Rafael
O carro entrou na propriedade sem aviso, e algo dentro de mim soube antes mesmo de eu ver. Não era paranoia. Era memória. Alguns sons se instalam na gente como cicatrizes antigas. O motor grave, contido, sem excesso — o tipo de carro que não precisa anunciar poder porque já o carrega consigo.
Levantei-me devagar da poltrona. Eduardo percebeu o movimento e fechou o notebook.
— Está esperando alguém? — perguntou.
— Não — respondi, com a mandíbula tensa. Eu sabia quem era. A única pessoa que invadia minha vida sem avisar.
A porta da sala se abriu com a tranquilidade de quem não teme interrupções. Beatrice entrou como sempre entrou em todos os espaços que marcaram minha vida: sem pressa, sem explicações, sem pedir permissão.
Usava um conjunto claro, corte impecável, joias discretas que denunciavam mais status do que ostentação. O cabelo perfeitamente alinhado, a postura ereta, o olhar atento — minha mãe não envelhecera no sentido comum da palavra. Ela havia se tornado mais pre