A primeira noite de Sophia na mansão Ravenclaff parecia mais longa do que o dia inteiro de trabalho. Embora tivesse seu pequeno apartamento de aluguel no centro da cidade, o contrato era claro: durante a semana, ela deveria residir na mansão. Alexander não admitia falhas na rotina de Gael, e isso incluía ter a babá disponível para qualquer eventualidade noturna.
Após um dia exaustivo de regras e olhares vigilantes de Alexander, a hora de dormir de Gael tornou-se o momento favorito de Sophia.
O quarto do menino era um santuário de tons suaves. Sophia baixou a iluminação, deixando apenas um abajur de luz quente aceso, criando um clima aconchegante que parecia dissipar a frieza do restante da casa. Ela deitou-se na cama ao lado de Gael, que a observava com uma expectativa doce, e abriu um livro de ilustrações.
— "E então, o pequeno explorador descobriu que o brilho das estrelas sempre o guiaria de volta para casa..." — Sophia sussurrou, sua voz suave preenchendo o silêncio.
Enquanto lia, sentiu o peso do corpinho de Gael relaxar. A respiração do menino tornou-se profunda e rítmica. Ele havia dormido. Sophia sorriu, sentindo uma pontada de carinho que não esperava sentir tão cedo. Ela fechou o livro com cuidado e levantou-se da cama com movimentos de mestre, para não fazer o colchão ranger.
Ela caminhou até o pé da cama, pegou a coberta de lã e inclinou-se para cobrir o menino, ajeitando os lençóis com uma ternura quase maternal. Quando terminou, ela se empertigou, suspirando de alívio pelo dever cumprido.
Sophia começou a andar de costas, querendo manter os olhos no menino até alcançar a porta. O que ela não sabia era que, na penumbra da entrada, uma silhueta alta e imóvel a observava. Alexander estava ali, encostado no batente, em silêncio absoluto, testemunhando aquela cena de cuidado que ele próprio raramente conseguia demonstrar.
De repente, o calcanhar de Sophia atingiu algo sólido e metálico. O carrinho de ferro de Gael.
O corpo dela pendeu para trás violentamente. O grito de susto morreu em sua garganta antes de sair, mas o impacto iminente a fez fechar os olhos.
No entanto, em vez do chão frio, ela encontrou um suporte firme. Mãos grandes e fortes seguraram seus braços, enquanto o corpo sólido de Alexander servia de escudo para a sua queda. Sophia sentiu as costas pressionadas contra o peito dele, o calor do homem atravessando seu uniforme de forma imediata.
O choque foi elétrico. O perfume de Alexander — sândalo e algo metálico, como chuva — a envolveu completamente na luz baixa do quarto. Por alguns segundos que pareceram horas, nenhum dos dois se moveu. Ela podia sentir a respiração dele no topo de sua cabeça, pesada e controlada.
Sophia abriu os olhos e, por um reflexo, virou o rosto. O maxilar de Alexander estava a centímetros do seu, tenso e perfeitamente barbeado. Os olhos azuis dele, geralmente frios, brilhavam com uma intensidade estranha sob a luz fraca do abajur. A química era inegável, um magnetismo silencioso que fazia o ar parecer escasso.
Alexander foi o primeiro a reagir. Ele a empurrou sutilmente para a frente, soltando-a como se ela o tivesse queimado. O rosto dele voltou instantaneamente para a máscara de gelo que ela conhecia.
— Você deve prestar mais atenção por onde caminha, senhorita Cruz — ele disse, a voz baixa para não acordar o filho, mas carregada de uma rispidez cortante. — Deixar brinquedos espalhados pelo caminho é uma negligência que não admitirei.
— Eu... eu acabei de colocá-lo para dormir, Sr. Ravenclaff, eu ia recolher tudo agora — Sophia sussurrou, o coração ainda disparado, sentindo o lugar onde as mãos dele a tocaram formigar.
— Se não consegue cuidar da própria segurança em um quarto iluminado, como espera que eu confie a segurança do meu filho a você? — Alexander deu um passo à frente, a sombra dele a cobrindo. — Esteja atenta. Da próxima vez, posso não estar atrás de você para segurar o impacto.
Ele deu as costas sem esperar resposta, saindo para o corredor escuro. Sophia ficou ali, sozinha no quarto silencioso, sentindo o peso daquela "obsessão" silenciosa começar a ganhar forma. Alexander Ravenclaff era perigoso, não apenas pelo seu poder, mas pelo modo como fazia o sangue dela ferver de indignação e de algo que ela ainda se recusava a nomear.