A manhã na mansão Ravenclaff começou com o tilintar de porcelana fina e o aroma de café recém-passado. Sophia já estava de pé há duas horas, tendo seguido a risca o cronograma de Gael. Ela se sentia revigorada, apesar do encontro perturbador com Alexander na noite anterior. O toque dele ainda parecia assombrar a pele de seus braços, mas ela se esforçava para enterrar essa memória sob sua fachada profissional.
Ela descia as escadas com Gael pela mão, o menino balbuciando algo sobre seus desenhos, quando vozes desconhecidas ecoaram na sala de jantar.
— Mas Alexander, querido, você sabe que meu pai detesta tratar de negócios sem um café da manhã adequado! — A voz era melodiosa, mas carregada de uma afetação que fez Sophia parar no último degrau.
Alexander estava sentado à cabeceira, a expressão tão impenetrável quanto uma rocha. À sua frente, uma mulher deslumbrante gesticulava com mãos cobertas por anéis de diamante. Isadora era o retrato da herdeira perfeita: cabelos perfeitamente alinhados, um vestido de seda que custava mais do que o aluguel anual de Sophia e uma aura de quem nunca ouviu um "não" na vida.
— Isadora, eu já disse que não recebo visitas sem aviso prévio. — Alexander nem sequer levantou os olhos do jornal.
— Oh, deixe de ser rabugento! — Isadora riu, mas seu sorriso vacilou quando seus olhos encontraram Sophia no hall.
O silêncio caiu sobre a sala. Isadora percorreu Sophia de cima a baixo com um olhar clínico. Ela viu o rosto angelical de Sophia, a pele impecável, os olhos expressivos e a silhueta magra e elegante que nem o uniforme simples conseguia esconder. A insegurança brilhou por um milésimo de segundo nos olhos de Isadora, disfarçada logo em seguida por uma máscara de superioridade.
— E quem seria esta? — Isadora perguntou, o tom agora frio e cortante. — Uma nova arrumadeira, Alexander?
— A nova babá de Gael. Sophia Cruz — Alexander respondeu secamente, finalmente olhando para Sophia. — Senhorita Cruz, leve Gael para tomar o café no jardim hoje.
— Sim, senhor — Sophia respondeu prontamente, mas antes que pudesse sair, Gael soltou sua mão e correu... mas não para o pai ou para a convidada. Ele correu para Sophia, abraçando suas pernas e escondendo o rosto.
Isadora apertou o guardanapo de linho com força. Ela tentava conquistar o afeto de Gael há meses para se aproximar de Alexander, e aquela garota loira e atraente havia conseguido em dias o que Isadora não conseguira em um ano.
— Que... eficiente — murmurou Isadora, o veneno escorrendo pelas palavras.
Minutos depois, enquanto Sophia preparava o prato de Gael no jardim, ela não percebeu que Isadora havia saído da sala de jantar para interceptar a governanta no corredor lateral.
— Aquela menina... a babá — Isadora começou, puxando a governanta para um canto. — De onde ela veio? Alexander parece... satisfeito com ela.
— Ela está em período de teste, Senhorita Isadora — a governanta respondeu com sua habitual neutralidade. — Trinta dias. O Sr. Alexander é muito rigoroso.
Isadora deu um sorriso de lado, um movimento que não chegava aos olhos.
— Trinta dias? É muito tempo para alguém tão... bonita circular por esta casa, não acha? Alexander é um homem solteiro, o mais rico do país, e crianças são facilmente manipuláveis. Seria uma tragédia se ele descobrisse que a doçura da senhorita Cruz é apenas uma fachada.
— A senhora sugere algo? — perguntou a governanta, cautelosa.
— Apenas que fiquemos de olho. Uma moça sem referências sólidas, que abandonou estudos... — Isadora brincou com uma mecha de cabelo. — Ela deve ter segredos. E eu pretendo descobrir cada um deles antes que o período de teste termine. Se Alexander a quer por perto pela "ordem", eu vou garantir que ele veja apenas o caos.
Isadora voltou para a sala de jantar, sentando-se novamente diante de Alexander com um sorriso radiante, enquanto no jardim, Sophia sentia um calafrio repentino, como se o sol da manhã tivesse acabado de ser bloqueado por uma nuvem escura