Capítulo 3

Capítulo 3

Os portões automáticos da mansão Valença foram abertos pelo controle do motorista. Rafael saiu do carro sem esperar que o motorista abrisse a porta. O paletó estava no banco ao lado e a gravata na mão.

Assim que entrou no hall, ouviu passos apressados na escada.

- Pai?

Ele ergueu os olhos para o filho, Daniel, que descia ajeitando o relógio no pulso, estava vestido com roupa social.e o jaleco dobrado sobre o braço.

- Justo no sábado? - Rafael perguntou, tirando o relógio e colocando sobre o aparador de mármore.

- Sou médico, pai. Tenho que fazer plantão.

Rafael soltou um suspiro leve, cruzando os braços.

- Quem vai ser o CEO quando eu morrer?

Daniel arqueou uma sobrancelha, descendo os últimos degraus.

- O senhor ainda terá muitos anos. Pode ter mais filhos.

Rafael franziu o cenho para o filho.

- Engraçadinho.

O filho sorriu parando diante do pai e o analisou com atenção.

- De onde veio com a gravata na mão?

Rafael olhou para o tecido amassado entre os dedos como se só agora percebesse que ainda o segurava.

- Reunião que se estendeu.

- Numa sexta à noite? - Daniel inclinou levemente a cabeça.

Silêncio.

Rafael estreitou os olhos.

- Está me vigiando agora?

- Não. - O filho deu de ombros.

Rafael soltou um suspiro irritado.

- Cuide da sua vida.

Daniel observou o pai por alguns segundos. Havia algo diferente nele, parecia irritado e distraído.

- Foi boa pelo menos? - Daniel perguntou com um meio sorriso provocador.

O pai hesitou.

Daniel abriu um sorriso mais largo, pela pausa do pai.

- Então foi.

Rafael passou a mão pelo rosto, impaciente.

- Vá para o seu plantão.

Daniel andou até à porta, mas antes de sair, disse:

- Cuidado, pai. Às vezes uma noite só é suficiente para mudar tudo.

Ele subiu as escadas lentamente. No quarto, tirou a camisa, deixando cair no chão. O cheiro dela ainda estava em seu corpo. Era doce e Viciante.

Ele fechou os olhos por um segundo.

- É só ter outra que essa sensação vai passar.

Ele tirou o cinto diante do espelho quando a porta do quarto foi aberta.

- Rafael? - Valéria interrompeu-se ao observar o tórax do ex-marido.

- Quem deixou você entrar, Valéria?

Ela deu um passo à frente, sem disfarçar o olhar.

- Mesmo depois de tantos anos, seu corpo ainda é lindo. Nós poderíamos...

Ele suspirou, mas antes que ela terminasse a interrompeu:

- Não podemos nada. Diga o que quer e vá embora.

Ela fechou a porta atrás com calma, como se ainda tivesse direito àquele quarto.

- Eu não preciso que ninguém me deixe entrar. Essa casa já foi minha também.

Rafael colocou outra camisa, ignorando o comentário.

- Foi. - A ênfase foi seca. - No verbo passado.

Ela deu alguns passos pelo quarto, os saltos batendo no piso de madeira.

- Engraçado... - murmurou. - Você nunca trazia mulheres para casa quando éramos casados. Sempre tão discreto. Tão correto.

- E continuo sendo.

Valéria cruzou os braços, analisando-o.

- O motorista fala demais - ele disse, irritado.

- Então mande trocar o motorista.

- Mande você, já que ainda acha que manda em algo aqui.

Ela se aproximou mais, parando a poucos centímetros.

- Eu conheço você, Rafael Valença. Quando algo mexe com você, você fica assim... distante. Irritado e pensativo.

Ele terminou de fechar o último botão.

- Não há nada mexendo comigo.

Valéria inclinou a cabeça.

- Tem alguém.

Silêncio.

Ela sorriu, sem humor.

- Quem é?

- Não é da sua conta.

- Foi sério?

Ele respirou fundo, impaciente.

- Não foi nada.

- Então por que você está tentando se convencer disso?

Ele passou a mão pelos cabelos, perdendo por um segundo o controle que sempre manteve impecável.

- Diga o que quer, Valéria.

Ela respirou fundo, deixando a provocação de lado.

- Daniel.

- O que tem ele?

- Ele está se envolvendo demais com o hospital. Está assumindo responsabilidades que não são dele ainda.

- Ele é meu filho. Um dia vai assumir tudo.

- Ele é médico, Rafael. Não você. Não o seu reflexo.

Rafael estreitou os olhos.

- Está dizendo que eu o pressiono?

- Estou dizendo que você transforma tudo em negócio. Inclusive pessoas.

Ele ficou em silêncio.

- Só não destrua seu filho tentando moldá-lo à sua imagem.

Ela caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se uma última vez.

- E cuidado com essa mulher... seja lá quem for. Homens como você nunca sabem lidar quando não estão no controle.

Ele caminhou até a janela.

"É só ter outra e essa sensação vai passar."

Ele repetiu mentalmente, como um mantra.

***

Enquanto isso, Daniel chegava ao Hospital Valença. Era recém-formado, um clínico geral, que em poucos meses de profissão já se destacava por seus esforços e não por ser filho do dono.

Passou o crachá no ponto eletrônico e andou pelo corredor principal, organizando mentalmente os atendimentos de plantão.

Ao virar a esquina apressado, esbarrou em alguém. Ele segurou a mulher pela cintura para evitar que ela caísse.

- Sinto muito, Maitê...

Ela ergueu os olhos surpresa e assustada com o impacto.

- Doutor Daniel...

Os dois ficaram imóveis.

Maitê estava com a prancheta contra o peito. O uniforme claro marcava a cintura fina que ele ainda estava segurando. Ele a soltou devagar.

- Desculpa. Eu estava distraído.

- Eu também - ela respondeu, ajeitando a prancheta. - Plantão de sábado costuma ser uma guerra.

Daniel sorriu.

- Ainda dá tempo de fugir.

Ela arqueou uma sobrancelha.

- E deixar o hospital nas suas mãos? Melhor não.

Ele riu baixo. Enquanto ela se afastava pelo corredor, Daniel não conseguia evitar observar.

- Maitê? - ele chamou.

Ela parou e se virou.

- Você está bem?

Ela hesitou por meio segundo.

- Estou. Só não dormi muito.

Ele assentiu e ficou olhando enquanto ela seguia para a ala clínica.

- Ela é linda demais - disse o cardiologista, parando ao lado dele.

Daniel acompanhou o olhar do colega pelo corredor.

- É... e não é fácil.

O médico sorriu.

- Eu já percebi suas investidas, Daniel.

- Nenhuma deu certo até agora.

- Talvez esteja na hora de mudar o foco.

Daniel cruzou os braços e olhou para o médico.

- Ainda não. Não desisto tão fácil.

- Às vezes é perda de tempo. Mas, admiro sua persistência. Bom, vamos trabalhar.

Daniel o seguiu até a sala de cirurgia e no caminho sorriu para si mesmo. Maitê era encantadora e não queria desistir, pois talvez ela não tenha percebido suas intenções.

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