Mundo de ficçãoIniciar sessãoLeonardo fechou a pasta com cuidado, quase com reverência, e voltou a olhar para a fotografia da esposa sobre a mesa.
— O passado nunca deixou de viver comigo, tio — disse, a voz agora baixa, cansada, definitiva. — Ele mora aqui, nesta sala, todos os dias. E não vou parar até entender por que ela morreu com tanto medo.
— Bom, nesse caso então conte comigo sobrinho.
Ricardo colocou sua mão sobre o ombro de Leonardo.
Naquela mesma noite, já tarde, Aurora organizava as poucas roupas que trouxera no pequeno quarto reservado aos funcionários — simples, mas limpo, com uma cama de solteiro e um criado-mudo de madeira escura ao lado.
Ao fechar a última gaveta, sentiu algo estranho sob os dedos: o fundo da gaveta parecia mais alto do que deveria, como se houvesse um espaço vazio embaixo dele que não fazia sentido, movida pela curiosidade ajoelhou-se no chão frio e passou as mãos pela madeira, apertando de leve em diferentes pontos até sentir uma pequena reentrância, quase invisível a olho nu. Empurrou. Com um clique seco, um compartimento secreto se abriu. O coração de Aurora acelerou instantaneamente, era um fundo falso.
Lá dentro havia apenas um envelope envelhecido, amarelado pelo tempo, sem nome de destinatário, sem remetente — como se tivesse sido escondido ali propositalmente, esperando por quem quer que fosse capaz de encontrá-lo.Com as mãos trêmulas, ela o abriu, movida pela curisosidade e dentro, uma única folha de papel, também amarelada, com uma frase escrita à mão, em uma caligrafia apressada e nervosa:
"Se encontrou isto... significa que ainda existe alguém procurando a verdade."
Aurora sentiu um arrepio subir pela espinha, gelado e elétrico ao mesmo tempo. Ela olhou ao redor do quarto vazio, como se esperasse encontrar alguém observando-a das sombras, e apertou o papel contra o peito.
— Quem escreveu isso? — sussurrou para o silêncio se perguntando — E o que mais essa casa está escondendo de mim? Essa família de fato tem um segredo.
Sem perceber completamente a dimensão do que acabara de fazer, Aurora Almeida havia acabado de dar o primeiro passo para dentro do maior segredo da família Montenegro — um segredo que, ela ainda não sabia, estava profundamente entrelaçado com o seu próprio.
Aurora mal conseguiu dormir naquela noite. Deitada naquele quarto simples, os olhos fixos no teto escuro, sentia a frase do bilhete pulsar dentro dela como um segundo coração:
"Se encontrou isto... significa que ainda existe alguém procurando a verdade."
Quem havia escrito aquilo? Quando? E, principalmente — para quem, exatamente, aquela mensagem era destinada? Para a próxima babá qualquer que abrisse aquela gaveta por acaso? Ou para alguém específico, alguém que soubesse o que procurar?
Ela se sentou na cama, acendeu o pequeno abajur e releu o bilhete pela décima vez, talvez décima primeira, já perdendo a conta. As letras nervosas, a caligrafia apressada, quase tremida em alguns trechos — como se quem escrevera tivesse pouco tempo, ou muito medo.
— O que você sabia? — sussurrou para o papel, como se ele pudesse responder. — E por que escondeu isso justamente aqui, neste quarto?
Seja lá quem fosse, queria mesmo que fosse encontrado.
Por fim, dobrou o bilhete com cuidado e o escondeu dentro da capa de um velho caderno de capa dura que sempre carregava consigo, entre as roupas na mala. Ainda era cedo demais para confiar em qualquer pessoa naquela casa. Cedo demais até para confiar nas próprias suspeitas.
Às seis da manhã, o som distante de passos apressados e vozes abafadas vindas da cozinha a tirou de um sono raso e inquieto. A mansão despertava devagar, como um organismo enorme se espreguiçando.







