Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3
Menos de cinco minutos depois, Rafael saiu, devolveu a chave ao funcionário. O motorista, endireitou o corpo ao vê-lo. - Bom dia, senhor. Rafael respondeu com um gesto seco e entrou no banco de trás sem dizer nada. Assim que o carro começou a rodar, Rafael deixou escapar um suspiro longo e nervoso. Encostou a cabeça no encosto e passou a mão pelo rosto, esfregando os olhos. Aquela mulher foi embora tão cedo. Ela não fazia a mínima ideia de quem ele era? Os portões automáticos da mansão Valença foram abertos pelo controle do motorista. Rafael saiu do carro sem esperar que o motorista abrisse a porta. O paletó estava no banco ao lado e a gravata na mão. Assim que entrou no hall, ouviu passos apressados na escada. - Pai? Ele ergueu os olhos para o filho, Daniel, que descia ajeitando o relógio no pulso, estava vestido com roupa social.e o jaleco dobrado sobre o braço. - Justo no sábado? - Rafael perguntou, tirando o relógio e colocando sobre o aparador de mármore. - Sou médico, pai. Tenho que fazer plantão. Rafael soltou um suspiro leve, cruzando os braços. - Quem vai ser o CEO quando eu morrer? Daniel arqueou uma sobrancelha, descendo os últimos degraus. - O senhor ainda terá muitos anos. Pode ter mais filhos. Rafael franziu o cenho para o filho. - Engraçadinho. O filho sorriu parando diante do pai e o analisou com atenção. - De onde veio com a gravata na mão? Rafael olhou para o tecido amassado entre os dedos como se só agora percebesse que ainda o segurava. - Reunião que se estendeu. - Numa sexta à noite? - Daniel inclinou levemente a cabeça. Silêncio. Rafael estreitou os olhos. - Está me vigiando agora? - Não. - O filho deu de ombros. Rafael soltou um suspiro irritado. - Cuide da sua vida. Daniel observou o pai por alguns segundos. Havia algo diferente nele, parecia irritado e distraído. - Foi boa pelo menos? - Daniel perguntou com um meio sorriso provocador. O pai hesitou. Daniel abriu um sorriso mais largo, pela pausa do pai. - Então foi. Rafael passou a mão pelo rosto, impaciente. - Vá para o seu plantão. Daniel andou até à porta, mas antes de sair, disse: - Cuidado, pai. Às vezes uma noite só é suficiente para mudar tudo. Ele subiu as escadas lentamente. No quarto, tirou a camisa, deixando cair no chão. O cheiro dela ainda estava em seu corpo. Era doce e Viciante. Ele fechou os olhos por um segundo. - É só ter outra que essa sensação vai passar. Ele tirou o cinto diante do espelho quando a porta do quarto foi aberta. - Rafael? - Valéria interrompeu-se ao observar o tórax do ex-marido. - Quem deixou você entrar, Valéria? Ela deu um passo à frente, sem disfarçar o olhar. - Mesmo depois de tantos anos, seu corpo ainda é lindo. Nós poderíamos... Ele suspirou, mas antes que ela terminasse a interrompeu: - Não podemos nada. Diga o que quer e vá embora. Ela fechou a porta atrás com calma, como se ainda tivesse direito àquele quarto. - Eu não preciso que ninguém me deixe entrar. Essa casa já foi minha também. Rafael colocou outra camisa, ignorando o comentário. - Foi. - A ênfase foi seca. - No verbo passado. Ela deu alguns passos pelo quarto, os saltos batendo no piso de madeira. - Engraçado... - murmurou. - Você nunca trazia mulheres para casa quando éramos casados. Sempre tão discreto. Tão correto. - E continuo sendo. Valéria cruzou os braços, analisando-o. - O motorista fala demais - ele disse, irritado. - Então mande trocar o motorista. - Mande você, já que ainda acha que manda em algo aqui. Ela se aproximou mais, parando a poucos centímetros. - Eu conheço você, Rafael Valença. Quando algo mexe com você, você fica assim... distante. Irritado e pensativo. Ele terminou de fechar o último botão. - Não há nada mexendo comigo. Valéria inclinou a cabeça. - Tem alguém. Silêncio. Ela sorriu, sem humor. - Quem é? - Não é da sua conta. - Foi sério? Ele respirou fundo, impaciente. - Não foi nada. - Então por que você está tentando se convencer disso? Ele passou a mão pelos cabelos, perdendo por um segundo o controle que sempre manteve impecável. - Diga o que quer, Valéria. Ela respirou fundo, deixando a provocação de lado. - Daniel. - O que tem ele? - Ele está se envolvendo demais com o hospital. Está assumindo responsabilidades que não são dele ainda. - Ele é meu filho. Um dia vai assumir tudo. - Ele é médico, Rafael. Não você. Não o seu reflexo. Rafael estreitou os olhos. - Está dizendo que eu o pressiono? - Estou dizendo que você transforma tudo em negócio. Inclusive pessoas. Ele ficou em silêncio. - Só não destrua seu filho tentando moldá-lo à sua imagem. Ela caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se uma última vez. - E cuidado com essa mulher... seja lá quem for. Homens como você nunca sabem lidar quando não estão no controle. Ele caminhou até a janela. "É só ter outra e essa sensação vai passar." Ele repetiu mentalmente, como um mantra. *** Enquanto isso, Daniel chegava ao Hospital Valença. Era recém-formado, um clínico geral, que em poucos meses de profissão já se destacava por seus esforços e não por ser filho do dono. Passou o crachá no ponto eletrônico e andou pelo corredor principal, organizando mentalmente os atendimentos de plantão. Ao virar a esquina apressado, esbarrou em alguém. Ele segurou a mulher pela cintura para evitar que ela caísse. - Sinto muito, Maitê... Ela ergueu os olhos surpresa e assustada com o impacto. - Doutor Daniel...






