Os movimentos de Vinicius pararam por um instante, e os dedos que seguravam o pescoço de Kayra se apertaram involuntariamente.
Kayra, no entanto, parecia ter despertado instantaneamente com o som daquele toque de celular. Ela ignorou completamente a reação de Vinicius, escapou de seu aperto passando por baixo de seu braço e arrancou a faixa preta de seda que cobria seus olhos. Rapidamente, ela abriu a bolsa, pegou o celular e atendeu a ligação.
Do outro lado da linha, a voz da babá do Geraldo estava tão aflita que parecia prestes a chorar:
— Sra. Kayra, aconteceu uma coisa horrível! Geraldo brigou com um colega na festa de aniversário e acabou machucando a testa! Está sangrando muito! Por favor, venha rápido para o hospital Maria!
A palavra "hospital" fez com que toda a atmosfera ao redor de Kayra mudasse instantaneamente. O clima de tensão e ambiguidade deu lugar a um frio cortante.
— Estou a caminho. — Disse ela, encerrando a ligação.
Kayra se abaixou para pegar o casaco e o vestiu com movimentos rápidos e decididos, sem sequer lançar um último olhar para Vinicius. Ao passar por ele, apenas deixou uma frase curta:
— Sr. Vinicius, até logo.
Antes mesmo de terminar a frase, Kayra já estava na porta. Ela a abriu e a fechou com força logo em seguida, o som ecoando pelo quarto. Todo o processo foi direto, sem hesitação.
Kayra sequer percebeu que ainda estava vestindo a delicada camisola de seda quase transparente.
Vinicius permaneceu parado no centro do quarto espaçoso. O ar ao seu redor parecia carregar o perfume suave que vinha dela, misturado com o calor de sua própria frustração e desejo não correspondido.
A faixa preta jogada sobre o criado-mudo era a única evidência silenciosa de que o plano meticulosamente arquitetado por ele havia falhado completamente naquela noite.
Os olhos de Vinicius se estreitaram, enquanto uma aura gelada emanava de sua figura. Ele havia imaginado vê-la desmoronar, ceder à humilhação que ele tanto desejava devolver. Mas, no final, tudo foi arruinado por uma ligação inesperada.
Quando Kayra chegou ao hospital Maria, o corredor da emergência estava um caos absoluto. Em meio à confusão, ela viu Geraldo imediatamente, nos braços da babá.
O pequeno corpo de Geraldo tinha a testa coberta por uma gaze manchada de sangue, com filetes de sangue escorrendo pela lateral do rosto e manchando metade de sua carinha.
O terno que ele vestia estava sujo de poeira, enquanto seus lábios permaneciam firmemente cerrados. Ele não dizia uma palavra, mas seus olhos vermelhos e inchados denunciavam que ele havia chorado há pouco.
Do outro lado do corredor, um menino de idade semelhante, com apenas um arranhão no joelho, estava no colo de sua mãe, gritando tão alto que parecia que iria destruir o teto do hospital:
— Foi ele! Ele me bateu! Mamãe, minha perna está doendo! Eu vou morrer?
A mãe do menino, impecavelmente maquiada e vestida com roupas de grife, apontava para Geraldo enquanto gritava, com uma expressão furiosa:
— Olha só o que o seu filho fez com o meu! Você vai ter que pagar! Hoje ninguém sai daqui sem pagar por isso! E mais! O seu filho tem que ajoelhar e pedir desculpas para o meu garoto!
As palavras dela ficavam cada vez mais agressivas, e os insultos começavam a ultrapassar todos os limites.
— Eu vou te dizer uma coisa, isso não vai acabar assim! Que tipo de criança desprezível é essa? Um bastardo sem valor!
— Foi o seu filho quem empurrou Geraldo primeiro... — A babá tentou argumentar em um tom hesitante, mas sua voz foi completamente abafada pelos gritos e xingamentos da outra mulher.
Os passos de Kayra pararam instantaneamente ao ouvir a palavra "bastardo". Suas pupilas se contraíram, e a temperatura em seus olhos despencou em um instante.
Ela caminhou lentamente em direção ao grupo, exalando uma aura tão opressora que era difícil até respirar ao seu redor. Primeiro, ela tirou o casaco e envolveu Geraldo, que estava nos braços da babá. Depois, ela levantou o olhar, frio como gelo, e o fixou na mulher e no filho dela, que ainda estavam gritando.
— Para quem você disse "bastardo"?
A voz de Kayra não era alta, mas fez as palavras da mulher ficarem presas na garganta de imediato.
A mulher hesitou, sentindo-se intimidada pelo olhar de Kayra, mas rapidamente endireitou a postura:
— Eu disse isso para o seu filho, e daí? Ele é tão cruel assim sendo apenas uma criança, imagine quando crescer! Isso mostra que você, como mãe, não soube educá-lo!
Nesse momento, uma voz masculina, clara e calma, ecoou no corredor:
— O que está acontecendo aqui?
Era Emerson Pires, o mais jovem e renomado chefe de cirurgia cardíaca do hospital Maria.
Emerson tinha uma postura imponente, e seus óculos de armação fina davam a ele um ar intelectual. Quando seus olhos pousaram em Geraldo, nos braços de Kayra, uma expressão de preocupação surgiu imediatamente.
Ele caminhou diretamente até Kayra, agachou-se ao lado dela com familiaridade e, com gestos delicados, afastou os cabelos grudados de sangue na testa de Geraldo para examinar o ferimento.
Ao ver Emerson, o corpo tenso de Geraldo finalmente relaxou. As lágrimas que ele segurava começaram a escorrer, e ele, com a voz rouca e cheia de tristeza, chamou baixinho:
— Padrinho...
Aquele tom abafado, carregado de mágoa e completa confiança, fez o coração de Kayra apertar.
Kayra se lembrou de quando ela estava grávida e sofreu um acidente na estrada, com os freios do carro falhando. Foi Emerson quem, mesmo correndo risco, interceptou o carro dela e o parou próximo ao guardrail, antes de levá-la ao hospital para salvar a vida do bebê.
Mais tarde, quando Geraldo nasceu com um problema cardíaco, foi Emerson quem passou cinco horas na sala de cirurgia, lutando contra a morte e salvando a criança. Desde então, Geraldo passou a chamá-lo de padrinho.
— Não precisa ter medo, eu estou aqui. — Emerson disse com suavidade enquanto limpava cuidadosamente o sangue ao redor do ferimento de Geraldo com um algodão embebido em antisséptico. — Vai doer um pouco, mas tente ser forte, está bem?
Depois de tranquilizar o menino, Emerson se levantou e olhou diretamente para a mulher que havia causado toda aquela confusão:
— Senhora, eu examinei o ferimento do seu filho. Ele tem apenas um arranhão leve no joelho, que nem sequer precisa de medicação. Já o ferimento do meu afilhado, Geraldo, mede três centímetros e precisa ser limpo e suturado imediatamente. Caso contrário, há risco de infecção e cicatriz permanente.
Ele fez uma pausa breve, desviando o olhar para as câmeras de segurança no fim do corredor, antes de continuar:
— Quanto à causa do incidente e à responsabilidade, o salão da festa deve ter câmeras de segurança. Podemos aguardar as imagens completas para discutir o assunto de forma justa e racional.
A fala de Emerson, lógica e firme, mas com um tom sereno, desmontou completamente a postura agressiva da mulher. A mulher ficou sem palavras, alternando entre expressões de raiva e constrangimento.
— Vocês... vocês vão ver só! — A mulher gritou, com os dentes trincados. — Eu vou deixar claro para vocês: minha prima é Melissa Marques! Vocês sabem quem é Vinicius, o presidente da Sailor Investimentos, não sabem? A Melissa é a pessoa que ele mais preza no mundo! Basta uma palavra dela, e eu garanto que vocês nunca mais vão conseguir se estabelecer em Cidade Lobito!
Kayra permaneceu imóvel, mas seu olhar se tornou ainda mais frio. Ela pegou o celular, onde havia gravado toda a conversa, e apertou o botão vermelho para encerrar a gravação.
Assim que a mulher saiu com o filho, Kayra pegou o celular novamente e enviou uma mensagem para sua assistente, Laura:
[Consiga imediatamente todas as gravações de segurança do Hotel Dias e Noites, do salão de festas do terceiro andar, entre 16h e 18h de hoje. Quero saber exatamente o que aconteceu.]
Kayra nunca se envolvia em discussões desnecessárias. Ela preferia reunir provas concretas e resolver os problemas com um único golpe decisivo.
Enquanto isso, em outro lugar, Melissa estava deitada confortavelmente no sofá, com uma máscara facial no rosto. Ela atendeu o celular de forma preguiçosa e ouviu a voz chorosa e distorcida da prima do outro lado da linha:
— Prima, eu fui humilhada! Aquele molequinho horrível machucou meu filho, e a mãe dele ainda trouxe um homem para me intimidar! Você precisa fazer o Vinicius se vingar por mim!