Rafael
A casa nunca foi silenciosa de verdade. Sempre houve o som distante do ar-condicionado, o eco discreto dos passos de funcionários, o tilintar ocasional de louças. Mas naquela manhã, depois que Isadora saiu, o silêncio era outro. Era estrutural. Como se algo essencial tivesse sido removido da fundação e o restante estivesse apenas aguardando o desabamento.
Eu permaneci parado no hall por um tempo indefinido, encarando a porta pela qual ela tinha passado. Não havia raiva. Nem choque. Só uma sensação incômoda de atraso — como se eu tivesse percebido tarde demais o momento exato em que tudo se perdeu.
O celular vibrou no bolso.
Fred:
Ela chegou bem. Estacionou o carro. Não entrou em lugar nenhum ainda.
Fechei os olhos por um instante. Não era alívio o que senti. Era vergonha. Eu precisava de alguém vigiando a mulher que eu dizia amar porque tinha sido incapaz de protegê-la quando importava.
Subi as escadas devagar. O quarto ainda carregava o cheiro dela. O travesseiro do lad