para o que ela faria amanhã.

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