Isadora
Descobri que o silêncio tem sons próprios quando comecei a correr sozinha, antes do dia nascer por completo. Não era o silêncio da casa grande — aquele carregado de passos contidos, de memórias mal resolvidas e respirações calculadas. Era outro. Um silêncio limpo, quase honesto, que vinha das ruas vazias, do ar frio batendo no rosto como um lembrete simples de que eu ainda estava ali.
Viva. Inteira. Em movimento.
O ritmo dos meus pés no asfalto virou um mantra involuntário. Um, dois. Um, dois. O corpo assumiu o comando antes que a mente pudesse sabotar. Nos primeiros minutos, algo me desconcertou: Rafael não apareceu imediatamente nos meus pensamentos. Nem o beijo. Nem Lívia. Nem o contrato. Nada.
A ausência daquele peso trouxe alívio… e culpa. Diminuí o ritmo, puxei o ar com mais força. Não era falta de amor. Era cansaço. Um cansaço antigo, acumulado em meses de cuidado excessivo, de contenção constante, de ser tudo o que esperavam de mim para que nada desmoronasse. Eu não es