PRIMEIRA NOITE

Abracei meu próprio corpo e corri para o banheiro.

Abri o chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Não usei sabonete, precisava sentir que ainda existia um lugar em que eu tinha algum controle.

Fiquei ali, me permitindo apenas existir, depois me enrolei na toalha e encarei minha imagem no espelho.

— Meu Deus, o que eu faço?

Foi a primeira vez que duvidei do plano. De repente as luzes se apagaram.

Gritei com o susto. O breu fez meu coração disparar. Fui para a cama e me enfiei embaixo do edredom ainda com os cabelos pingando.

Fechei os olhos e me encolhi, logo depois ouvi um barulho estranho.

Noah... Eu sabia que era ele. Já conhecia o cheiro daquele corpo, o calor que a presença dele emanava. Estremeci quando me peguei pensando nele.

Não na raiva que eu sentia, mas no efeito que aqueles olhos meio selvagens tinham sobre mim.

Ouvi o barulho de algo caindo no chão, talvez a roupa, e o peso do corpo dele mexendo o colchão. Fiquei encolhida no canto da cama, a pele nua como ele tinha ordenado, os olhos abertos tentando enxergar algo naquela escuridão.

Dava para ouvir a respiração dele, pausada, calma. Ele não estava tentando dormir. Parecia estar se divertindo com o meu medo.

— Suzanna teria vindo rastejando para o meu lado. Eu não a tocava por acreditar na virgindade fingida daquela puta. Deveria ter desconfiado que uma mulher que se engasgava no meu pau não podia ser a santinha da família. Quer provar?

O nome da minha irmã na boca dele doeu de um jeito estranho em mim. Não queria saber as coisas que Suzanna fazia.

Me encolhi ainda mais.

Eu sentia o calor dele atravessando o espaço entre nós. Meu corpo, traidor e estúpido, começou a desejar que a cama fosse menor.

— Não sou ela.

— Eu sei. Ela tinha curvas. Você é puro osso. Mas a pele... a pele é macia o suficiente para o que eu preciso.

Ele se virou de lado. Senti o colchão balançar.

A mão dele tocou o meu braço, depois o ombro, e quando envolveu minha cintura, Noah me puxou para perto dele de uma vez.

Uma parte de mim queria que ele acabasse com aquilo, que me usasse e me deixasse em paz, mas outra parte, o lado burro, desejava que ele me olhasse como mulher.

— Está tremendo por quê, Aurora? Medo de eu cumprir o seu papel?

Controlei o tremor dos meus dentes para não baterem. Não ia implorar. Não ia pedir para ele se afastar e nem para ele se aproximar.

Se ele queria um objeto, teria uma estátua.

— Relaxa, Aurora. Eu não misturo raiva com prazer. Quando eu te foder vai ser só com raiva. Não vai sentir prazer, vou garantir isso.

O medo se misturou com a tristeza. Eu não era desejada, era só um pagamento que ele estava adiando por puro nojo do meu sobrenome.

Ele não me queria agora porque eu era um lembrete do que Suzanna havia feito.

E assim como eu o vi como ponte para atingir a minha irmã, Noah me enxergava como alvo pelo mesmo motivo.

Fechei os olhos com força.

As lágrimas ameaçaram descer, mas eu prendia a respiração e engoli.

Ele não teria o meu choro.

Se ele queria me quebrar através do desprezo, ele teria que se esforçar mais. Eu sobrevivi a quatro anos de isolamento e freiras sádicas. Eu sobreviveria a um homem que acha que o dinheiro comprou minha alma junto com meu corpo.

Tentei ficar acordada, mas o cansaço me venceu.

Acordei sentindo um calor gostoso, meu corpo parecia relaxado e seguro. Abri os olhos, a luz da manhã tinha iluminado a escuridão da noite anterior.

Olhei para o lado com os olhos arregalados.

Eu não só havia dormido nua ao lado de Noah Blanc. Eu estava quase em cima dele.

Minha perna sobre o corpo forte, meu braço apoiado na barriga firme e minha cabeça em seu peito. O cheiro dele invadiu minha manhã.

Queria me afastar, mas o medo de que o movimento o fizesse acordar me manteve paralisada.

Fechei os olhos outra vez. Talvez aquela posição tivesse o mesmo efeito nele que teve em mim. Eu não estava casada com Noah para ser a boneca de prazer dele.

Meu objetivo era conquistá-lo. Fazê-lo me escolher e juntos derrubaríamos Suzanna. A mulher que ele odiava era o meu alvo. Não podíamos ser inimigos.

No entanto, quando Noah acordou, ele simplesmente girou o corpo e saiu da cama. Foi para o banho. Eu ouvia a água batendo contra o azulejo e minha mente me traía imaginando detalhes dele que eu não conhecia.

Quando Noah saiu, o cheiro de vapor com sândalo tomou o quarto. Achei que ficaria sozinha, então apenas continuei com os olhos fechados.

Ouvi ele se vestir, o som dos passos dando a volta na cama e a boca quase colada ao meu ouvido.

— Prepare-se. Hoje você vai aprender a se comportar como uma Blanc.

Não fiquei sozinha.

Noah Blanc deixou meu medo como meu companheiro. Aquela frase tinha um peso muito maior do que a voz sussurrada anunciou.

Ele queria me expor. Me levar para o mundo dele e mostrar a todos que ele havia trocado de brinquedo.

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