Mundo de ficçãoIniciar sessão— Mãe.
— Não a transforme em pessoa dentro deste palácio.
A frase o irritou.
— Ela já é uma pessoa.
— Não para nós.
— Cuidado com o que diz.
Farida se aproximou.
— Eu digo o que você precisa ouvir. Não o que deseja. Aquela mulher pertence a outro mundo. Um mundo mais simples, mais livre talvez, mas sem proteção contra o nosso. Se você se aproximar dela por capricho, irá destruí-la.
Zayn ficou imóvel.
A palavra atingiu algo que ele não esperava.
Destruí-la.
— Não sou meu pai — disse ele.
Farida suavizou o olhar por um segundo. Apenas um.
— Não. Mas carrega o sangue dele e o trono dele.
O pai de Zayn fora muitas coisas. Visionário. Cruel. Carismático. Infiel de maneiras que a família fingia não contar. Um homem que amara seu próprio desejo mais do que amara qualquer esposa. Zayn passara a juventude jurando não se tornar igual a ele.
E ainda assim ali estava.
Com quatro esposas escolhidas por política.
E uma dançarina ocupando seus pensamentos.
— Eu não toquei nela — disse Zayn.
— Ainda.
A resposta da mãe foi tão direta que ele desviou o olhar.
Farida suspirou.
— Você acha que desejo controlar sua vida por prazer? Acha que não sei o preço desses casamentos? Acha que não vi você se apagar um pouco mais a cada aliança assinada?
Zayn não respondeu.
— Mas esse é o fardo de homens como você.
— Homens como eu — repetiu ele, com amargura.
— Sim. Homens nascidos para carregar famílias inteiras. Você pode odiar isso, mas não pode fingir que é livre para desejar sem consequências.
Zayn olhou para as árvores de jasmim.
O perfume delas trouxe Layla de volta com uma nitidez quase ofensiva.
Ela junto à janela.
O véu vermelho no ombro.
A boca dizendo: “Não sou uma de suas esposas.”
Não era.
E talvez por isso ele não conseguisse parar de pensar nela.
— Não vou vê-la novamente — disse ele.
A promessa saiu antes que ele a analisasse.
Farida estudou seu rosto.
— Isso é decisão ou tentativa?
Zayn odiou a pergunta.
Porque não sabia responder.
Naquela mesma manhã, bem longe dos corredores de mármore do palácio, Layla acordou com o som da mãe tossindo no quarto ao lado.
A realidade voltou de uma só vez.
Não havia lustres de cristal. Não havia fontes internas nem criados silenciosos. O apartamento pequeno onde vivia com a mãe ficava no segundo andar de um prédio antigo, numa rua estreita cheia de vendedores, crianças correndo e varais pendurados entre janelas. A tinta descascava perto da cozinha, o ventilador fazia barulho, e o cheiro de café simples substituía qualquer perfume caro de oud.
Layla se sentou na cama.
Por um segundo, ainda sentiu o peso do traje de dança no corpo, embora estivesse usando uma camiseta larga. Ainda ouviu a música. Ainda viu Zayn Al-Mansour parado diante dela, perigoso, belo demais, arrogante demais.
Ela fechou os olhos com força.
— Não.
A palavra saiu para o quarto vazio.
Não pensaria nele.
Não romantizaria o perigo.
Não seria uma dessas mulheres que confundiam intensidade com destino. Homens como Zayn eram ensinados desde o berço a tomar. Tomavam decisões, terras, silêncios, esposas, obediência. Talvez nem percebessem. Talvez chamassem de proteção. De dever. De tradição.
Mas Layla conhecia a diferença entre ser protegida e ser possuída.
Levantou-se e foi até a cozinha.
Sua mãe, Soraya Haddad, estava sentada à mesa, enrolada em um xale claro apesar do calor. A doença afinara seu rosto, mas não apagara a beleza delicada nem a firmeza dos olhos. Quando Layla entrou, Soraya sorriu.
— Chegou tarde.
Layla beijou-lhe a testa.
— A senhora deveria estar descansando.
— E você deveria parar de achar que pode esconder a própria vida de mim.
Layla pegou duas xícaras.
— Não há nada para esconder.
Soraya soltou uma risada fraca.
— Quando você diz isso, sempre há.
Layla colocou café na mesa e tentou agir normalmente.
— Foi apenas uma apresentação.
— No palácio Al-Mansour.
A mão de Layla parou no ar.
— Samira contou?
— Samira tem medo de mim. Claro que contou.
Layla fechou os olhos.
— Eu vou matar aquela mulher.
— Depois. Primeiro sente.
Layla sentou-se diante da mãe.
Soraya a observou com atenção demais.
— Como foi?
— Luxuoso.
— Layla.
— Frio.
A mãe assentiu devagar.
— Palácios costumam ser.
Layla mexeu no café.
— Dancei, recebi e fui embora.
— Só isso?
A imagem de Zayn tocando a pequena moeda dourada em seu véu surgiu sem permissão.
Você dança como se escondesse uma lâmina.
Layla apertou a colher.
— Sim.
Soraya não acreditou.
Mães raramente acreditam nas mentiras certas.
— O sheikh estava lá?
— Era a recepção dele.
— Ele falou com você?
Layla suspirou.
— Falou.
O olhar da mãe mudou.
— E?
— E eu sobrevivi.
— Esse tipo de homem não fala com uma mulher como você sem motivo.
Layla sentiu uma pontada de irritação.
— Uma mulher como eu?
— Livre.
Aquilo a desarmou.
Soraya pousou a mão sobre a dela.
— Layla, beleza atrai olhares. Talento atrai convites. Mas liberdade atrai homens que não a possuem.
Layla ficou em silêncio.
— Se ele a procurou, tenha cuidado — continuou a mãe. — Zayn Al-Mansour não é apenas um homem rico. Ele pertence a uma família que transforma desejo em política.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
— Sei que ele tem quatro esposas.
Soraya sustentou seu olhar.
— Então sabe o suficiente para manter distância.
Layla retirou a mão com delicadeza.
— Não preciso que me diga isso.
— Precisa, sim.
A franqueza da mãe a atingiu.
— Eu disse não para ele — Layla falou. — Duas vezes.
Soraya pareceu preocupada, não aliviada.
— Homens assim às vezes confundem não com convite.
— Ele que tente.
— Não fale como se coragem fosse armadura.
Layla se levantou, inquieta.
— O que a senhora quer que eu faça? Que eu tenha medo de todos os homens poderosos? Que eu abaixe a cabeça para não provocar?
— Quero que você entenda que existem homens que não precisam tocar em você para mudar sua vida.
A frase ficou no ar.
Layla não respondeu.
Porque, no fundo, temia que isso já tivesse acontecido.
Ao meio-dia, o calor sobre a cidade era quase líquido.
Layla chegou ao estúdio de dança com o envelope do pagamento guardado no fundo da bolsa. O local ficava em uma rua movimentada, entre uma loja de tecidos e uma pequena cafeteria. Era simples: uma sala ampla com espelhos, piso antigo, ventiladores, cortinas coloridas e fotografias de apresentações passadas nas paredes.
Para Layla, era mais do que trabalho.
Era território.
Ali, meninas aprendiam a não sentir vergonha do próprio corpo. Mulheres casadas vinham recuperar partes de si que a rotina engolira. Viúvas dançavam pela primeira vez depois de anos de silêncio. A dança ali não pertencia a homens sentados em salões ricos.
Pertencia a elas.
Samira estava de braços cruzados junto ao balcão quando Layla entrou.
— Você está viva.
Layla pendurou a bolsa.
— Que decepção para você.
— Eu quase morri por sua causa.
— Dramática.
— Você recusou o cartão dele.
Layla parou.
— Como você sabe?
— O motorista comentou com o segurança, o segurança comentou com o primo da minha vizinha, e agora provavelmente metade da cidade sabe que você recusou Zayn Al-Mansour.
Layla fechou os olhos.
— Ótimo.
— Não, Layla. Não é ótimo. É perigoso.
— Ele é casado.
— Ele é bilionário.
— Isso não anula o casamento.
Samira apontou para ela.
— Essa sua mania de transformar princípios em faca ainda vai cortar você.
— Melhor do que me vender por medo.
A amiga respirou fundo, tentando controlar a irritação.
— Ninguém está dizendo para você se vender. Estou dizendo para não provocar um homem que pode acabar com nosso estúdio se acordar entediado.
Layla tirou o envelope da bolsa e colocou sobre o balcão.
Samira piscou.
— O que é isso?
— Aluguel atrasado. Dois meses. E o pagamento das meninas que nos ajudaram nas últimas aulas.
Samira olhou para o envelope como se fosse uma bênção e uma maldição.
— Ele dobrou?
— Sim.
— E você aceitou?
Layla ficou rígida.
— Era pagamento.
— Claro.
— Samira.
— Eu não disse nada.
— Disse com a cara.
A amiga abriu o envelope, conferiu rapidamente e ficou séria.
— Isso resolve muito.
— Eu sei.
— Talvez seja por isso que homens ricos sejam tão perigosos. Às vezes a ajuda deles parece salvação.
Layla não respondeu.
Porque tinha pensado o mesmo.
A porta do estúdio se abriu, e três alunas entraram rindo. A conversa morreu. Layla guardou a tensão no lugar onde guardava tudo o que não podia resolver na hora e sorriu.
— Vamos começar.
Durante a aula, ela tentou se entregar à música. Ensinou movimentos básicos, corrigiu posturas, explicou que o quadril não deveria ser forçado, que dança era respiração antes de ser técnica. As mulheres a observavam com admiração, e Layla se agarrou àquilo como se pudesse expulsar o palácio da memória.







