Regreso a Casa

CAPÍTULO QUATRO: REGRESSO A CASA

Ethan Cooper

— Mãe, por favor! — exclamo, irritado. Revirei os olhos quando minha mãe insistiu mais uma vez em me segurar de qualquer jeito. — Não insista mais, já está decidido. Quero terminar meus estudos em Londres — afirmo mais uma vez.

Manchester é uma cidade muito bonita, mas ainda não me acostumei, apesar do tempo que estamos aqui. Não sei exatamente o que me incomoda em estar aqui. Talvez seja eu que estou mal e fico procurando defeitos. Londres é Londres, é a cidade onde nasci e cresci.

«É normal querer voltar para minha cidade», penso, justificando minha decisão. Encolho os ombros, restando importância aos meus próprios pensamentos.

Olho para minha mãe. Ela está com a cara fechada e, ao mesmo tempo, resignada. Eu me sinto satisfeito porque finalmente consegui ganhar uma batalha sobre minha decisão.

— Tudo bem, desta vez você ganhou, Ethan — diz ela com a voz mais suave, o que me deixa em alerta. — Qualquer problema mínimo aí, você volta imediatamente e isso não está em discussão. Estamos entendidos!?

Seu aviso não passa despercebido, porque uma coisa que devo temer dela é quando fala com calma e não com histeria.

— Obrigado, mãe — digo, dando um beijo em sua bochecha. Em seguida, a abraço, demonstrando minha felicidade imensa.

— Quando você vai? — pergunta ela, ainda com um gesto de desagrado pela ideia da minha partida.

— Amanhã — respondo sem encará-la. Fixo o olhar nas minhas unhas, como se tivesse algo urgente para tirar delas.

— Tão cedo? — Ela levanta o olhar, braços cruzados. O movimento do pé dela é um tique de irritação. — Qualquer um diria que você quer fugir daqui, Ethan.

Nego com a cabeça.

— Não é isso — me defendo. — Preciso ir à universidade amanhã à tarde para pegar os horários e na segunda começo as aulas — explico, torcendo para que ela não faça outra cena por eu ter me inscrito antes.

Ela solta um suspiro longo seguido de um resmungo de desaprovação. Sei exatamente o que ela está pensando, e tem razão: me adiantei no processo sem avisar.

— Bem, mãe, vou terminar de fazer minha mala — aviso. Não é necessário repetir que amanhã tenho que sair cedo para Londres.

O ar frio e úmido de Londres b**e no meu rosto. Já é outono, e a cidade me recebe com seu cinza característico, mas não consigo evitar sentir uma faísca de emoção contida.

«Londres. De volta para casa», penso.

Fecho a porta atrás de mim e paro por um momento, observando o espaço que agora será meu lar. Estou no apartamento que meus pais me deram quando fiz dezoito anos. Ir para a mansão Cooper não era uma opção, já que meus pais não estão aqui, e um lugar tão grande não é o que desejo agora.

Entro e vou direto para o que será meu quarto. Deixo a mala de lado e pego roupas casuais, colocando-as sobre a cama.

Tiro a roupa do corpo e tomo um banho rápido. Depois de sair do banho, começo a me vestir. Visto a cueca branca, a calça e uma camisa de três quartos em tons combinados: vinho e bege. Para completar, calço os sapatos.

Olho para o relógio de pulso e vejo que ainda tenho tempo. O toque final é o perfume que passo.

— Pronto — digo, levantando o polegar em aprovação ao me olhar. Dou uma última olhada ao redor. «Organizo quando voltar», penso.

Saio do prédio e olho para os dois lados, procurando um táxi. A partir de agora vou precisar. Uma das coisas de ser filho de pais milionários é ter tudo, mas agora, minha pressão por ter saído de casa e dos luxos é que preciso ser uma pessoa comum.

«Digo isso no bom sentido», penso, lembrando isso ao meu cérebro.

Um táxi aparece na pista contrária. Antes de atravessar a rua, me certifico de que não vem nenhum carro em alta velocidade. Caminho rápido para chegar ao outro lado antes que o táxi passe. Estendo a mão para que pare e, finalmente, ele para.

«Que estranho fazer isso quando sempre tive motorista», penso enquanto entro no banco de trás. Informo o endereço da universidade para o senhor mais velho, que assente e responde: "Em poucos minutos chegamos, jovem".

Flashback

— Você terá o necessário, Ethan — anuncia minha mãe. — Aqui você tem de tudo, mas já que tomou a decisão de ir embora e nos deixar, isso vai te ensinar a valorizar algumas coisas, inclusive as comodidades. Terá seu apartamento, mas não terá quem te leve de um lado para o outro, você se vira como puder. A despensa está cheia, não vai faltar nada, a grande diferença é que você mesmo terá que preparar suas refeições. E, por último, todo mês haverá um depósito com uma quantia razoável para suas despesas necessárias.

«Então é assim, hein?», penso comigo mesmo. Olho para meu pai para ver o que ele diz ou como reage, e ele está mais sério que o normal a esta hora da manhã.

— Aceito, mãe — Não tenho intenção de contrariá-la. Vou provar que consigo me virar, mesmo não sabendo fritar um ovo e muito menos andar como mais um pedestre nas ruas londrinas.

— Ótimo — diz ela, abrindo um sorriso e me dando dois beijos, um em cada bochecha. — Espero que sua estadia em Londres seja do seu agrado, filho — a ironia fica evidente no tom de voz.

— Se comporte e não faça travessuras — diz meu pai, finalmente falando. Me dá um abraço e um tapinha nas costas em forma de despedida.

Fim do Flashback.

— Chegamos, jovem — anuncia o motorista ao virar. Percebo que ele já estacionou.

Pego o dinheiro e entrego. O homem me olha estranho.

— Faltam dez — diz ele, e entendo que entreguei o valor errado. Passo vergonha e termino entregando o restante.

— É, desculpa — digo, e saio do táxi. Já fora, agradeço.

Estou na London School of Economics and Political Science (LSE). Não é que eu me importe com política, mas gosto de Economia. Um ano de estudo já me ensinou o suficiente.

Solto um longo suspiro; a respiração forma vapor diante dos meus olhos enquanto observo o imponente prédio.

Fazia quase um ano que não sentia essa familiaridade. O campus de Manchester era grande e moderno, mas faltava a densidade histórica e a energia que se respira aqui. Meus pais insistiam que eu deveria ficar no Norte para estar perto, mas a verdade é que preciso dessa mudança. Preciso do ritmo de Londres, do anonimato de suas ruas e da promessa de independência que ela me oferece.

Subo as escadas, ajustando o colarinho da camisa. Paro um momento ao cruzar a entrada, respirando o aroma de madeira antiga, papel e café torrado que toma o vestíbulo.

Caminho entre uma multidão de estudantes com mochilas e laptops. Há uma energia palpável, uma mistura de ambição e nervosismo. Vejo a sinalização e sigo para o setor de Assuntos Estudantis.

«Só preciso do meu horário de aulas e encontrar o prédio da Faculdade de Economia», lembro a mim mesmo, tentando manter o objetivo simples.

Ao chegar, a sala está cheia, como era de se esperar. Franzo ligeiramente a testa, me preparando mentalmente para a espera. Enquanto fico na fila, repasso na mente as disciplinas obrigatórias: Microeconomia Avançada, Modelos Matemáticos, História do Pensamento Econômico... As matérias me animam; o caminho que meus pais queriam que eu escolhesse (Direito) está bem longe.

Finalmente, uma mulher jovem atrás do balcão me chama.

— Bom dia. Sou Ethan Cooper, estudante transferido. Segundo ano de Economia. Vim buscar meu horário.

Ela digita algo no computador, com expressão impessoal.

— Ah, sim, senhor Cooper. Já temos seu histórico de Manchester. Seja bem-vindo à LSE. Aqui está a senha de acesso à plataforma. Seu horário está lá, junto com o mapa do campus.

Pego o papel com a senha, sentindo o peso da responsabilidade. Não se trata só das aulas; trata-se de cumprir comigo mesmo, longe da sombra das expectativas familiares.

Saio da sala segurando firme o papel. O campus se estende à minha frente, cheio de prédios de tijolinhos vermelhos e janelas altas. Sinto um ronco de fome no estômago, um lembrete de que não comi nada e já começo a sentir os efeitos da minha nova rotina.

— Preciso conhecer as salas — digo a mim mesmo.

Percorro o lugar, verificando cada andar. O tempo passa e nem percebo. Quando saio, o sol já se escondeu.

Caminho pela rua sentindo o frio da noite. Encaro essa caminhada como um passeio. Procuro um lugar para me alimentar. No meu campo de visão, com letras grandes e iluminadas, vejo “Coffee Coffee”.

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