Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO DOIS: O RAPAZ DOS OLHOS AZUIS
Avy Taylor A tarde transcorreu tão movimentada quanto antes, mas dessa vez éramos quatro garçons no salão e duas pessoas no balcão. Isso aliviava um pouco a pressão, embora ainda estivéssemos num vai e vem constante. Meus músculos estavam tensos e o corpo vibrava de tanto esforço, mas a adrenalina, como sempre, me mantinha ativa. Olhei para o relógio da parede, sentindo os pés ardendo. «Só falta uma hora para acabar o turno», pensei com um suspiro mental, imaginando a sensação gloriosa de chegar em casa e me jogar na cama sem nenhuma cerimônia. Foi exatamente nesse momento que um rapaz apareceu na porta. Nicoll, que havia acabado de entrar, olhou para ele e deu um discreto e coquete piscadinha. Revirei os olhos, segurando um sorriso malicioso pelas insinuações descaradas dela. «Não tem jeito», pensei, achando graça. «Não consegue ver um homem bonito que já fica na cara que ela está de olho». Mas, para minha surpresa, a presença dele também chamou minha atenção imediatamente. Primeiro foi o cheiro: um perfume amadeirado e fresco que invadiu sutilmente o ambiente quando ele passou por mim, deixando um rastro envolvente no ar. Depois, o jeito de se vestir: jeans perfeitamente desgastados e uma jaqueta de couro leve que lhe dava um ar autêntico e descontraído. Sua postura casual e tranquila transmitia uma simpatia natural. Ele seguiu até o fundo do salão e ocupou uma mesa, sentando-se com elegância despreocupada. Peguei o cardápio e fui até ele para anotar o pedido. Meu sorriso estava um pouco forçado pelo cansaço, mas me forcei a manter a profissionalidade, usando-a como escudo contra o esgotamento. — Boa noite, senhor — disse, com a voz um pouco rouca pelas muitas horas de trabalho, mas mantendo o tom educado. Ele respondeu sem tirar os olhos do cardápio. — Boa noite — sua voz era grave e profunda, um murmúrio baixo que mal captei, mas que arrepiou minha pele de um jeito inesperado. Limpei discretamente a garganta e me preparei para anotar. — O que vai pedir? O rapaz finalmente levantou os olhos, e por um segundo fiquei completamente paralisada. Seus olhos eram de um azul intenso, penetrantes, e me olharam com uma força que me desarmou por completo. Meu coração deu um salto e senti um rubor subir rapidamente pelo rosto. Ninguém nunca havia me olhado daquela forma. Eu me senti exposta. — Para mim, um café preto, puro, sem açúcar. Se tiver da mistura da Etiópia, prefiro — pediu, com tom calmo e seguro, fazendo uma breve pausa pensativa. — E para comer, o bolo de chocolate que está na lousa. — Entendido — consegui responder, tentando esconder o tremor na voz. Anotei o pedido com a mão ligeiramente instável, reparando na escolha tão específica: era um conhecedor. Enquanto anotava, ele sustentou meu olhar por mais um instante. Depois sua expressão suavizou e ele abriu um meio sorriso que me deixou estranhamente nervosa, como se tivesse descoberto um segredo meu. — Obrigado — acrescentou, e voltou a olhar para o cardápio, rompendo o intenso contato visual. Virei de costas sentindo as bochechas queimando. «Se controla, Avy. Ele é só um cliente e você acabou de estragar sua profissionalidade», me repreendi em silêncio enquanto caminhava até o balcão. Entreguei o pedido a Joel e, pela primeira vez no dia, o cansaço desapareceu, substituído por uma curiosidade forte e um nervosismo elétrico. Uma risadinha me fez virar a cabeça. Joel me mostrou a comanda e percebi que havia errado na anotação. Fechei os olhos, frustrada. — Desculpa, não sei o que me deu — admiti, com um gesto de cansaço. — Relaxa, garota. Deve ser o cansaço. Foi um dia bem pesado — disse ele, dando um tapinha tranquilizador no meu ombro. O pedido foi preparado rapidamente e em menos de cinco minutos já estava pronto. Senti as pernas tremerem e me forcei a acreditar que era só pelo tempo todo em pé. Recusava-me a admitir que um simples cliente e sua voz rouca tivessem causado aquele efeito em mim. «Não faz sentido, né?», questionei meu coração acelerado. — Aqui está, senhor — disse, colocando o pedido na mesa com cuidado. — Deseja mais alguma coisa? — perguntei, parada ao lado da mesa. — Não, está ótimo assim — Ele tirou uma nota grande de alto valor. — O troco é sua gorjeta — anunciou, me surpreendendo. — O-obrigada — sussurrei, tomada por uma onda de timidez e gratidão. Dei meia-volta e saí quase fugindo, incapaz de sustentar seu olhar por mais tempo. O jovem foi embora, a porta de segurança foi baixada. Minha janta estava embalada e eu esperava o transporte do lado de fora, tremendo levemente de frio. Dentro do meu quarto, depois de um banho rápido, me joguei na cama. Sobre a manta estava minha janta e, ao lado, uma Coca-Cola. Ao abrir a bandeja, o cheiro invadiu minhas narinas e meu estômago roncou alto. Ri baixinho e me disse: «Calma, agora vamos comer». Dei a primeira mordida no sanduíche. O sabor de carne de porco e frango explodiu na boca; gemi de prazer e mastiguei de olhos fechados, aproveitando cada pedaço. Tomei um gole do refrigerante e, entre mordidas e goles, terminei tudo em silêncio, sentindo o alívio e a saciedade tomarem conta de mim. Joguei os restos de lado e prometi que no dia seguinte jogaria tudo no lixo. Deitei no colchão, me cobri com o lençol fino, fechei os olhos e, antes de agradecer a Deus pelo dia, a imagem daquele rapaz de pele morena e olhos azuis apareceu em minha mente. «Quem é você?», perguntei mentalmente, e adormeci, vencida pelo cansaço. Acordei com uma energia renovada, diferente do dia anterior, com um entusiasmo que me impulsionava a seguir em frente. Agora estou no trabalho, como sempre. Joel mais uma vez me colocou na área externa para atender os clientes. Me sinto contente e grata por estar fazendo meu trabalho. Já haviam se passado algumas horas desde a abertura e o movimento havia diminuído. Eram dez e meia da manhã e faltava pouco para o meu horário de saída. Estava em pé, atenta, esperando o próximo cliente. Movia o pé com impaciência, desejando que alguém entrasse pela porta de vidro. E, como se tivesse sido invocado, ele apareceu. Quando cruzou a porta, reconheci imediatamente: era o mesmo rapaz da noite anterior. Sua presença me desestabilizou de uma vez e senti um vazio elétrico percorrer meu corpo. «Por que minhas pernas estão tremendo? Por que meu estômago está assim e meu rosto queimando?», me perguntei, sentindo o pânico subir. — Avy! — ouvi Joel chamar de longe. Virei o rosto. Ele fez um sinal com a cabeça, apontando para a mesa que o jovem acabara de ocupar. Caminhei no automático. — B-bom dia — disse, com a voz trêmula apesar de todos os meus esforços. «O que está acontecendo com você, Avy? É só um cliente», me repreendi. — Bom dia — respondeu ele, com aquele mesmo meio sorriso que me desarmara na noite anterior. Seu olhar desceu até minha plaquinha. — Senhorita Avy — pronunciar meu nome com aquela voz causou arrepios. — Um Iced Latte e um waffle, por favor. Assenti, anotando tudo. Virei para ir, mas parei de repente ao lembrar que não havia perguntado se queria mais alguma coisa. — Aqui está — disse, colocando o pedido na mesa. — Desculpe, deseja mais alguma coisa? Ele riu baixinho. — Sim, é para viagem — respondeu. — Na verdade, não... vou tomar aqui mesmo. — Perdão — me apressei, sentindo o rosto arder. — Vou pegar suas coisas. Mas seu toque suave no meu braço me deteve. Nossos olhares se encontraram bem de perto. Senti o calor dos dedos dele e um breve choque. — Não se preocupe, por esta vez está tudo bem. Pode ir com calma — disse ele, compreensivo. — Vou tomar o café da manhã aqui. — Não vai se repetir — garanti, com o rosto vermelho como um tomate. — Você sempre é assim? — perguntou ele de repente. — Assim como? — Distraída e sorridente — esclareceu, com um brilho divertido nos olhos. Se ele soubesse que era a primeira vez que me sentia assim com um homem... com ele. — Não... sim — respondi, rindo baixinho. Ele me acompanhou com uma risada grave. — Desculpe, preciso voltar ao trabalho. Deseja mais alguma coisa? — Não. Obrigado. Ele pagou e, mais uma vez, deixou uma generosa gorjeta. O bilhete estava impregnado com seu perfume, aquele mesmo que eu já conseguia reconhecer facilmente. Enquanto me afastava, pensei que com as gorjetas de ontem e de hoje conseguiria comprar algo melhor para jantar hoje e amanhã. — Obrigada, rapaz dos olhos azuis — sussurrei.






