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O Menino que Não Sorria

Funcionários uniformizados cruzavam os corredores carregando bandejas de prata. Flores recém-colhidas eram distribuídas pelos salões em vasos de cristal, não haveria festa mas tudo deveria estar perfeito sempre. O aroma de café fresco subia pelas escadarias e se misturava ao cheiro de pão quente vindo da cozinha. Tudo ali funcionava como uma engrenagem impecavelmente sincronizada — cada pessoa em seu lugar, cada gesto ensaiado por anos de repetição, Aurora já vestia o uniforme, uma camisa brança com corte social e uma saia tubinho preta com um sapato de salto preto e de seis cm. 

— Dormiu bem?

Aurora se virou ao ouvir a voz de Beatriz, que colocava uma xícara de café fumegante sobre a mesa da copa, os movimentos precisos de quem já fizera aquilo milhares de vezes.

— Melhor do que eu imaginava, para ser sincera — respondeu Aurora, puxando a cadeira e se sentando.

— Aproveite essa paz. — Beatriz esboçou um meio sorriso, cansado. — Ela costuma durar pouco por aqui.

Aurora segurou a xícara entre as mãos, sentindo o calor subir pelos dedos.

— Henrique costuma acordar cedo assim?

Beatriz respirou fundo, os ombros baixando visivelmente, como se a pergunta pesasse mais do que parecia.

— Desde que perdeu a mãe... aquele menino quase não dorme direito durante a noite. Às vezes escuto ele andando pelo corredor de madrugada, sozinho, sem fazer muito barulho, só... andando.

A resposta fez Aurora baixar os olhos para a xícara.

— Ele sempre foi assim? Tão... fechado?

— Não. — Beatriz caminhou até a janela, os braços cruzados, o olhar perdido no jardim molhado de orvalho. — Antes ele era uma criança alegre. Corria pela casa inteira, gritando, rindo, deixando brinquedos espalhados por todo canto que essa mesma governanta reclamava de recolher. — Um sorriso triste passou pelo rosto dela. — Helena enchia esses corredores de música. Ela cantava enquanto cozinhava, sabe? Desafinada, diga-se de passagem, mas cantava. Depois que ela morreu... — A voz de Beatriz falhou por um instante. — O silêncio tomou conta dessa casa inteira. E parece que nunca mais foi embora.

Aurora percebeu, pelo tom, pela forma como os olhos de Beatriz brilharam por um segundo, que a governanta falava de Helena com um carinho profundo, quase maternal. Talvez ela soubesse muito mais do que qualquer outra pessoa naquela casa. Talvez soubesse mais do que estava disposta a dizer para uma desconhecida no seu terceiro dia de trabalho. Antes que Aurora pudesse continuar puxando aquele fio, uma voz infantil e irritada cortou o ambiente.

— Não quero café!

Segundos depois, Henrique surgiu correndo pela porta da cozinha, o pijama amassado, os cabelos ainda mais bagunçados do que no dia anterior. Ele parou abruptamente ao avistar Aurora sentada à mesa, como se tivesse esbarrado em uma parede invisível. Os dois se encararam em silêncio por um instante que pareceu se esticar.

— Você ainda está aqui... — murmurou ele, a voz carregada de uma surpresa que tentava, sem muito sucesso, disfarçar.

Aurora sorriu, tentando manter o tom leve.

— Achou que eu já teria ido embora?

Ele deu de ombros, os braços se cruzando no peito no mesmo gesto defensivo do dia anterior.

— Todas vão.

— Bom... — Aurora se levantou devagar e pegou uma maçã vermelha da fruteira sobre o balcão, girando-a entre os dedos. — Então acho que vou ter que decepcionar você, porque eu não tenho planos de sair correndo tão cedo.

— Vamos ver. — Henrique apertou os lábios, desconfiado, mas Aurora notou algo diferente no jeito como ele a olhava agora: um brilho curioso escondido atrás daquela seriedade toda, como se ele estivesse, ao mesmo tempo, torcendo para ela fracassar e secretamente esperando que, dessa vez, alguém finalmente ficasse, que alguém lutasse por ele.

— Quer dividir essa maçã comigo? — ela ofereceu, estendendo a fruta.

Ele hesitou. Olhou para a maçã, depois para Aurora, como quem avalia uma armadilha.

— Só se você deixar eu escolher o pedaço maior.

Aurora riu, um som genuíno que pareceu pegar o próprio Henrique de surpresa.

— Combinado.

No centro financeiro da cidade, dentro de uma sala de reuniões com paredes de vidro do trigésimo andar, Leonardo encerrava mais uma reunião com investidores. Números, projeções, contratos — tudo passava diante dele como ruído distante, palavras que não conseguiam ancorar sua atenção. Sob a mesa, escondida da vista dos demais, a tela do notebook exibia uma fotografia ampliada: a lateral amassada do carro de Helena, o metal retorcido brilhando sob o flash antigo da perícia. Ele observava, pela milésima vez, um detalhe quase imperceptível. Uma marca metálica na lateral esquerda. Um risco fino, quase invisível para olhos destreinados, mas que Leonardo já havia estudado tantas vezes que conseguia desenhá-lo de olhos fechados.

Como se outro veículo tivesse tocado o dela instantes antes da queda. Cinco anos olhando para as mesmas fotografias, procurando algo que a polícia jamais viu. Ou nunca quis ver. Uma batida seca na porta o arrancou dos pensamentos. Ele fechou a imagem às pressas, quase derrubando o café sobre a mesa.

— Sempre trabalhando — comentou Ricardo, entrando sem esperar resposta, como sempre fazia.

— O que houve? — a voz de Leonardo saiu mais seca do que pretendia.

— Vim avisar que hoje teremos um jantar com alguns acionistas. Presença obrigatória, Leo. Dessa vez não dá pra você desaparecer no meio da sobremesa como fez da última vez.

— Não estou com disposição tio.

— Você nunca está. — Ricardo se aproximou da mesa, apoiando as mãos sobre ela, o sorriso de sempre no rosto. — Mas vamos deixar isso pra depois. Tenho uma notícia mais interessante.

— O quê?

— A nova babá parece ter causado uma boa impressão em Henrique.

Leonardo ergueu os olhos, genuinamente surpreso.

— Você já a conheceu?

— Rapidamente. Cruzei com ela no corredor mas ela não me percebeu.

— E?

Ricardo sorriu de um jeito discreto, quase calculado, os olhos brilhando de um jeito que Leonardo não soube interpretar direito.

— Ela parece inteligente. — Uma pausa, curta, deliberada. — E se parece um pouco com Helena, acredito que isso possa ter ajudado.

Leonardo olhou surpreso para seu tio, mas logo seus pensamentos passam  para a marca metálica na lateral do carro de Helena. Não fazia a menor ideia de que aquela frase simples, dita com tanta leveza, carregava um interesse muito mais profundo — e muito mais perigoso — do que qualquer curiosidade casual. Será que ele estava descobrindo algo de fato?

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