O corredor do hospital voltou a ficar silencioso.
Emerson terminou de tratar o ferimento de Geraldo e lançou um olhar sério para Kayra.
— Aquela mulher é Bianca Teixeira, prima de Melissa. — Ele fez uma pausa antes de continuar, em tom de alerta. — Melissa tem uma posição muito especial ao lado de Vinicius. Você ofendeu Bianca hoje, e ela certamente vai reclamar com Melissa. Isso não vai acabar facilmente. Vinicius é muito mais imprevisível do que os rumores fazem parecer. Tome cuidado com ele.
Kayra embalava Geraldo nos braços, acariciando suavemente suas costas. Ela não respondeu.
De repente, o Geraldo, que estava quieto até então, se mexeu. Ele enlaçou os braços ao redor do pescoço dela e escondeu o rosto na curva de seu pescoço.
— Mamãe, eu te dei mais problemas de novo, não foi? — A voz abafada de Geraldo saiu baixa e carregada de um tom nasal, como se estivesse à beira das lágrimas.
Kayra roçou o rosto nos cabelos macios dele e respondeu com ternura:
— Claro que não. Você é, e sempre será, o meu tesouro.
O pequeno corpo em seus braços se moveu novamente. Geraldo apertou os braços ao redor dela ainda mais forte, como se quisesse expressar sua resposta. Ele murmurou um "hum" engasgado, com um leve soluço.
Emerson observou a cena em silêncio, com uma expressão complexa nos olhos.
Ele conhecia Kayra há muitos anos e já havia presenciado sua postura impiedosa no mundo dos negócios, assim como sua calma inabalável ao enfrentar as dificuldades impostas pelos anciãos da família Nascimento. Mas era apenas na presença de Geraldo que ela deixava toda a sua armadura cair.
Depois de acalmar Geraldo, Kayra o entregou a Emerson para que ele cuidasse temporariamente do menino.
Ela então se dirigiu até a janela. Quando se virou, a ternura em seu rosto havia desaparecido completamente. Sua mandíbula estava tensa e sua expressão, fria como gelo. Pegando o celular, ela fez uma ligação, sua voz era firme e direta:
— Investigue todas as questões fiscais das empresas registradas em nome de Melissa e os projetos que ela gerenciou recentemente. Quero que você encontre cada brecha em todos os contratos. Me envie os relatórios completos antes do amanhecer.
— Sim, Sra. Kayra.
Naquele momento, Melissa acabava de desligar o telefone depois de ouvir as reclamações de Bianca. Um brilho de crueldade passou por seus olhos. Sem hesitar, ela ligou para Vinicius.
Assim que ele atendeu, Melissa começou a falar em um tom doce e choroso:
— Vinicius, você pode me ajudar? Meu sobrinho foi agredido por uma criança hoje, e a mãe dele foi extremamente grosseira. Eles são pessoas horríveis, completamente irracionais...
Vinicius havia acabado de voltar para sua casa. Sua jaqueta estava jogada descuidadamente sobre o braço do sofá, e ele relaxava com as longas pernas cruzadas, afundado no estofado.
Enquanto ouvia Melissa, ele franziu ligeiramente as sobrancelhas. Sua voz saiu calma, mas com um tom de distanciamento:
— Entendi.
Melissa ainda queria continuar falando, mas Vinicius cortou a conversa antes que ela pudesse:
— Vou pedir para meu assistente cuidar disso.
Os dedos de Melissa apertaram o celular com mais força. Havia uma insatisfação crescente em seu coração, mas ela sabia que não podia insistir mais com ele. Melissa conhecia bem o temperamento de Vinicius e entendia que ele nunca a ajudava por qualquer tipo de afeição. Ele fazia isso apenas porque lhe devia um favor.
Esse favor era sua única garantia. Ela não podia arriscar perdê-lo.
— Obrigada, Vinicius. — Melissa respondeu com uma voz dócil antes de desligar.
Meia hora depois, a chamada do assistente pessoal de Vinicius, Bruno, chegou:
— Sr. Vinicius, temos informações sobre o incidente. A briga foi entre o filho da prima de Melissa, Bianca, e o filho de Kayra.
— O filho de Kayra? — Vinicius, que estava recostado no sofá, imediatamente se endireitou. Seus dedos apertaram o celular involuntariamente. Ele sempre acreditou que, após aquele negócio absurdo seis anos atrás, Kayra não havia conseguido engravidar.
— Tem certeza? — A voz de Vinicius saiu um pouco mais tensa.
— Absoluta. — Bruno confirmou. — O menino da Kayra tem quatro anos. Os registros mostram Kayra como tutora legal, mas há também outro nome listado, Emerson Pires. Algumas informações estão altamente criptografadas, então ainda não consegui acessar todos os dados. No entanto, obtive as imagens das câmeras de segurança do hotel onde o incidente ocorreu. Já enviei o vídeo para o seu e-mail.
Vinicius não respondeu e desligou o telefone diretamente. Em sua mente, um pensamento começou a surgir:
"Criança de quatro anos... a idade não bate. Será que há algum outro motivo? Ou será que depois ela encontrou outro homem?"
Assim que essa possibilidade passou por sua cabeça, Vinicius apertou os lábios, e uma tempestade começou a se formar em sua mente.
Ele ligou o computador imediatamente. A gravação do vídeo estava um pouco desfocada, e o ângulo era ruim, mas era possível ver uma criança magra, de costas para a câmera, se levantando do chão e levantando a mão para acertar outra criança, que estava de pé.
A criança em pé era o filho de Bianca. Ao se lembrar das palavras de Melissa, os dedos longos de Vinicius deslizaram pelo canto do computador, enquanto seus olhos escureciam gradualmente.
Na manhã seguinte, Kayra, após lidar com os assuntos acumulados da empresa, dirigiu-se novamente à Sailor Investimentos. Ela foi diretamente ao escritório presidencial no andar mais alto.
Vinicius estava sentado atrás de sua ampla mesa de trabalho. Ao vê-la entrar, ele sequer levantou os olhos.
Kayra colocou um documento sobre a mesa com um movimento calculado, nem muito leve, nem muito pesado:
— Sr. Vinicius, sobre o Projeto Kayles Intelligence, acredito que precisamos conversar novamente.
Vinicius finalmente reagiu. Ele ergueu levemente os olhos, e sua expressão continha um sarcasmo sutil enquanto soltava uma risada curta:
— Você tem tempo para se preocupar com o projeto, mas deveria gastar mais tempo educando melhor o seu filho.
Vinicius escolheu a palavra "educar".
O coração de Kayra foi tomado por um frio cheio de sarcasmo. No entanto, ela não se irritou. Em vez disso, ela deu mais alguns passos à frente, parando apenas quando estava diante da mesa. Com um sorriso discreto nos lábios, ela respondeu:
— Sr. Vinicius, talvez seja melhor você dar uma olhada nesses dois itens antes de tirar conclusões.
Kayra pegou seu celular e apertou o play em uma gravação de áudio.
— Você vai ter que pagar! Hoje ninguém sai daqui sem pagar por isso! E mais! O seu filho tem que ajoelhar e pedir desculpas para o meu garoto!
— Eu vou te dizer uma coisa, isso não vai acabar assim! Que tipo de criança desprezível é essa? Um bastardo sem valor!
A voz aguda e cruel de Bianca ecoou claramente pelo escritório.
Os dedos de Vinicius começaram a deslizar inconscientemente pela caneta. Sua expressão ficou visivelmente mais sombria.
Kayra desligou o áudio e mostrou o vídeo completo da briga entre as crianças. Na gravação, embora os traços de Geraldo não estivessem completamente nítidos, o ferimento grave em sua testa era inegável.
Kayra levantou o olhar e, ao fazê-lo, encontrou diretamente os olhos de Vinicius.
— E o que você está tentando provar com isso? — Perguntou Vinicius, sua voz carregada de frieza.
— Sr. Vinicius. — Kayra guardou o celular e ergueu o rosto, enfrentando diretamente o olhar sombrio dele com uma calma imperturbável. — Eu mesma sei como educar o meu filho. Agora, você não acha que talvez seja você quem deveria aprender a discernir melhor o certo do errado?
Kayra fez uma pausa antes de se inclinar levemente para frente. Com as mãos apoiadas na superfície brilhante da mesa, ela pronunciou cada palavra com clareza, como se estivesse batendo diretamente no orgulho de Vinicius:
— Se a sua capacidade de julgamento é tão facilmente influenciada pelas palavras de quem dorme ao seu lado, talvez o Grupo Nascimento precise reavaliar os riscos desta parceria.
Os dedos de Vinicius pararam abruptamente sobre a caneta. Seus olhos ficaram ainda mais afiados, cheios de uma tempestade prestes a explodir. Ele a olhou de baixo para cima, mas aquele ângulo, longe de parecer submisso, apenas intensificava sua presença avassaladora.
— É essa a atitude que você acha apropriada ao vir pedir minha ajuda? — Respondeu Vinicius, sua voz fria como lâminas de gelo.