Mundo de ficçãoIniciar sessãoMas, cada vez que a música diminuía, ela ouvia a voz de Zayn.
Fique para o jantar.
Não.
Cancele.
O senhor sempre fala como se o mundo obedecesse?
Normalmente, obedece.
Layla errou uma contagem.
Uma das alunas riu.
— Professora, a senhora está apaixonada?
A sala explodiu em risos.
Layla quase deixou cair o véu.
— Estou distraída, não doente.
Samira, no canto, arqueou uma sobrancelha.
Layla fingiu não ver.
No fim da tarde, quando o estúdio esvaziou, ela ficou sozinha diante do espelho. A luz alaranjada entrava pelas janelas, tocando o chão gasto. Layla colocou uma música baixa e começou a dançar sem coreografia.
Dessa vez, não era para convidados.
Não era para dinheiro.
Era para si.
Moveu os braços devagar, fechou os olhos, deixou o corpo conversar com algo que a mente não queria admitir. A dança revelou o que ela tentava esconder: inquietação, raiva, desejo, medo. Girou uma vez, duas, os cabelos soltando do coque. O coração acelerou.
Quando abriu os olhos, imaginou Zayn no reflexo.
Parou imediatamente.
— Idiota — murmurou para si mesma.
A porta do estúdio se abriu.
Layla virou-se rápido, o pulso disparado.
Mas não era Zayn.
Era um entregador com uma caixa comprida nas mãos.
— Layla Haddad?
Ela estreitou os olhos.
— Sim.
— Entrega para a senhora.
— De quem?
— Não sei. Só pediram assinatura.
Samira surgiu da pequena sala dos fundos.
— O que é isso?
Layla não respondeu. Assinou com cautela e pegou a caixa. Era pesada, envolta em papel creme, sem logotipo. Quando o entregador saiu, ela colocou a encomenda sobre o balcão.
— Não abra — disse Samira.
Layla já estava abrindo.
— Você tem instinto de sobrevivência zero — reclamou a amiga.
Dentro da caixa havia um véu de dança.
Não vermelho, como o da noite anterior.
Dourado.
Feito de seda fina, bordado à mão com pequenas moedas antigas. Era uma peça belíssima, cara demais, escolhida por alguém que entendera mais de dança do que Layla gostaria.
Sobre o tecido havia um cartão.
Dessa vez, ela reconheceu a letra.
A mesma do número recusado.
Havia apenas uma frase.
“Para a lâmina que dança.”
Layla ficou imóvel.
Samira levou a mão à boca.
— Layla...
Ela pegou o cartão, sentindo raiva subir quente pelo peito.
Raiva dele.
Raiva de si mesma.
Porque uma parte sua, pequena e vergonhosa, achou a frase bonita.
— Eu vou devolver — disse ela.
— Como? Você nem sabe para onde.
Layla olhou para a caixa.
— Eu sei exatamente para onde.
O presente retornou ao palácio antes do pôr do sol.
Zayn estava em reunião quando Youssef entrou discretamente, aproximou-se e deixou a caixa sobre uma mesa lateral.
Os dois investidores estrangeiros continuaram falando sobre expansão hoteleira no Mediterrâneo. Zayn ouvia, respondia, negociava valores com precisão implacável.
Mas seus olhos foram para a caixa.
Ele soube antes de perguntar.
Layla havia devolvido.
Algo em seu peito, em vez de fechar, abriu.
Quando a reunião terminou, Zayn dispensou todos e ficou sozinho com Youssef.
— Ela mandou mensagem?
Youssef retirou um cartão da caixa.
— Sim.
Zayn pegou.
A letra dela era firme, elegante, sem floreios desnecessários.
“Não sou sua lâmina. Não sou seu presente. Não sou sua distração. Não envie mais nada.”
Zayn leu uma vez.
Depois outra.
Youssef observava em silêncio.
— Ela é imprudente — disse o conselheiro.
Zayn passou o polegar sobre a palavra “sua”.
— Não.
— Senhor?
— Ela é livre.
Youssef pareceu pesar se deveria responder.
Escolheu o risco.
— Mulheres livres costumam fugir de gaiolas.
Zayn ergueu os olhos.
— E quem falou em gaiola?
Youssef não respondeu.
Não precisava.
Zayn fechou o cartão dentro da mão.
Do lado de fora, o chamado para a oração ecoou pela cidade, subindo sobre telhados, palácios e ruas comuns. Por alguns segundos, o mundo pareceu se inclinar diante de algo maior do que desejo, orgulho ou poder.
Zayn deveria deixar aquilo ali.
Deveria aceitar a recusa.
Deveria lembrar-se da mãe, das esposas, do nome Al-Mansour, das consequências.
Mas a imagem de Layla dançando sozinha em algum lugar que não era seu palácio o atravessou com força inesperada.
Ela havia devolvido o presente.
Recusado o cartão.
Negado o convite.
Chamado-o de homem casado sem abaixar os olhos.
E cada recusa, em vez de afastá-lo, puxava-o mais para perto.
Zayn caminhou até a janela. A cidade se acendia aos poucos além dos muros. Em algum lugar lá fora, Layla Haddad seguia a própria vida convencida de que podia ordenar que ele desaparecesse dela.
Ela não entendia.
Talvez nem ele entendesse ainda.
Mas algo havia começado no momento em que ela dançara diante dele e o desafiara com o olhar.
Algo inconveniente.
Algo perigoso.
Algo que nenhum contrato, esposa ou tradição conseguiria facilmente apagar.
Youssef se aproximou da porta.
— Senhor, devo considerar o assunto encerrado?
Zayn permaneceu olhando para a cidade.
A resposta sensata era sim.
A resposta honrada era sim.
A resposta que preservaria todos naquele palácio era sim.
Mas Zayn Al-Mansour não se tornara o homem mais poderoso de sua família por escolher o que era sensato quando desejava o impossível.
— Não — disse ele.
Youssef fechou os olhos por um instante, como se já previsse a tempestade.
Zayn virou-se, ainda segurando o cartão de Layla.
— Quero saber onde ela estará amanhã.
— Senhor...
— Amanhã, Youssef.
O conselheiro inclinou a cabeça, derrotado.
— Como desejar.
Quando ficou sozinho, Zayn abriu novamente a pasta sobre a mesa.
Layla Haddad.
Dessa vez, o nome não pareceu informação.
Pareceu desafio.
E, em algum apartamento modesto da cidade, Layla talvez acreditasse que devolver o véu encerraria a história.
Mas Zayn sabia de uma coisa sobre histórias.
As mais perigosas nunca terminavam quando uma mulher dizia não.
Às vezes, era exatamente ali que começavam.
Layla Haddad aprendeu muito cedo que algumas portas deveriam permanecer fechadas.
A porta do orgulho, por exemplo, era uma delas.
Quando uma mulher pobre demais para ter proteção e bonita demais para passar despercebida deixava o orgulho falar primeiro, o mundo rapidamente encontrava uma forma de ensiná-la a se calar. Sua mãe lhe dizia isso com frequência, não como conselho de submissão, mas como aviso de sobrevivência.
Engula certas respostas, Layla.
Sorria quando quiser bater.
Vá embora antes que precise provar que está certa.
Mas Layla nunca fora boa em engolir respostas.
E, naquela manhã, olhando para o espelho manchado do pequeno banheiro enquanto prendia os cabelos em um coque baixo, ela pensava que talvez esse defeito fosse acabar destruindo sua paz.
A caixa devolvida ao palácio não havia voltado para ela.
Nenhum novo presente chegara.
Nenhum cartão.
Nenhuma ligação.
Nenhum homem vestido de preto parado diante do prédio.
Nada.
Deveria ser alívio.
Em vez disso, era espera.
E Layla detestava esperar por homens.
Molhou os dedos e ajeitou uma mecha rebelde perto da têmpora. O reflexo devolveu uma mulher de olhos cansados e boca teimosa. Dormira mal. Muito mal. Passara metade da noite repetindo para si mesma que não pensaria em Zayn Al-Mansour, o que era uma forma ridícula e muito eficiente de pensar nele sem parar.
O problema era simples: Zayn a irritava.
Não apenas pela arrogância, embora houvesse arrogância suficiente nele para encher todos os salões daquele palácio. Não apenas por ter quatro esposas, ou por tratá-la como se sua presença no mundo fosse algo que pudesse ser convocado, avaliado, recompensado e guardado.
Ele a irritava porque havia visto demais.
Durante a apresentação, muitos homens haviam olhado para Layla. Ela conhecia olhares de desejo. Conhecia olhares que desciam pelo corpo sem pedir licença. Conhecia olhares que pesavam como moedas.
O olhar de Zayn era diferente.
Ele não olhara como quem queria comprar uma noite.
Olhara como quem queria descobrir um segredo.
E Layla tinha poucos segredos, mas todos doíam.
— Você vai se atrasar — a voz de Soraya veio da cozinha.
Layla saiu do banheiro, ainda prendendo um pequeno brinco dourado.
— A primeira aula é só às dez.
— E você demora quando está fingindo que não está pensando em algo.
Layla entrou na cozinha e encontrou a mãe diante da mesa, partindo pão com as mãos delicadas. A tosse dela parecia menos intensa naquela manhã, embora a palidez ainda preocupasse.
— A senhora deveria estar descansando.
— E você deveria parar de mudar de assunto.
Layla pegou um pedaço de pão, evitando o olhar da mãe.
— Não estou pensando em nada.
Soraya soltou uma risada baixa.
— Filha, você nasceu pensando demais.
— Então hoje tirei folga.
— O sheikh mandou alguma coisa?
Layla parou.
Era inútil mentir para aquela mulher.
— Não.
— E isso a incomoda?
— Claro que não.
Soraya apenas a observou.
Layla mordeu o pão com força demais.







