Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander
O dia em que deixei tudo para trás
Com o coração partido, falei quase sem pensar, as palavras escapando antes que eu pudesse segurá-las:
— Eu não sei o que fazer, Elizabeth… eu sou só um garoto. Você tem apenas quinze anos. O que podemos fazer?
Ela me encarou com os olhos marejados, a respiração irregular, como se cada palavra custasse um pedaço dela.
— Não faz isso comigo, Alex… — disse, a voz frágil. — Eu vinha esperando o tempo certo pra gente. Eu sei que somos adolescentes, mas… — ela engoliu em seco — você pode ficar na casa de algum parente. Só não me deixa. Por favor.
O meu coração apertou de um jeito tão violento que achei que fosse parar. Levantei da cama de repente, incapaz de continuar olhando para ela sem desmoronar. Fiquei de pé, de frente para a janela, observando a chuva bater no vidro como se refletisse exatamente o que acontecia dentro de mim.
— Eu realmente não sei o que fazer, Liz… — falei com a voz embargada. — Não tenho escolha. Tenho apenas dezessete anos. Eu dependo dos meus pais. Na minha vida, só tenho certeza de uma coisa…
Ela levantou-se devagar e posicionou-se atrás de mim. Não me tocou. Mesmo assim, eu sentia o calor do corpo dela, tão perto, tão presente, como sempre foi.
— Do que você tem certeza, Alexander? — perguntou, quase num sussurro.
Virei-me para ela. A minha voz tremia quando respondi:
— Do que eu sinto por você, Liz. Eu nunca falei nada… sempre quis esperar o tempo certo, por sermos tão jovens, mas… — a minha voz falhou — Eu te amo. Eu amo você mais do que a mim mesmo.
O silêncio entre nós parecia ensurdecedor.
Não pensei. Não sei se agi pela razão ou pela emoção. Talvez eu nem estivesse completamente em mim naquele instante. Apenas segurei o rosto dela com as duas mãos. O meu coração disparou, a respiração ficou descompassada. Olhei profundamente nos olhos dela — aqueles olhos que sempre me encontraram — e a beijei.
Foi meu primeiro beijo.
Foi simples. Quente. Tremido. Apenas o toque dos lábios, hesitante, verdadeiro. Ela envolveu-me pela cintura, e ficamos ali por alguns segundos que pareceram eternos, sem saber exatamente o que estávamos fazendo, apenas sentindo.
O meu corpo inteiro parecia em alerta, como se cada sentido tivesse despertado ao mesmo tempo.
Então ela afastou-se um pouco, os olhos brilhando pelas lágrimas.
— Não me deixa, Alex… — disse. — Não vai embora. Eu também sinto tudo isso por você.
Eu não sabia o que fazer.
Eu só agia por impulso.
Sem dizer mais nada, pulei de volta pela janela.
— Eu te amo, Liz… — falei, já do lado de fora.
Senti a mão dela segurar o meu antebraço com força.
— Não vai… por favor… — ela chorava. — Não me deixa. Alex, não me deixa.
O meu braço escorregou lentamente da mão dela, molhado pela chuva e pelas lágrimas.
— Eu jamais vou te esquecer — disse, sentindo o peito se partir de vez.
E fui embora, pedalando debaixo da chuva, levando comigo a dor de um amor que não viverei.
O amanhecer chegou sem pedir permissão.
O céu ainda estava cinza quando acordei, pesado, como se carregasse o mesmo luto silencioso que eu sentia por dentro. A chuva da madrugada tinha cessado, mas o chão permanecia molhado, como uma lembrança insistente de que nada tinha sido apenas um pesadelo.
Eu não dormi.
Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Elizabeth. O brilho das lágrimas, o calor do abraço, o gosto do beijo que ainda parecia preso à minha boca. Tudo em mim doía. Não havia parte do meu corpo que não carregasse a sensação de perda.
As malas estavam alinhadas no corredor, prontas. Organizadas demais para um coração completamente fora do lugar. Minha mãe falava algo sobre documentos e horários, meu pai conferia o relógio com pressa contida. A casa estava estranhamente silenciosa, apesar do movimento.
Eu caminhei pelos cômodos devagar, tocando nas paredes como se pudesse gravar cada detalhe na memória. Aquela casa tinha sido meu mundo. Aquele país, minha história. E Elizabeth… ela era tudo o que eu não podia levar comigo.
Antes de sair, olhei o celular.
Nenhuma mensagem nova.
Nenhuma ligação.
Talvez ela tivesse dormido de exaustão. Talvez estivesse chorando. Talvez estivesse acordada, como eu, que ha pouco encarava o teto, tentando entender como o amor podia doer tanto.
Entrei no carro e sentei-me no banco de trás. O motor foi ligado, e aquele som simples teve o peso de um ponto final. Quando o portão se abriu, senti o coração apertar de novo. Olhei para a rua, para as casas vizinhas, para cada esquina que conhecia de cor.
Era ali que a minha vida tinha sido construída.
Era ali que ela estava.
Enquanto o carro avançava, cada metro percorrido parecia arrancar algo de mim. As ruas passavam rápidas demais, como se o mundo tivesse pressa em me levar para longe. Eu mantinha o olhar fixo na janela, tentando não chorar, tentando ser forte — sem saber exatamente para quem.
No aeroporto, tudo parecia grande demais. Frio demais. Pessoas demais. Idiomas misturados, passos apressados, anúncios metálicos. E eu ali, com dezessete anos, carregando um amor que não cabia em nenhuma mala.
Quando finalmente chamaram o nosso voo, senti as pernas fraquejarem. Segurei o chaveiro que guardava no bolso — a única coisa que ainda me ligava a ela fisicamente — e respirei fundo.
Antes de entrar no avião, olhei para trás.
Não porque eu esperasse vê-la ali.
Mas, porque uma parte de mim ainda acreditava em milagres.
O avião decolou, e São Paulo/SP foi ficando pequena, distante, até desaparecer por completo sob as nuvens. Foi naquele instante que entendi: eu não estava apenas deixando o Brasil.
Eu estava deixando o amor da minha vida.
E, enquanto o céu se fechava ao redor de mim, fiz uma promessa silenciosa que só o tempo poderia cobrar:
Se o destino foi cruel ao nos separar, um dia ele teria que ser justo o suficiente para nos reencontrar.
***
Michigan.
Quando o avião tocou o chão, senti o impacto muito além das rodas na pista.
Era como se algo dentro de mim tivesse sido arrancado definitivamente do lugar. O anúncio em inglês soou distante, quase irreal. As pessoas aplaudiram, aliviadas. Eu permaneci imóvel no assento, com o olhar perdido, segurando a alça da mochila como se aquilo fosse a única coisa sólida naquele momento.
Estados Unidos.
Michigan.
O nome não carregava nenhum significado emocional para mim. Não ainda. Era apenas o lugar onde eu teria que aprender a sobreviver sem ela.
O aeroporto era imenso, frio, barulhento. Tudo parecia grande demais, rápido demais, impessoal demais. As vozes ao redor se misturavam num idioma que eu entendia, mas não sentia. Cada anúncio, cada passo, cada olhar desconhecido reforçava a certeza de que eu estava longe de tudo o que me fazia ser quem eu era.
Enquanto caminhávamos, pensei nela. Em Elizabeth atravessando os corredores da escola sozinha. Em Elizabeth acordando naquela manhã sem saber que, naquele exato instante, eu estava do outro lado do mundo. O peito apertou de novo, do mesmo jeito de sempre, como se a dor tivesse se instalado ali para morar.
A casa nova parecia saída de um catálogo. Grande, moderna, silenciosa demais. As paredes eram brancas, vazias, sem história. O meu quarto tinha móveis novos, uma cama maior, uma janela que dava para uma rua desconhecida. Nada ali me pertencia de verdade.
Fechei a porta e sentei na beira da cama.
O silêncio era ensurdecedor.
Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O fuso horário era cruel, mas a ausência dela era ainda mais. Abri a galeria de fotos. O rosto dela sorriu para mim através da tela, e foi ali que senti a saudade se transformar em algo físico. Uma dor que não era só no coração, mas no corpo inteiro.
Naquela primeira noite, chorei como nunca tinha chorado antes.
Chorei baixo, sufocado, para que ninguém ouvisse. Chorei pela distância, pelo beijo interrompido, pelas palavras que ainda ecoavam na minha mente. Chorei por tudo o que não viveríamos. Pelo futuro que ficou no Brasil, parado no tempo.
Os dias seguintes passaram arrastados.
A nova escola era um choque constante. Pessoas novas, sotaques diferentes, risadas que não me incluíam. Eu sorria quando necessário, respondia quando me perguntavam algo, mas por dentro estava vazio. Ninguém ali sabia quem eu era. Ninguém conhecia a minha história. Ninguém pronunciava o meu nome como ela pronunciava.
As noites eram as piores.
O quarto escuro, o frio do lado de fora, o barulho distante do vento batendo nas árvores. Eu fechava os olhos e era o rosto dela que aparecia. Sempre ela. O jeito como me olhava, a forma como dizia Alex, como se fosse mais do que apenas um nome.
Eu escrevia mensagens que nunca enviava. Apagava tudo antes de apertar “enviar”. O medo de ouvir o sofrimento dela me paralisava. O medo de confirmar que a distância estava fazendo estragos que eu não poderia impedir.
O tempo passou. Lentamente. Cruelmente.
E, mesmo cercado de novas possibilidades, de uma vida que prometia conforto e futuro, eu só conseguia pensar numa coisa:
De que adianta ganhar o mundo inteiro se eu perdi a pessoa que fazia o mundo valer a pena?
Eu estava nos Estados Unidos.
Mas meu coração ainda estava no Brasil.
Preso a Elizabeth. Preso ao amor que deixei para trás.
E, mesmo tentando seguir em frente, eu sabia:
Algumas saudades não diminuem com o tempo.
Elas apenas aprendem a conviver com a dor.







