Capítulo 7 — A Primeira Ordem do Sheikh

Mãe.

Não a transforme em pessoa dentro deste palácio.

A frase o irritou.

Ela já é uma pessoa.

Não para nós.

Cuidado com o que diz.

Farida se aproximou.

Eu digo o que você precisa ouvir. Não o que deseja. Aquela mulher pertence a outro mundo. Um mundo mais simples, mais livre talvez, mas sem proteção contra o nosso. Se você se aproximar dela por capricho, irá destruí-la.

Zayn ficou imóvel.

A palavra atingiu algo que ele não esperava.

Destruí-la.

Não sou meu pai — disse ele.

Farida suavizou o olhar por um segundo. Apenas um.

Não. Mas carrega o sangue dele e o trono dele.

O pai de Zayn fora muitas coisas. Visionário. Cruel. Carismático. Infiel de maneiras que a família fingia não contar. Um homem que amara seu próprio desejo mais do que amara qualquer esposa. Zayn passara a juventude jurando não se tornar igual a ele.

E ainda assim ali estava.

Com quatro esposas escolhidas por política.

E uma dançarina ocupando seus pensamentos.

Eu não toquei nela — disse Zayn.

Ainda.

A resposta da mãe foi tão direta que ele desviou o olhar.

Farida suspirou.

Você acha que desejo controlar sua vida por prazer? Acha que não sei o preço desses casamentos? Acha que não vi você se apagar um pouco mais a cada aliança assinada?

Zayn não respondeu.

Mas esse é o fardo de homens como você.

Homens como eu — repetiu ele, com amargura.

Sim. Homens nascidos para carregar famílias inteiras. Você pode odiar isso, mas não pode fingir que é livre para desejar sem consequências.

Zayn olhou para as árvores de jasmim.

O perfume delas trouxe Layla de volta com uma nitidez quase ofensiva.

Ela junto à janela.

O véu vermelho no ombro.

A boca dizendo: “Não sou uma de suas esposas.”

Não era.

E talvez por isso ele não conseguisse parar de pensar nela.

Não vou vê-la novamente — disse ele.

A promessa saiu antes que ele a analisasse.

Farida estudou seu rosto.

Isso é decisão ou tentativa?

Zayn odiou a pergunta.

Porque não sabia responder.

Naquela mesma manhã, bem longe dos corredores de mármore do palácio, Layla acordou com o som da mãe tossindo no quarto ao lado.

A realidade voltou de uma só vez.

Não havia lustres de cristal. Não havia fontes internas nem criados silenciosos. O apartamento pequeno onde vivia com a mãe ficava no segundo andar de um prédio antigo, numa rua estreita cheia de vendedores, crianças correndo e varais pendurados entre janelas. A tinta descascava perto da cozinha, o ventilador fazia barulho, e o cheiro de café simples substituía qualquer perfume caro de oud.

Layla se sentou na cama.

Por um segundo, ainda sentiu o peso do traje de dança no corpo, embora estivesse usando uma camiseta larga. Ainda ouviu a música. Ainda viu Zayn Al-Mansour parado diante dela, perigoso, belo demais, arrogante demais.

Ela fechou os olhos com força.

Não.

A palavra saiu para o quarto vazio.

Não pensaria nele.

Não romantizaria o perigo.

Não seria uma dessas mulheres que confundiam intensidade com destino. Homens como Zayn eram ensinados desde o berço a tomar. Tomavam decisões, terras, silêncios, esposas, obediência. Talvez nem percebessem. Talvez chamassem de proteção. De dever. De tradição.

Mas Layla conhecia a diferença entre ser protegida e ser possuída.

Levantou-se e foi até a cozinha.

Sua mãe, Soraya Haddad, estava sentada à mesa, enrolada em um xale claro apesar do calor. A doença afinara seu rosto, mas não apagara a beleza delicada nem a firmeza dos olhos. Quando Layla entrou, Soraya sorriu.

Chegou tarde.

Layla beijou-lhe a testa.

A senhora deveria estar descansando.

E você deveria parar de achar que pode esconder a própria vida de mim.

Layla pegou duas xícaras.

Não há nada para esconder.

Soraya soltou uma risada fraca.

Quando você diz isso, sempre há.

Layla colocou café na mesa e tentou agir normalmente.

Foi apenas uma apresentação.

No palácio Al-Mansour.

A mão de Layla parou no ar.

Samira contou?

Samira tem medo de mim. Claro que contou.

Layla fechou os olhos.

Eu vou matar aquela mulher.

Depois. Primeiro sente.

Layla sentou-se diante da mãe.

Soraya a observou com atenção demais.

Como foi?

Luxuoso.

Layla.

Frio.

A mãe assentiu devagar.

Palácios costumam ser.

Layla mexeu no café.

Dancei, recebi e fui embora.

Só isso?

A imagem de Zayn tocando a pequena moeda dourada em seu véu surgiu sem permissão.

Você dança como se escondesse uma lâmina.

Layla apertou a colher.

Sim.

Soraya não acreditou.

Mães raramente acreditam nas mentiras certas.

O sheikh estava lá?

Era a recepção dele.

Ele falou com você?

Layla suspirou.

Falou.

O olhar da mãe mudou.

E?

E eu sobrevivi.

Esse tipo de homem não fala com uma mulher como você sem motivo.

Layla sentiu uma pontada de irritação.

Uma mulher como eu?

Livre.

Aquilo a desarmou.

Soraya pousou a mão sobre a dela.

Layla, beleza atrai olhares. Talento atrai convites. Mas liberdade atrai homens que não a possuem.

Layla ficou em silêncio.

Se ele a procurou, tenha cuidado — continuou a mãe. — Zayn Al-Mansour não é apenas um homem rico. Ele pertence a uma família que transforma desejo em política.

Eu sei.

Sabe mesmo?

Sei que ele tem quatro esposas.

Soraya sustentou seu olhar.

Então sabe o suficiente para manter distância.

Layla retirou a mão com delicadeza.

Não preciso que me diga isso.

Precisa, sim.

A franqueza da mãe a atingiu.

Eu disse não para ele — Layla falou. — Duas vezes.

Soraya pareceu preocupada, não aliviada.

Homens assim às vezes confundem não com convite.

Ele que tente.

Não fale como se coragem fosse armadura.

Layla se levantou, inquieta.

O que a senhora quer que eu faça? Que eu tenha medo de todos os homens poderosos? Que eu abaixe a cabeça para não provocar?

Quero que você entenda que existem homens que não precisam tocar em você para mudar sua vida.

A frase ficou no ar.

Layla não respondeu.

Porque, no fundo, temia que isso já tivesse acontecido.

Ao meio-dia, o calor sobre a cidade era quase líquido.

Layla chegou ao estúdio de dança com o envelope do pagamento guardado no fundo da bolsa. O local ficava em uma rua movimentada, entre uma loja de tecidos e uma pequena cafeteria. Era simples: uma sala ampla com espelhos, piso antigo, ventiladores, cortinas coloridas e fotografias de apresentações passadas nas paredes.

Para Layla, era mais do que trabalho.

Era território.

Ali, meninas aprendiam a não sentir vergonha do próprio corpo. Mulheres casadas vinham recuperar partes de si que a rotina engolira. Viúvas dançavam pela primeira vez depois de anos de silêncio. A dança ali não pertencia a homens sentados em salões ricos.

Pertencia a elas.

Samira estava de braços cruzados junto ao balcão quando Layla entrou.

Você está viva.

Layla pendurou a bolsa.

Que decepção para você.

Eu quase morri por sua causa.

Dramática.

Você recusou o cartão dele.

Layla parou.

Como você sabe?

O motorista comentou com o segurança, o segurança comentou com o primo da minha vizinha, e agora provavelmente metade da cidade sabe que você recusou Zayn Al-Mansour.

Layla fechou os olhos.

Ótimo.

Não, Layla. Não é ótimo. É perigoso.

Ele é casado.

Ele é bilionário.

Isso não anula o casamento.

Samira apontou para ela.

Essa sua mania de transformar princípios em faca ainda vai cortar você.

Melhor do que me vender por medo.

A amiga respirou fundo, tentando controlar a irritação.

Ninguém está dizendo para você se vender. Estou dizendo para não provocar um homem que pode acabar com nosso estúdio se acordar entediado.

Layla tirou o envelope da bolsa e colocou sobre o balcão.

Samira piscou.

O que é isso?

Aluguel atrasado. Dois meses. E o pagamento das meninas que nos ajudaram nas últimas aulas.

Samira olhou para o envelope como se fosse uma bênção e uma maldição.

Ele dobrou?

Sim.

E você aceitou?

Layla ficou rígida.

Era pagamento.

Claro.

Samira.

Eu não disse nada.

Disse com a cara.

A amiga abriu o envelope, conferiu rapidamente e ficou séria.

Isso resolve muito.

Eu sei.

Talvez seja por isso que homens ricos sejam tão perigosos. Às vezes a ajuda deles parece salvação.

Layla não respondeu.

Porque tinha pensado o mesmo.

A porta do estúdio se abriu, e três alunas entraram rindo. A conversa morreu. Layla guardou a tensão no lugar onde guardava tudo o que não podia resolver na hora e sorriu.

Vamos começar.

Durante a aula, ela tentou se entregar à música. Ensinou movimentos básicos, corrigiu posturas, explicou que o quadril não deveria ser forçado, que dança era respiração antes de ser técnica. As mulheres a observavam com admiração, e Layla se agarrou àquilo como se pudesse expulsar o palácio da memória.

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