Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira semana de Aurora na Mansão Montenegro começou com um desafio que nenhuma das onze babás anteriores conseguira vencer. Henrique, simplesmente, se recusava a aceitar sua presença — ou, pelo menos, fingia se recusar, com toda a teimosia que um menino de seis anos era capaz de reunir. Na manhã seguinte ao encontro na biblioteca, Aurora abriu a porta do quarto de Henrique para acordá-lo e encontrou apenas silêncio. O quarto vazio.
A cama desarrumada, os lençóis jogados de qualquer jeito. Brinquedos espalhados pelo chão, como se tivessem sido derrubados às pressas. E, o mais alarmante de tudo: a janela aberta, a cortina balançando levemente com a brisa da manhã. O coração de Aurora disparou "Meu Deus! Não!".
— Henrique? — chamou, a voz já traindo o pânico, correndo até a janela e olhando para baixo, aliviada ao ver que não havia altura suficiente para ser perigoso, pois havia uma escada logo abaixo, seria uma escada estratégica para o menino? Mas ainda assim apavorada com a possibilidade dele ter sumido — Henrique, responde!
Nenhuma resposta. Ela desceu as escadas correndo, os pés quase escorregando no mármore polido. Na cozinha, Beatriz organizava calmamente o café da manhã, as bandejas de prata alinhadas com precisão militar.
— O Henrique passou por aqui? — Aurora perguntou, sem fôlego, apoiando as mãos no balcão.
Beatriz ergueu os olhos, e um sorriso discreto, quase divertido, surgiu em seu rosto.
— Está procurando o pequeno fugitivo?
— Ele desapareceu! O quarto está vazio, a janela estava aberta, eu...
— Calma, bom diferente das outras meninas você ao menos é bem sincera, nenhuma veio até mim no inicio, você foi esperta em me procurar — Beatriz colocou a jarra de suco sobre a mesa com toda a tranquilidade do mundo. — Ele faz isso quando quer testar alguém novo, não se preocupe.
— Testar como? Ele pode se machucar!
Beatriz sorri contente com a preocupação da nova babá, poderia ser uma pessoa boa que de fato pode ajudar o menino, mas ela estava surpresa com o quão parecida a moça era com Helena a filha do outro sócio da empresa, Augusto MonteNegro era o fundador, mas seu sócio majoritário era Frederico, algo pouco divulgado.
— Ele conhece cada centímetro dessa propriedade melhor do que qualquer adulto que já morou aqui. — Beatriz enxugou as mãos no avental. — Mas confesso que fico curiosa: das onze babás que passaram por essa casa, nenhuma sequer se deu ao trabalho de procurá-lo direito. Simplesmente esperavam sentadas até ele aparecer, ou corriam direto para o telefone chamando o senhor Leonardo.
Aurora cruzou os braços, a determinação suplantando o pânico inicial.
— Então hoje ele vai perder.
Beatriz riu baixinho, um som quase surpreso.
— Boa sorte, senhorita Aurora. Vai precisar.
Beatriz conduziu Aurora percorreram praticamente a propriedade inteira. O jardim principal, com suas roseiras perfeitamente podadas. O pomar, onde as árvores de laranja formavam fileiras ordenadas. A piscina, vazia àquela hora da manhã, a água parada refletindo o céu nublado. A sala de jogos, com seus tapetes felpudos e prateleiras de brinquedos que pareciam quase nunca usados. Nada o coração já apertado de preocupação de verdade, quando ouviu um som baixo, quase imperceptível, vindo dos fundos da mansão. Uma melodia. Beatriz aponta para ela um caminho feito com chão de marmore branco e rosas brancas, que levavam a uma pela sala , ela sussurra para Aurora:
— A mãe dele tocava para ele toda manhã, ele nunca perdeu o habito.
Nisso Beatriz se retira e sai dali deixando Aurora com Henrique, a babá estava com o coração na mão pois assim como Henrique ela sentia falta de seu mãe, seria uma dor na alma que ambos carregariam, a dirença estava em suas idade apenas.
A melodia era desajeitada, cheia de notas erradas, mas inconfundivelmente um piano sendo tocado por dedos pequenos e inexperientes. Seguindo as instruções de Beatriz ela chega até o local quase esquecido da casa mas lindo e impecávelmente limpo — móveis cobertos por lençóis brancos, cortinas fechadas, os raios de luz que escapavam por uma fresta iluminavam o local. Ali, encolhido no banco atrás do enorme piano de cauda branco, estava Henrique.
Os pezinhos balançavam devagar, sem tocar o chão. Os dedos apertavam as teclas sem qualquer técnica, produzindo notas soltas, desconexas, mas ainda assim carregadas de uma concentração absoluta. Ele nem percebeu a chegada dela. Aurora permaneceu parada na porta por alguns segundos, apenas observando. Ela agredecia mentalmente por ter aprendido a tocar piano na igreja quando mais nova. Não queria assustá-lo, não queria quebrar aquele momento tão frágil e privado.
— Então era aqui que você estava.
Henrique deu um pequeno salto, quase caindo do banco, e se virou rapidamente, os olhos arregalados.
— Como me encontrou?! Ninguém nunca me encontra aqui!
— Você deixou pistas.
— Não deixei nada!
Aurora sorriu, aproximando-se devagar e apontando para o tênis dele, onde uma crosta de barro seco ainda grudava na sola.
— Deixou sim. Você passou pelo jardim, aqui, olha, ainda tem barro do canteiro perto da roseira.
Henrique olhou para o próprio pé, surpreso.
— E isso? — Aurora se abaixou e, com cuidado, tirou uma pequena folha verde presa na barra da calça dele. — Essa folha só existe na trepadeira do corredor lateral. Você passou por lá antes de chegar aqui.
Ela o estava ganhando aos poucos, os olhos verdes de Henrique se arregalaram ainda mais, misto de espanto e algo que parecia, pela primeira vez, admiração.
— Como você sabe disso tudo?
Beatriz apresentou para ela todo o caminho dele, mas ela disse:
— Porque eu fazia exatamente a mesma coisa quando era criança, sabia?
Ele a encarou, intrigado, a desconfiança cedendo lugar, aos poucos, a uma curiosidade genuína, ela estava contando uma historia para ele, e se aroximando do coração quebrado do pequeno Henrique.
— Você também fugia?
— Sempre que brigava com minha mãe. — Aurora sentou-se no banco, ao lado de Henrique — Eu tinha um lugar secreto atrás de casa, embaixo de uma árvore enorme. Ficava lá horas, até ela vir me buscar.
Pela primeira vez desde que Aurora chegara àquela casa, Henrique não respondeu com indiferença ou desafio. Ele apenas abaixou a cabeça, os dedos ainda pousados sobre as teclas frias.
— Eu não fujo... — murmurou, quase para si mesmo.
— Não?
— Eu só gosto de ficar sozinho.
Aurora ajeitou sua postura e se aproximou do piano, sentando-se com cuidado no banco ao lado dele, deixando um espaço respeitoso entre os dois. Durante alguns instantes, nenhum dos dois falou nada. Apenas o silêncio do salão esquecido preenchia o ambiente. Até que ela tocou, com delicadeza, uma sequência simples de notas — uma melodia curta, quase infantil, mas que soava certa, harmoniosa, diferente de tudo que Henrique conseguia arrancar do instrumento. Ele levantou os olhos imediatamente, o rosto iluminado de surpresa.
— Você sabe tocar?!
— Um pouquinho. Eu aprendi quando tinha a sua idade.
— Minha mãe tocava. — A voz de Henrique saiu tão baixa que quase se perdeu no silêncio do salão, como se aquela informação fosse frágil demais para ser dita em voz alta.
Aurora interrompeu o movimento das mãos sobre as teclas, virando-se devagar para ele.
— Você sente muita falta dela, não é?
O menino manteve os olhos fixos nas teclas, evitando encará-la.
— Todo dia.
Ela sentiu um aperto forte no peito, um nó de compaixão que subiu pela garganta. Não havia mais desafio nenhum ali, nenhuma birra, nenhum teste. Apenas uma criança pequena demais tentando carregar sozinha uma dor grande demais para qualquer idade, e ela sabia o tamanho dessa dor.
— Sabe... — ela disse devagar. — Minha mãe também foi embora.
Henrique virou-se rapidamente, os olhos verdes fixos nela.
— Ela morreu?
Aurora assentiu, sentindo o próprio peito apertar de novo, ela se perguntava como um garotinho pequeno encarava aquilo, aquela ausência, ele falava tão abertamente a palavra morreu, não era algo como "foi para o céu", nem ela conseguia dizer a palavra, ela respira fundo segurando as lagrimas, e sente a mão quente e pequena dele sobre a dela, o que lhe tira um sorriso entre a lagrima fujona, ela respira fundo:
— Faz pouco tempo.
— Você também sente dor né? A minha faz cinco anos. —
Ela respirou fundo antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado.
— Menos do que doía no começo.
— Quando para de doer? — Ele perguntou, afinal ela era a adulta ali.
Aurora demorou alguns segundos para responder, os olhos marejando sem que ela conseguisse evitar, suas palavras travaram por um instante:
— Acho que... nunca para completamente. Mas fica mais leve. Um pouquinho a cada dia.
Os olhinhos de Henrique se encheram de lágrimas, que ele tentou piscar para trás, sem sucesso.
— Então meu pai também sente isso? Essa dor que nunca para?
Ela sorriu, com uma ternura que vinha direto do peito.
— Acho que sim. Tenho quase certeza que sim, nós adultos só somos mais altos.
Henrique sorriu mas ficou em silêncio por um longo momento, os dedos brincando distraidamente com a barra da própria camiseta. Então, ele fez uma pergunta que, Aurora sentiu instintivamente, ninguém jamais havia respondido de verdade para ele.
— Se ele sente tanta saudade dela... por que ele nunca fala sobre ela? Nunca. Nem uma vez.
Aurora abriu a boca, respirou um pouco e falou:
— As vezes alguns adultos tem formas diferentes de processar a sua dor.
Nisso Aurora voltou a tocar e em silêncio Henrique apoio a cabeça nela e se permitiu sorrir depois de anos.
Naquele exato instante, Leonardo passava pelo local, como de costume, ele sempre espiava seu filho ali, quando sua falecida Helena também estava ali tocando o belo piano, aquele era o lugar predileto dela, o jardim de inverno com o piano que ela escolheu, então as notas do piano chamam sua atenção, ele então as segue, ele observava os dois através da fresta da porta entreaberta, o corpo imóvel, quase sem respirar, Aurora e Henrique , e o piano, isso o lembrava de Helena, memórias de Helena ensinando Henrique aparecem em sua memória. Uma lagrima corre no rosto serio dele, e por anos ele nunca mais via o sorriso no rosto de seu filho, que agora estava sorrindo, aquela moça parecia ter vindo para mudar tudo, mudar sua vida.
Ele admirou a cena em silêncio sem perceber que mais ao fundo, no lindo quintal Ricardo observava todos.







