Mundo ficciónIniciar sesiónAurora nunca soube terminar aquela conversa. E era exatamente esse silêncio inacabado que agora, diante da sepultura, doía mais do que qualquer outra coisa. Ela se ajoelhou na terra molhada, sem se importar com a lama que sujava o vestido preto, e encostou a testa na pedra fria.
— Eu prometo — murmurou, e depois repetiu, mais alto, como um juramento que precisava ser ouvido por alguém, nem que fosse só pelo vento. — Eu prometo que vou limpar o seu nome, mãe. Nem que eu precise destruir todos os Montenegro para isso.
Três semanas depois
A Mansão Montenegro surgiu no fim da avenida como algo que não deveria existir no mundo real — um castelo cercado por árvores centenárias, isolado do resto da cidade por muros altos demais para serem apenas decorativos e portões de ferro forjado que pareciam ter sido desenhados para manter coisas dentro, não apenas fora. Aurora observava tudo pela janela embaçada do táxi, o coração batendo em um ritmo que ela não sabia se era medo ou determinação.
— Chegamos, senhorita — disse o motorista, olhando-a pelo retrovisor com uma curiosidade discreta. — A senhorita vai trabalhar aqui?
— Vou.
— Parabéns, soube que pagam muito bem qualquer um que sirva os Montenegro, e nossa eu daria tudo para vê como é por dentro.
A frase, dita como quem venerava aquela enorme família, aquela casa, aquele local, Aurra sorriu discretamente por educação e disse:
— Nunca percebi que eles eram tão famosos assim.
O motorista deu de ombros, evitando o olhar dela no espelho.
— Casa grande, gente rica, muito silêncio. Mas todos sempre querem ser iguais a eles certo?
Aurora pagou a corrida sem responder e desceu, puxando a pequena mala. Na bolsa, além de roupas dobradas às pressas, carregava dois objetos que pesavam mais do que qualquer coisa: a chave de bronze, ainda morna do calor do seu próprio corpo, e uma fotografia amassada nas bordas — sua mãe, jovem, sorridente, vestindo o uniforme da Montenegro Holding, os olhos cheios de um futuro que nunca chegou a acontecer.
Não sou apenas uma babá, pensou, respirando fundo antes de tocar a campainha do portão. Sou uma infiltrada. E vou encontrar o que você escondeu de mim, mãe, mas também vou me vingar por você. Custe o que custar.
O portão se abriu com um rangido metálico, lento, quase relutante. Um funcionário uniformizado, de expressão neutra e cortês, a conduziu pelo jardim perfeitamente aparado até a entrada principal.
Por dentro, a casa era ainda mais impressionante — e ainda mais estranha.
O mármore claro do piso refletia a luz dourada de lustres de cristal. Quadros a óleo, em molduras douradas, observavam o corredor como sentinelas silenciosos. Esculturas importadas ladeavam as paredes, cada uma provavelmente valendo mais do que Aurora ganharia em uma vida inteira.
E, no entanto, havia algo profundamente errado ali.
Nenhum som. Nenhuma risada ecoando pelos corredores, nenhuma música ao fundo, nenhum passo apressado de criança brincando pela casa. Era como se o tempo tivesse parado naquele lugar havia muito tempo e ninguém tivesse coragem de fazê-lo andar de novo.
— Senhorita Aurora?
A voz veio de trás dela, suave, mas firme. Aurora se virou e encontrou uma mulher elegante, de cabelos grisalhos presos em um coque impecável, olhos atentos que pareciam avaliar cada detalhe.
— Sou eu — respondeu, estendendo a mão. — Prazer em conhecê-la.
— Beatriz. Sou a governanta desta casa há mais de trinta anos. — Ela apertou a mão de Aurora com firmeza, mas seu olhar carregava algo que Aurora não soube nomear de imediato. Pena, talvez. Ou aviso. — Espero, sinceramente, que a senhorita seja paciente.
— Sou boa com crianças, pode ficar tranquila.
— Não me refiro à criança. — Beatriz fez uma pausa breve, quase imperceptível. — Refiro-me a esta casa, a esta família querida, exigimos perfeição em tudo.
Aurora sorriu amigavel, entendendo que ali até os funcionários seriam alto padrão , um estrondo cortou o silêncio como um tiro. Depois outro. E então, o som inconfundível de vidro se espatifando contra o chão.
Beatriz fechou os olhos por um instante, como quem já esperava por aquilo e apenas rezava para que não acontecesse tão cedo.
— Já começou — murmurou.
— O que começou? — perguntou Aurora, o coração disparado.
— O teste dele.
Ela mal teve tempo de processar a frase. No alto da grande escadaria de mármore, surgiu a figura pequena de um menino de aproximadamente seis anos. Cabelos castanhos completamente bagunçados, como se ninguém tivesse tempo — ou permissão — para penteá-los. Olhos verdes, intensos demais para uma criança daquela idade, fixos em Aurora com uma seriedade que não deveria existir em um rosto tão jovem.
Ele segurava, com força, um avião de brinquedo de metal.
— Oi — arriscou Aurora, tentando um sorriso. — Você deve ser o Henrique.







