Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander
Dez anos depois...
Dez anos passaram-se.
Às vezes eu digo isso em voz alta, como se ouvir as palavras pudesse convencer-me de que o tempo cumpriu realmente o que prometeu. Dez anos desde aquela madrugada de chuva. Desde o beijo interrompido. Desde o dia em que deixei o Brasil acreditando que a distância, com o tempo, faria doer menos.
Não fez.
Hoje tenho vinte e sete anos. Sou o que muitos chamariam de bem-sucedido. Me formei em administração, trabalho na empresa que meu pai construiu com tanto esforço. Uso ternos caros, participo de reuniões importantes, assino contratos que movimentam números altos demais para um garoto que, um dia, só queria ficar.
A vida seguiu.
Eu segui.
Mas nem tudo foi comigo.
Michigan tornou-se rotina. As estações bem definidas, o inverno rigoroso, as ruas organizadas. Aprendi a gostar do silêncio, da disciplina, da previsibilidade. Aprendi a comportar-me como um homem que sabe exatamente onde está pisando, mesmo quando, por dentro, ainda caminha em terreno instável.
Já amei outras mulheres. Ou pelo menos tentei.
Relacionamentos vieram e foram. Alguns mais longos, outros breves demais para deixar marcas. Todas tinham algo em comum: nenhuma era ela. Nenhuma pronunciava o meu nome como Elizabeth pronunciava. Nenhuma me fazia sentir aquela urgência doce, aquela certeza silenciosa de pertencimento.
Às vezes, no meio de uma reunião importante, a minha mente viaja sem aviso. Vejo uma janela iluminada em meio a chuva. Ouço trovões. Sinto o calor de um quarto simples, o cheiro de chocolate quente, o peso de um abraço que pedia para eu ficar.
Volto rápido. Sempre volto.
Aprendi a esconder bem.
Meu pai se orgulha de mim. Minha mãe diz que eu me tornei um homem admirável. Colegas me respeitam. Mulheres olham-me com interesse. A vida, vista de fora, parece completa.
Mas há um silêncio que me acompanha desde a adolescência.
Um silêncio que só existe quando se perde algo que nunca foi realmente vivido por inteiro.
Ainda penso nela. Não todos os dias — mentiria se dissesse isso — mas com frequência suficiente para saber que o amor não envelheceu. Ele apenas mudou de forma. Ficou mais contido, mais calmo… mais profundo.
Às vezes pergunto-me quem Elizabeth se tornou. Se seguiu os sonhos que me contava. Se ainda gosta das mesmas músicas. Se alguém segura o rosto dela hoje como eu segurei naquela noite. A ideia aperta o peito, mas não machuca como antes. Agora é uma dor conhecida. Familiar.
O que mais me assusta não é a saudade.
É a certeza de que, se eu a encontrasse novamente, bastaria um olhar para que tudo aquilo que ficou em suspenso voltasse a existir.
Alguns amores não pedem permissão para permanecer.
Eles apenas ficam.
E eu sigo vivendo, construindo uma vida sólida, madura, respeitável… enquanto uma parte de mim ainda é aquele garoto de dezessete anos, parado no meio da chuva, prometendo que jamais esqueceria.
Promessas, descobri com o tempo, não envelhecem.
As pessoas é que aprendem a conviver com elas.
Cheguei em casa após um dia intenso de trabalho. A empresa estava fervendo. Reuniões intermináveis, contratos para revisar, decisões que não podiam esperar. Eu ocupava a posição de diretor-geral da Duran Automobilística. A empresa do meu pai cresceu de forma absurda nesses dez anos. Às vezes, penso que cresceu mais rápido do que consegui acompanhar emocionalmente.
Assim que entrei, larguei as chaves sobre o aparador e fui direto para o banho. Precisava silenciar a mente.
Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, levando embora o cansaço físico, mas não os pensamentos. Eles sempre ficavam. Já passava das dezoito horas quando desliguei o chuveiro. Enrolei a toalha na cintura e fui até o quarto. Sentei-me na cama, cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o chão, ausente.
Foi quando ouvi a porta se abrir.
— Oi, meu amor — Marcela disse, com a voz leve e alegre. — Tudo bem?
Levantei o olhar. Ela estava linda, como sempre. Marcela é de estatura mediana, por volta de 1,65 de altura. Usava um vestido simples, o cabelo loiro, pareciam fios de ouro soltos, caindo em ondas abaixo dos ombros, o mesmo sorriso que sempre tentava puxar-me de volta para o presente.
— Estava te aguardando para jantarmos — continuou. — Fiz uma comidinha caseira deliciosa. Eu mesma preparei para você.
Sorri de leve.
— Você não precisava… — respondi, a voz baixa.
Ela se aproximou mais, animada.
— Precisava sim. Dispensei a Marta hoje. Disse que a cozinha seria comandada por mim — brincou. — Queria fazer algo especial para o meu marido.
Ela disse marido com orgulho, como se a palavra ainda fosse nova na boca dela. E talvez ainda fosse.
— Obrigado, Marcela — falei, sincero. — Foi um dia longo.
Ela sentou ao meu lado na cama e passou a mão de leve pelo meu braço molhado.
— Eu percebi… — disse com carinho. — Você anda trabalhando demais, Alexander. Quase não para.
— É só uma fase — respondi, no automático.
Ela inclinou o rosto, tentando beijar-me. Eu virei levemente a cabeça e o beijo acabou ficando na minha bochecha. Marcela disfarçou com elegância, como sempre fazia.
— Vou te esperar lá embaixo — disse, se levantando. — Não demora, tá?
— Já desço.
Quando ela saiu, fiquei alguns segundos parado, respirando fundo.
Sim… há dois anos, Marcela e eu nos conhecemos numa boate. Eu estava perdido nos meus dias e pensamentos, afundado em lembranças que insistiam em me acompanhar, assim como um copo de uísque. Ela chegou de mansinho no balcão, me oferecendo uma bebida, puxando conversa como se já me conhecesse há anos.
Ela é uma mulher muito bonita de um sorriso contagiante. Marcela fez-me bem durante um tempo. Ela e meu pai são os únicos que sabem sobre a Liz.
Desde o começo, fui honesto com ela.
Quando ainda estávamos nos conhecendo, contei sobre esse amor que carrego comigo desde a adolescência. Quando começamos a namorar, deixei claro que os meus sentimentos não estavam completamente livres. Ela soube. Mesmo assim, quis ficar. Permanence. Até hoje. Ela não é uma má pessoa, ao contrário, vem se dedicando a mim, mais do que eu a ela…
Nos casamos.
E estamos seguindo.
Desci para o jantar. O cheiro da comida preenchia a casa.
— Fiz do jeito que você gosta — ela disse, puxando a cadeira para mim. — Arroz, carne, legumes… nada muito pesado.
— Está ótimo — respondi, sentando-me.
Ela me observava com atenção enquanto eu comia.
— Quer que eu te conte como foi meu dia? — perguntou animada.
— Claro — falei, levantando o olhar para ela.
— Fui ao mercado, organizei algumas coisas da casa, liguei para a minha mãe… — sorriu. — Ela perguntou por você. Disse que você está sumido e que sente saudade.
— Manda um abraço pra ela — respondi.
Ela estendeu a mão por cima da mesa e tocou a minha.
— Você anda tão distante, Alexander — disse com suavidade. — Eu sinto você aqui, mas às vezes parece que a sua cabeça está em outro lugar.
Segurei a mão dela por um instante.
— Não é com você — falei com cuidado. — É só… trabalho. Cansaço.
Ela assentiu, embora eu soubesse que não era suficiente. E ela sabia que não era só isso, ela sempre soube.
— Eu estou aqui — disse. — Sempre.
Depois do jantar, ela aproximou-se novamente, passando os braços pela minha cintura, apoiando o rosto nas minhas costas.
— Quer subir mais cedo hoje? Estou com saudade do seu toque, seus beijos. — sussurrou.
Toquei a mão dela com delicadeza e a afastei devagar.
— Hoje não, tá bem? — disse com carinho. — Estou exausto.
Ela respirou fundo, mas não insistiu.
— Tudo bem… — respondeu, tentando sorrir. — Amanhã a gente conversa mais.
Assenti.
E enquanto subia para o quarto, uma verdade silenciosa se impôs mais uma vez:
Eu estava ali. Casado. Com uma mulher que me amava.
Mas havia um lugar dentro de mim que permanecia intocado. Guardado.
E eternamente ocupado por alguém que nunca deixou de existir.
Mais tarde, já deitado, ouvi a porta do quarto se abrir suavemente.
Marcela entrou em silêncio, como se não quisesse quebrar algo frágil no ar. Usava uma camisola fina, curta, de alcinha, sem a peça íntima, leve demais para aquela noite fria. A luz baixa do abajur deixava tudo em tons suaves. Ela fechou a porta, caminhou até a cama e deitou-se ao meu lado.
Sem dizer nada, se aproximou.
Passou o braço pela minha cintura e encaixou o corpo ao meu, buscando contato. Senti o calor dela imediatamente. A respiração estava diferente, mais curta, mais acelerada. Não precisei olhar para entender. O corpo dela dizia o que a boca ainda não tinha coragem de dizer.
Fechei os olhos por um instante.
Ela pressionou o rosto contra o meu peito.
— Alexander… — murmurou, quase como um pedido.
Virei levemente o rosto e a beijei. Um beijo lento, contido, mais por tentativa do que por entrega. As minhas mãos tocaram as suas costas, mas pararam ali. Algo em mim travava, aquele dia estava difícil. O meu corpo estava presente, mas minha mente… distante demais. Confesso que houveram diversas noites quentes entre Marcela e eu, mas nem sempre era assim.
Ela percebeu.
Sempre percebeu.
Marcela afastou-se um pouco e olhou-me no escuro. Os seus olhos claros tinham perdido o brilho leve de antes. Agora estavam atentos, inseguros.
— Você não consegue… — disse, não como pergunta, mas como constatação.
Respirei fundo.
— Não é isso… — comecei, mas ela interrompeu-me.
— Então o que é, Alexander? — a voz saiu firme, mas carregada de emoção. — Porque toda vez é assim. Você tenta… e para. Abraça-me, mas não fica. Beija-me, mas não se entrega.
Sentei na cama, passando a mão pelo rosto.
— Eu estou cansado — respondi, mesmo sabendo que não era toda a verdade.
Ela também se sentou, puxando o lençol para perto do corpo.
— Cansado de quê? Do trabalho? Ou de mim?
— Nunca de você — falei rápido, sincero.
Ela respirou fundo, como se estivesse segurando algo há tempo demais.
— Então é ela, não é?
O silêncio respondeu antes de mim.
— Elizabeth — Marcela disse o nome devagar, quase com cuidado, como se tocasse em algo perigoso. — O fantasma dela ainda está aqui.
Levantei os olhos para ela.
— Marcela…
— Não — ela interrompeu, os olhos marejados. — Não me diz que não, Alexander. Eu sei. Eu sinto. Tem sempre um espaço entre nós que eu não consigo atravessar. É como se você estivesse comigo… mas esperando outra pessoa chegar.
Engoli em seco.
— Eu fui honesto com você desde o começo — disse, a voz baixa.
— Eu sei — ela respondeu, a voz falhando agora. — E mesmo assim eu fiquei. Casei com você. Achei que o tempo… que a rotina… que eu… — a voz quebrou. — Achei que seria suficiente.
Aproximei-me e segurei a sua mão.
— Você é importante pra mim.
Ela puxou a mão de volta, não com raiva, mas com dor.
— Importante não é o mesmo que amada do jeito que eu te amo, Alexander.
As lágrimas começaram a escorrer silenciosas.
— Eu deito ao seu lado todas as noites — continuou — esperando que um dia você me olhe com aqueles mesmos olhos de quando me falava dela. Mas você nunca olha. Nunca esteve aqui por inteiro.
O peso da culpa caiu sobre mim como um golpe.
— Eu não faço isso por mal — falei.
— Eu sei — ela disse, enxugando o rosto. — E talvez seja isso que mais machuca.
Deitou novamente, virando de lado, de costas para mim.
— Boa noite, Alexander.
Fiquei ali, imóvel, olhando para o teto, sentindo o vazio crescer.
Eu tinha uma mulher nos meus braços…
Mas um amor que ainda morava no passado.
E, naquela noite, entendi que o silêncio entre nós estava começando a falar alto demais.







