Capítulo 6 — Um Cartão Recusado

Mais distante, junto à janela, estava Mariam, a quarta esposa.

Mariam era a mais silenciosa. Filha de uma linhagem religiosa respeitada, fora criada para obedecer com tanta perfeição que, às vezes, Zayn se perguntava se alguém já havia lhe perguntado o que queria. Ela tinha olhos suaves, mãos sempre frias e uma tristeza calma que o incomodava mais do que as acusações de Aisha ou os jogos de Samira.

Quatro esposas.

Quatro alianças.

Quatro lembretes de que sua vida havia sido dividida entre interesses antes mesmo que ele pudesse escolhê-la.

Zayn caminhou até a outra cabeceira e sentou-se.

Mãe.

Farida inclinou a cabeça.

Zayn.

O silêncio que se seguiu foi cuidadosamente educado.

Uma criada serviu café. Outra depositou pão quente, queijos, mel, frutas e tâmaras sobre a mesa. Ninguém tocou em nada por alguns segundos.

Então Farida disse:

A recepção de ontem foi um sucesso.

Zayn pegou a xícara.

Foi para isso que a organizamos.

O ministro ficou satisfeito. O enviado francês também. Seu primo Rashid acredita que podemos avançar com a proposta dos portos.

Youssef me entregará o relatório.

Naturalmente.

A mãe dele tomou um gole de café.

Zayn esperou.

Ele conhecia aquela mulher. Farida nunca chegava ao ataque sem antes arrumar a mesa.

Samira foi quem falou primeiro.

A dançarina chamou muita atenção.

Zayn voltou os olhos para ela.

Foi contratada para isso.

Aisha soltou uma risada baixa.

Parece que chamou mais do que esperávamos.

Aisha — advertiu Farida, sem olhar para ela.

A terceira esposa sorriu, fingindo inocência.

Apenas observei o que todos observaram.

Nadine mexeu delicadamente uma tâmara no prato.

A questão não é a dança. Foi uma apresentação bonita. A questão é o que veio depois.

E o que veio depois? — perguntou Zayn.

Samira ergueu o rosto.

Você a procurou no meio do salão.

Eu falei com uma artista após a apresentação.

Você não costuma atravessar salões por artistas.

Zayn pousou a xícara.

Eu costumo fazer o que quero dentro da minha casa.

Samira sorriu.

Um sorriso sem calor.

Essa casa carrega mais do que seus desejos.

Farida observava os dois.

Layla não estava ali, mas sua presença atravessava a mesa como perfume forte.

Zayn odiou perceber isso.

Mariam, a quarta esposa, mantinha os olhos baixos. Talvez por timidez. Talvez por sabedoria.

Aisha se inclinou para trás.

Ao menos ela teve coragem.

Todos olharam para ela.

Coragem? — Nadine perguntou.

Aisha deu de ombros.

De dizer não.

O nome de Layla não foi dito.

Mas a palavra dela retornou.

Não.

Zayn sentiu algo se mover dentro dele. Uma lembrança: Layla erguendo o queixo, os olhos verdes firmes, o corpo ainda brilhando pelo esforço da dança. Não.

Samira percebeu a mudança no rosto dele.

Zayn soube no mesmo instante.

Ela era observadora demais.

A dançarina não deve voltar ao palácio — disse Samira.

Farida não a repreendeu.

Interessante.

Zayn olhou para a primeira esposa.

Você me dá ordens agora?

Eu protejo nossa posição.

Nossa?

Minha. Sua. Da sua família. Das mulheres sentadas nesta mesa. Do nome Al-Mansour.

A resposta era inteligente. Samira nunca se colocava como ciumenta. Isso seria vulgar. Ela falava de honra, de reputação, de estabilidade. Transformava emoção em política, e política em dever.

Era por isso que sobrevivia tão bem no palácio.

Uma dançarina não ameaça o nome Al-Mansour — disse Zayn.

Nadine ergueu os olhos.

Uma mulher não ameaça. O interesse de um homem por ela, sim.

Zayn sorriu sem humor.

Agora discutimos meus interesses?

Farida colocou a xícara sobre o pires.

O som foi baixo.

Todos se calaram.

Discutimos suas imprudências — disse ela.

Zayn encarou a mãe.

Cuidado.

Samira respirou fundo. Nadine baixou os olhos. Aisha ficou imóvel. Mariam pareceu quase desaparecer na própria cadeira.

Farida não se intimidou.

Nunca se intimidava.

Você é meu filho, mas também é o chefe desta família. Se eu não puder lhe dizer a verdade, ninguém poderá.

Verdade e interferência costumam usar o mesmo véu nesta casa.

Ontem você deu àquela mulher algo perigoso.

Dinheiro?

Importância.

Zayn ficou calado.

Porque a frase acertou o centro.

Farida continuou:

Homens como você não podem olhar para uma mulher qualquer como se ela fosse exceção. As pessoas percebem. As esposas percebem. Os inimigos percebem. E a mulher também percebe.

Zayn se levantou.

A cadeira deslizou contra o piso de mármore.

A conversa terminou.

Para você, talvez — disse Samira.

Ele olhou para ela.

A primeira esposa manteve a postura impecável, mas havia dor por baixo da elegância. Dor e orgulho.

Para nós, não — continuou ela. — Somos as mulheres que terão que ouvir os sussurros quando sairmos deste palácio. Somos nós que seremos comparadas à dançarina que fez você se levantar.

A frase deveria irritá-lo.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, Zayn sentiu algo mais próximo de culpa.

Não amor.

Não havia amor entre ele e Samira. Nunca houvera. Mas havia história, acordo, convivência. Ela fora colocada em sua vida como peça de xadrez, sim, mas isso não a tornava desprovida de sentimentos. Nenhuma das quatro era.

Essa era a parte mais cruel.

Todos ali tinham sido usados.

Inclusive ele.

Você não será humilhada por causa dela — disse Zayn.

Samira riu baixo.

Já fui.

Ele não respondeu.

Mariam ergueu os olhos pela primeira vez.

Talvez ela não soubesse.

A voz dela era tão suave que quase se perdeu na sala.

Zayn olhou para a quarta esposa.

O quê?

Mariam hesitou, intimidada pela atenção repentina.

Talvez a dançarina não soubesse que causaria isso. Ela parecia... desconfortável.

Samira a encarou.

Você está defendendo aquela mulher?

Não. Apenas dizendo que talvez ela não tenha vindo ao palácio para disputar nada.

Nenhuma mulher precisa vir com essa intenção para se tornar perigosa — Nadine murmurou.

Aisha apoiou o queixo na mão.

Ou talvez o perigo não esteja nela.

A mesa voltou a ficar em silêncio.

Zayn encarou Aisha.

Termine.

A terceira esposa sorriu, mas seus olhos estavam amargos.

Talvez o perigo esteja no fato de você ter quatro esposas e ainda assim parecer um homem faminto.

A frase atravessou o salão como uma flecha.

Farida fechou os olhos por um instante.

Samira ficou pálida de raiva.

Nadine desviou o olhar.

Mariam abaixou a cabeça.

Zayn não se moveu.

Aisha, porém, sustentou o olhar dele. Havia lágrimas não derramadas por trás de sua ousadia.

Você não nos ama — ela disse. — Nunca amou. Mas até ontem ao menos fingíamos que isso era suficiente.

Zayn sentiu o golpe de uma verdade antiga.

Ele poderia esmagá-la com uma resposta. Poderia lembrá-la do conforto, das joias, da posição que seu nome lhe dava. Poderia usar as armas que homens poderosos sempre usavam quando não queriam admitir culpa.

Mas não fez.

Porque Aisha estava certa.

Ele não as amava.

Não como deveria.

Não como talvez elas merecessem.

E o mais terrível era que todas sabiam.

Farida levantou-se, encerrando a refeição antes que ela se transformasse em ruína completa.

Zayn, venha comigo.

Ele quase recusou.

Mas havia respeito demais entre ele e a mãe para transformar tudo em espetáculo diante das esposas.

Zayn saiu do salão azul ao lado de Farida.

Nenhuma das quatro mulheres falou enquanto eles deixavam a sala.

Mas Zayn sentiu os olhares atrás de si.

Quatro esposas.

Quatro prisões.

Quatro consequências.

E, ainda assim, no centro de seus pensamentos, uma quinta mulher que não lhe pertencia.

Farida o levou ao pátio interno, onde as fontes murmuravam entre árvores de laranja e jasmim. Era um espaço reservado da família, longe dos convidados, longe dos guardas, longe de ouvidos menos leais.

A mãe de Zayn caminhava devagar, mas sem fragilidade. Era uma mulher que envelhecia como uma lâmina antiga: menos brilhante, talvez, mas ainda capaz de cortar.

Você está sendo descuidado — disse ela.

Você já mencionou.

E você fingiu ouvir.

Zayn parou perto de uma fonte.

O que quer de mim?

Farida virou-se para ele.

Quero que se lembre de quem é.

Ele soltou uma risada baixa.

Ninguém nesta casa me permite esquecer.

Então aja como tal.

O sol começava a tocar o pátio. A água refletia luz nas paredes de mosaico azul.

Uma dançarina não vale uma crise familiar — disse Farida.

Zayn sentiu o corpo endurecer.

Layla.

O quê?

O nome dela é Layla.

Farida o encarou por um instante longo demais.

E Zayn soube que acabara de revelar mais do que pretendia.

A mãe dele era esperta. Muito mais esperta que os homens que tentavam negociá-la em jantares. Ela percebeu imediatamente que aquela mulher já tinha nome na boca dele, não apenas função.

Pior — disse Farida.

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