Ele se lembrava de tudo. Vinicius nunca esqueceu nada.
Quem poderia imaginar? O jovem insignificante, facilmente manipulado por todos, agora havia se transformado em um magnata do capital. Um homem cujo poder fazia até os membros diretos da família Nascimento olharem para ele com receio.
Kayra sentiu o peso crescer no fundo do peito. Em apenas seis anos, a transformação surpreendente de Vinicius escondia segredos que ninguém conhecia. E ela sabia que ele jamais perdoaria o que aconteceu no passado.
Conseguir o Projeto Kayles Intelligence desta vez não seria nada fácil.
Kayra caminhou descalça pelo chão frio do quarto e entrou na porta ao lado, na sala das crianças.
Sob o brilho suave da luz de um abajur amarelo, um pequeno corpo estava encolhido debaixo do cobertor. A respiração era tranquila e ritmada. Era Geraldo Nascimento, o filho da Kayra, dormindo profundamente. O rosto infantil, ainda marcado pela inocência, tinha traços que lembravam muito Vinicius.
Kayra se ajoelhou lentamente ao lado da cama. Seus dedos deslizaram com delicadeza pelos cabelos macios do garoto.
Sua mente estava um caos. Desde o início, o casamento com Dario havia sido fundado em interesses mútuos.
Dario nunca escondeu os sentimentos que tinha por ela. Mas Kayra não o amava. Seu casamento com ele não passava de um acordo em que ambos tiravam o máximo proveito.
Dario era estéril. Por isso, ele havia proposto que Kayra engravidasse usando o esperma de outro homem, alguém que ele mesmo escolheu.
— É só um jovem distante e irrelevante da família Nascimento. Um coitado sem importância, desesperado para conseguir dinheiro para pagar o tratamento da mãe. Ele vai fazer exatamente o que mandarmos. — Explicou Dario, com a voz suave e o rosto pálido, enquanto estava deitado em uma cama de hospital. — Assim que tudo terminar, você dá uma boa quantia para ele desaparecer. Ele nunca vai causar problemas. Com um filho, sua posição na família Nascimento estará garantida. Quando eu me for... poderei descansar em paz.
Essas foram as palavras exatas de Dario.
Para Kayra, a proposta era perfeita. Ela só teria a ganhar.
Mas, naquela noite, nos momentos em que o quarto estava mergulhado na escuridão, os olhos de Vinicius inflamados de humilhação e ódio e o som das algemas batendo na cabeceira da cama deixaram claro que ele não era o rapaz obediente que Dario havia descrito.
Kayra sabia que algo estava errado desde o início. No entanto, ela escolheu ignorar. Para ela, o que importava era alcançar seus objetivos. Os detalhes do processo não eram dignos de sua atenção.
Em outras palavras, Kayra havia consentido com tudo.
Ela fechou os olhos devagar. Seu peito não estava pesado, mas sua mente trabalhava rapidamente para avaliar a situação.
Kayra nunca se arrependeu de suas escolhas. O problema era que o poder que Vinicius havia acumulado agora era suficiente para destruir tudo o que ela havia construído com tanto esforço.
E o que tornava a situação ainda mais perigosa era o rosto de Geraldo, tão semelhante ao de Vinicius. Se os velhos membros da família Nascimento descobrissem isso... Kayra sequer tinha coragem de imaginar as consequências.
...
Do outro lado, um Bentley preto cortava a escuridão das ruas noturnas, acelerando pela cidade.
No banco de trás, Vinicius afrouxou a gravata e a jogou de lado, sem se importar onde ela cairia. O interior do carro estava mergulhado em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som abafado do motor e pelo borrão das luzes da cidade passando rapidamente pelas janelas, projetando sombras instáveis em seu rosto.
Ele fechou os olhos, mas as memórias daquela noite úmida e sufocante de seis anos atrás emergiram como uma praga incontrolável.
Ele não havia consentido. Naquela ocasião, haviam usado sua mãe como moeda de troca, ameaçando sua vida e empurrando-o para um beco sem saída.
O gosto da bebida com droga queimava sua garganta, mas, em vez de entorpecê-lo, parecia aguçar sua consciência. Cada segundo de humilhação ficou gravado em seus ossos, como uma marca impossível de apagar.
O toque frio da seda cobriu seus olhos, roubando-lhe a visão, mas amplificando cada um de seus outros sentidos.
Ele podia sentir claramente o perfume sutil, quase gelado, que emanava dela, e ouvir a respiração calma e constante que ela mantinha.
E então ela falou:
— Sua respiração está tão quente...
A voz dela era suave, mas completamente desprovida de emoção ou calor.
Quando a faixa da seda preta deslizou de seus olhos, ele finalmente viu seu rosto. Era uma beleza de tirar o fôlego, mas tão fria quanto uma estátua de mármore.
Kayra não demonstrava desejo, tampouco qualquer sinal de timidez. Sua expressão era de uma calma calculada, quase analítica, como se ele fosse apenas uma ferramenta à sua disposição. Algo que ela poderia usar e descartar sem o menor remorso.
Tudo bem. Durante esses seis anos, ele havia escalado para sair do fundo do poço. Passo a passo, ele construiu seu império com apenas um objetivo: este momento.
O primeiro item em sua lista era simples: destruir a máscara hipócrita de Kayra. Ele queria vê-la experimentar o que era ser esmagada e reduzida a nada.
A luz fria da tela de seu celular iluminou seus traços marcantes e severos enquanto ele discava um número. Sua voz saiu firme e sem qualquer hesitação:
— Adicione o Grupo Nascimento à lista de licitações.
Do outro lado da linha, houve um momento de silêncio antes de uma resposta hesitante:
— Mas, Sr. Vinicius, o Grupo Nascimento não possui os requisitos ideais para...
— Preciso repetir?
Três dias depois, a licitação do projeto foi realizada no salão de conferências do topo da sede da Sailor Investimentos.
Kayra chegou usando um elegante terno branco, de corte impecável, que destacava sua postura confiante. Seu cabelo longo estava preso em um rabo de cavalo alto, e sua maquiagem leve realçava sua beleza sem tirar a sobriedade de sua imagem profissional.
Ela liderava sua equipe com naturalidade e sentou-se na primeira fileira dos assentos reservados para os participantes da licitação. Sua expressão era serena, sem qualquer traço da tensão que dominava o ambiente. Era como se os acontecimentos do jantar, três noites atrás, jamais tivessem existido.
Vinicius, como o principal tomador de decisões da licitação, estava sentado no centro da mesa do júri, no palco principal. Ele usava um terno cinza-escuro sob medida e mantinha uma expressão indiferente. De vez em quando, ele inclinava a cabeça para trocar algumas palavras em voz baixa com os colegas ao seu lado, mas, do início ao fim, nunca olhou na direção de Kayra.
O processo de licitação foi intenso e competitivo. Uma a uma, as empresas subiram ao palco para apresentar suas propostas, enquanto o clima na sala parecia tão tenso quanto uma reunião estratégica antes de uma guerra.
Entre todas as propostas, a do Grupo Nascimento se destacava. Era a mais abrangente e ousada, claramente superior em ambição e planejamento.
Kayra subiu ao palco para apresentar pessoalmente o projeto. Sua explicação era clara, seu raciocínio impecável. Com dados detalhados e uma visão estratégica para o futuro do projeto, ela traçou um plano que tinha um enorme potencial comercial.
Até mesmo os jurados, conhecidos por sua postura crítica e exigente, não conseguiram esconder olhares de aprovação durante a apresentação.
Quando terminou, Kayra fez uma leve reverência em direção ao palco principal. Seus olhos, embora discretos, passaram rapidamente por Vinicius.
Vinicius permaneceu inexpressivo. Seus longos dedos batiam de forma irregular na superfície lisa da mesa de conferência, como se estivesse completamente alheio ao que acabara de ser apresentado. Era impossível decifrar o que ele estava pensando.
A licitação chegou ao fim, mas o resultado não foi revelado imediatamente. A decisão final seria feita após a deliberação interna do comitê de avaliação.
Kayra instruiu sua equipe a voltar para o escritório, mas ela decidiu ficar.
No estacionamento subterrâneo, o ambiente era sombrio. As luzes fracas lançavam sombras instáveis nas paredes, enquanto o cheiro de umidade e gases de escape impregnava o ar.
Kayra aguardava em silêncio, sozinha, naquele espaço opressivo. Seus olhos fixaram-se na entrada, esperando por uma figura que ela conhecia bem demais.