A Babá
A Babá
Por: Marcos de Souza
100 Euros

O vento que atravessava as janelas abertas da mansão misturava o cheiro salgado do mar com o perfume caro das flores recém-trocadas, mas nada suavizava a tensão que se acumulava no escritório amplo onde retratos de gerações anteriores observavam, silenciosos, a ruptura que estava prestes a acontecer.

— Você está sendo infantil, Jane — disse o pai, com a voz firme e controlada, apoiando as mãos sobre a mesa de madeira nobre onde repousava o contrato da empresa La Porcelana. — Artes plásticas não é carreira para uma Sulvivam. Administração é o seu caminho. É o nosso legado.

Jane respirou fundo, sentindo o coração pulsar no mesmo ritmo das ondas que batiam contra as pedras da ilha espanhola onde crescera, uma ilha pequena demais para seus sonhos e grande demais para suas responsabilidades.

— Eu não sou o seu legado, pai. Eu sou sua filha — respondeu, a voz embargada, mas firme. — E eu não quero viver cercada de planilhas, metas e reuniões intermináveis. Eu quero pintar. Quero estudar arte em Londres. Quero criar algo que seja meu.

Ele riu, um riso breve e incrédulo.

— Criar? Você acha que administrar um império não é criar? A La Porcelana não surgiu do nada. Seu avô construiu cada filial com sacrifício. Eu expandi para o resto da Europa. E você… você quer abandonar tudo para brincar de artista?

— Não é brincar! — ela rebateu, dando um passo à frente. — É o que eu amo. É o que me faz sentir viva.

O pai a encarou como se ela tivesse acabado de anunciar que pisaria na própria herança.

— Amor não paga salários, Jane. Amor não sustenta funcionários. Amor não mantém tradição.

Ela sentiu o golpe como se tivesse sido físico.

— Talvez eu não queira sustentar tradição nenhuma — murmurou, os olhos brilhando. — Talvez eu queira sustentar a mim mesma.

O silêncio que se seguiu foi pesado, cortado apenas pelo som distante do mar. Ele se endireitou, a postura rígida como porcelana recém-queimada.

— Se você cruzar aquela porta para perseguir essa fantasia, não espere que eu financie sua rebeldia.

Jane engoliu em seco, mas não recuou.

— Eu não estou pedindo permissão. Estou avisando.

— Então vá — ele disse, frio. — Mas não volte pedindo ajuda quando descobrir que o mundo não se curva ao seu talento.

Ela hesitou apenas por um segundo — o tempo exato em que uma filha ainda espera que o pai a chame de volta. Mas o chamado não veio.

Com passos rápidos e mãos trêmulas, subiu as escadas, jogou roupas em uma mala grande demais para parecer prudente e pequena demais para comportar a própria história, e desceu novamente sem olhar para trás.

Na porta principal, ele ainda estava ali, imóvel.

— Você vai se arrepender — disse ele, não como ameaça, mas como profecia.

Jane apertou o cabo da mala.

— Talvez. Mas pelo menos será um arrependimento meu.

Ela saiu.

Na manhã seguinte, enquanto o sol nascia sobre a ilha espanhola e tingia o mar de dourado, o pai estava sentado no mesmo escritório, com o mesmo contrato à frente, mas agora com outro documento aberto na tela do computador.

— Cancele os cartões da senhorita Sulvivam — ordenou ao banco pelo telefone. — Todos. E suspenda a mesada imediatamente.

— Senhor, tem certeza? — perguntou a voz do outro lado.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Absoluta.

Londres a recebeu com céu cinzento e prédios que pareciam guardar séculos em cada pedra escurecida pelo tempo. Jane saiu do aeroporto com a mala arrastando pelo chão e os olhos atentos às ruas movimentadas, aos ônibus vermelhos de dois andares, às fachadas vitorianas, às igrejas antigas que contrastavam com prédios modernos de vidro.

— É aqui — sussurrou para si mesma, tentando conter a mistura de medo e excitação. — É aqui que eu começo.

No pequeno quarto alugado temporariamente, ela largou a mala na cama e pegou o celular para conferir o saldo da conta. A notificação apareceu antes mesmo que o aplicativo terminasse de carregar.

Cartão bloqueado.

Ela franziu a testa.

— Não… — murmurou, tentando novamente.

Bloqueado.

Abriu outro aplicativo. Saldo indisponível.

O coração acelerou.

Discou o número do pai, mas caiu direto na caixa postal.

— Você não faria isso… — sussurrou, embora soubesse que faria.

Olhou dentro da bolsa e contou as notas dobradas que havia trocado antes de embarcar.

Cem euros.

A herdeira secreta de um império milionário estava em uma das cidades mais caras do mundo com apenas cem euros no bolso.

Ela sentou na beira da cama, encarando a janela por onde se via uma rua histórica, com postes antigos e pessoas apressadas caminhando sob guarda-chuvas elegantes.

— Tudo bem — disse para o próprio reflexo no vidro. — Você queria independência. Agora tem.

O estômago roncou, lembrando-a de que independência também significava contas, aluguel e comida.

Jane respirou fundo, levantou-se e abriu o notebook.

— Se ele acha que eu vou voltar chorando, ele não me conhece — murmurou, determinada. — Eu posso não ter a empresa. Mas eu tenho a mim.

E, enquanto a chuva fina começava a cair sobre Londres, misturando-se às luzes amarelas dos postes, Jane Sulvivam — herdeira escondida, artista por vocação e agora praticamente falida — começava a entender que sua verdadeira batalha não era contra o pai, nem contra o império da La Porcelana, mas contra o medo de descobrir quem ela seria quando o sobrenome deixasse de abrir portas.

E, pela primeira vez, as portas teriam que ser abertas por ela.

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