O Suspeito

Depois do almoço, com Henrique já adormecido para a soneca da tarde, Aurora recebeu autorização de Beatriz para explorar parte da biblioteca da mansão.

O cômodo era gigantesco, quase um andar inteiro dedicado apenas a livros e memórias. Prateleiras de madeira escura, do chão ao teto, cobriam cada parede. Livros antigos com lombadas de couro gasto. Álbuns de fotografia empilhados com cuidado. Caixas de documentos lacradas, algumas cobertas por uma fina camada de poeira que sugeria anos sem serem abertas. Retratos emoldurados da família Montenegro, gerações inteiras observando de cima, em silêncio, fora o ar antigo e clássico do local, estantes cobertas de livros, muitos deles e uma escada caracol ao canto com detalhes em dourados.

Aurora caminhava devagar entre as prateleiras, os dedos deslizando pelas lombadas dos livros, os olhos vasculhando cada detalhe, cada moldura, cada pista possível que a ligasse ao passado da própria mãe. Foi então que um quadro específico chamou sua atenção.

Era uma fotografia em preto e branco, emoldurada em prata escurecida pelo tempo. Mostrava a inauguração da primeira sede da empresa — faixas cortadas ao meio, homens de terno sorrindo para a câmera, um brilho de otimismo que parecia pertencer a outra época. No centro da imagem estava um homem elegante, de cabelos grisalhos e postura imponente.

Augusto Montenegro. O fundador do império, ela reconheceu pelo formato do queixo, tão parecido com o de Leonardo. Ao lado dele, dois jovens. Um se parecia muito com Leonardo — o mesmo olhar sério, a mesma linha da mandíbula.

O outro era, sem dúvida, Ricardo o irmão mais novo de Augusto e tio de Leonardo essas informações eram publicas. Muito mais jovem, os cabelos mais cheios, o sorriso já ali, parecia ensaiado. Mas foi o canto inferior direito da fotografia que fez o coração de Aurora acelerar. Havia espaço, claramente, para uma terceira pessoa ali — um pedaço de ombro, uma manga de terno visível na borda. Mas a fotografia havia sido rasgada com cuidado, quase cirurgicamente, exatamente onde essa terceira figura deveria estar.

Como se alguém tivesse feito questão de apagar aquela pessoa da história. Aurora franziu a testa, aproximando o rosto da moldura. Por que rasgar justamente essa pessoa? Quem era ela? Um som de passos atrás dela a fez se recompor rapidamente.

— Gostou da biblioteca? — A voz carregava uma elegancia aveludada.

Ela se virou depressa, um par de olhos verdes a olhava com um tom de mistério e analise, Ricardo estava parado alguns centimentros dela bem atrás de si, as mãos nos bolsos do terno impecavel e sob medida, o sorriso educado no lugar de sempre — mas os olhos, esses, permaneciam atentos, calculando. Uma mandibula rigida, um olhar intenso , um homem de negócios e que transbordava sensualidade mesmo que seus olhos verdes passavam uma intensidade em sua observação e também curiosidade.

— É linda — respondeu Aurora, tentando soar casual. — Nunca vi tantos livros reunidos assim.

— Meu pai dizia que toda família guarda seus segredos entre livros. — Ricardo caminhou lentamente pelo cômodo, aproximando-se do quadro e atento ao detalhe que ela sondava, com cautela e misterio, tendo um tom de sensualidade em seus passos e seu sorriso ladeado em seu rosto firme e masculo. — Que os segredos mais valiosos ficam melhor escondidos onde ninguém pensa em procurar.

— O senhor gosta de ler, então? — Ela se perguntava em secreto, quais os segredos.

— Gosto de observar pessoas. — Ele parou ao lado dela, os olhos fixos na mesma fotografia que Aurora examinava segundos antes, Aurora percebeu toda sensualidade que transbordava dele seu coração disparou sem que ela pudesse segurar, mas ainda se manteva atenta a ele. — Livros mentem menos, mas pessoas são muito mais interessantes de decifrar, com o auxilio dos livros certos podemos decifrar elas.

A resposta a deixou desconfortável, um arrepio frio subindo pela nuca. Ricardo esticou a mão e passou os dedos, quase com carinho, sobre a moldura de prata.

— Meu pai adorava esse retrato. Dizia que era o dia mais importante da vida dele.

Aurora apontou, com o mínimo de naturalidade que conseguiu reunir, para o espaço rasgado no canto da fotografia.

— Parece que falta alguém aqui.

Por uma fração de segundo — tão rápida que Aurora quase duvidou de ter visto — o sorriso de Ricardo vacilou. Desapareceu completamente, como uma máscara que escorregou e foi recolocada às pressas.

— Apenas um antigo funcionário. Ninguém importante.

— Interessante saber como as pessoas podem ser pouco consideradas — Aurora comentou isso olhando nos olhos verdes intensos de Ricardo, lançou tais palavras como alfinetes , mas em seguida pensando em manter seu emprego sorrio de forma angelical e adciona — Mas entendo que as vezes alguns funcionários não são tão uteis e podem ser substituidos.

A resposta saiu rápida demais. Ensaiada demais. Aurora percebeu, e guardou aquilo com cuidado em algum canto da memória, como quem guarda uma peça de quebra-cabeça sem ainda saber onde ela se encaixa. Decidiu não insistir. Ainda não era o momento. Ricardo, recompondo-se com uma naturalidade impressionante, passou seu olhar para Aurora projetando sua atenção em cheio sobre ela, mantendo um olhar sensual , misterioso, e um sorriso galante como um predador, estava nítido que ele não gostou das palavras dela, mas percebeu a tentativa dela de amenizar suas palavras, ele muda de assunto:

— Henrique costuma gostar bastante das pessoas que leem histórias para ele antes de dormir. Se você conseguir isso, já terá vencido metade da batalha e não se tornara uma funcionária qualquer, sua aparência já ajuda muito...

— Vou tentar, então, mas acredito que um garoto da idade dele não deva dar bola para minha aparência — Falou de forma educada cortando ele mas também o mesmo sorriso angelical, quem saiba a babá boazinha seja uma boa mascara para se usar com ele.

— Não me refiro a isso querida Aurora— O dedo indicador dele pegou de forma paciente uma mecha do cabelo loiro de Aurora e ele encara a mexa com atenção e charme, Aurora sente o perfume dele e a aproximação a faz fraquejar por um instante, então em seguida Ricardo diz — Mas você é muito parecida com Helena, a mãe dele — Ele a encarou por um instante a mais do que o necessário e soltou sua mexa. — Você não parece o tipo de pessoa que desiste fácil, os homens da nossa família gostam disso, até mesmo os mais jovens.

— Obrigada senhor, mas, mal me conhece.

— Ainda — respondeu Ricardo, o sorriso voltando por completo ao rosto mantendo seu ar elegante e galanteador, ainda proximos um ao outro — Mas pretendo mudar isso se quiser.

Os dois trocaram um olhar breve, cada um tentando ler o outro, cada um escondendo mais do que revelava, Aurora tentava ler Ricardo, talvez a babá boazinha não cole com ele...mas quem saiba se aproximando mais dele, ela conseguiria mais respostas?

Sem que nenhum dos dois soubesse, parado na sombra da porta, Leonardo observava a cena em silêncio, os punhos discretamente cerrados dentro dos bolsos do paletó, ela de fato parecia Helena, os cabelos loiros na mesma tonalidade os olhos verdes água, só que mais jovem, seu tio sempre galanteador, certa vez ele viu seu tio falando com Helena no mesmo tom que falará com a nova babá, Aurora. Isso o incomodou profundamente. Ele não sabia explicar, nem para si mesmo, por que aquilo o incomodava tanto. Ver Ricardo conversando com tamanha naturalidade — tamanha proximidade — com a nova babá despertou dentro dele uma sensação estranha, quase esquecida. Uma sensação que ele não sentia desde antes da morte de Helena. Talvez fosse apenas intuição, ele percebeu que ela parecia deslocada, mas além disso o cabelo loiro dela, seu olhar verde, lembrava Helena, ele queria conhecer melhor ela.

Ou talvez, pela primeira vez em cinco longos anos, algo naquela casa silenciosa estivesse finalmente prestes a mudar — e ele ainda não sabia se deveria temer isso ou torcer por isso.

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