Leonardo fechou a pasta com cuidado, quase com reverência, e voltou a olhar para a fotografia da esposa sobre a mesa.— O passado nunca deixou de viver comigo, tio — disse, a voz agora baixa, cansada, definitiva. — Ele mora aqui, nesta sala, todos os dias. E não vou parar até entender por que ela morreu com tanto medo.— Bom, nesse caso então conte comigo sobrinho.Ricardo colocou sua mão sobre o ombro de Leonardo.Naquela mesma noite, já tarde, Aurora organizava as poucas roupas que trouxera no pequeno quarto reservado aos funcionários — simples, mas limpo, com uma cama de solteiro e um criado-mudo de madeira escura ao lado.Ao fechar a última gaveta, sentiu algo estranho sob os dedos: o fundo da gaveta parecia mais alto do que deveria, como se houvesse um espaço vazio embaixo dele que não fazia sentido, movida pela curiosidade ajoelhou-se no chão frio e passou as mãos pela madeira, apertando de leve em diferentes pontos até sentir uma pequena reentrância, quase invisível a olho nu.
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