4 PROVOCAÇÃO

HOLLY

  Para meu alívio, Kevin puxou minha regata branca e cortou aquele clima tenso.

  “Tia Holly, vamos terminar de montar o meu prédio?”

  Eu fiquei de joelhos e sorria para o Kevin, quando ouvi alguém respirar fundo em desaprovação, mas até o irmão dele me chamava de tia Holly. Então quem era ele para proibir o filho de outra pessoa de fazer algo?

  “Agora sei de onde vem tanto apoio.” Sua voz soou com a arrogância de alguém que sabe que tem dinheiro e acha que pode fazer e falar o que bem entende. “Meu irmão é mole demais.”

  Acalmei meus ânimos e continuei olhando para o Kevin.

  “Eu adoraria te ajudar a terminar de montar o seu prédio, meu pequeno príncipe. Mas a tia Holly...” Olhei de canto para o tio mal humorado que mantinha um sorriso sarcástico no rosto e me voltei para o Kevin novamente. “Tem um compromisso hoje. Vamos fazer assim, eu vou me arrumar e volto para falar tchau para você antes de sair. E outra, na segunda vamos nos ver de novo. Não é legal? O final de semana passa rapidinho.”

  O pequenino assentiu com a cabeça, olhando para seus pés. Ele fazia isso quando não gostava muito de uma ideia, mas sabia que teria que aceitar, pois não havia outro jeito. Ele se virou e foi se sentar no tapete. Partia meu coração essa carinha que ele fazia, porém eu estava muito atrasada.

  Eu queria tirar satisfação com um certo alguém. Só que o tempo estava contra mim, então o ignorei totalmente e subi para o quarto de hóspedes que geralmente eu ficava quando dormia na residência dos D. Sierras. Saí do banho, enrolei as pontas do cabelo, coloquei uma maquiagem leve nos olhos, porque o outro presente da minha patroa era um batom vermelho que encontrei em cima da penteadeira. E chegou a hora do vestido, fiquei olhando para ele um momento, deixei estendido sobre a cama. Apesar de ser preto, não era nada discreto devido aos paetês que brilhavam ao menor sinal de luz. Não sei se combinava comigo. Fiquei imaginando se chamaria muito a atenção, coisa que eu não gosto nem um pouco. Mas o batom já era vermelho. Quem está na chuva é para se molhar, certo?

  Olhei no espelho e mal me reconheci. Meu cabelo castanho escuro, já tinham ondas naturalmente, mas para não ficar com frizz, acabei alisando a raiz e enrolando as pontas com a chapinha e joguei-o para o lado direito, assim o meu brinco ficaria mais aparente na orelha esquerda, era um brinco corrente que na ponta carregava uma pedra aquamarine todo banhado em prata. Meus pais me deram na minha formatura e eu amava aquela pedra, era perfeita.

 A única coisa que não estava combinando era o meu sapato. Eu deixava apenas algumas peças de roupas básicas no closet para o caso de precisar dormir aqui, mas meus sapatos ficavam em casa. E eu não teria nada que combinasse com esse vestido também. Minha sorte é que o tênis era branco, então não ficou tão feio, só um pouco estranho, pois era um vestido de festa. Passei meu perfume e fiquei pensando em como sair desse quarto com a confiança que eu não tinha.

  Tomei coragem e desci as escadas. Na metade do caminho já pude ver o Kevin que agora já tinha um arranha céu e várias casinhas de lego ao redor do tapete. Quero ver a bagunça quando ele resolver colocar esse prédio abaixo.

  Quando cheguei no último degrau, o Sr. D. Sierras estava do outro lado da sala em uma poltrona que tinha a vista, exatamente, para onde eu estava. Ele ergueu lentamente a cabeça em minha direção. Um arrepio subiu pela minha espinha com a intensidade do seu olhar. Não era como aquele que ele me deu alguns minutos atrás. A lareira ao seu lado estava ligada e ele tinha seus cotovelos apoiados no joelho, pois estava observando o seu sobrinho a montar uma cidade inteira. A sala estava apenas com as luzes laterais ligadas, deixando-a mais escura, o que acentuava os reflexos das chamas que pareciam dançar no ambiente e faziam seus olhos azuis brilharem como pedras preciosas. 

  Permanecemos parados ali, por um instante, mas me senti constrangida e segurei meus braços ao corpo, enquanto me direcionava para a cozinha e assim pegar meu celular que eu tinha esquecido em cima do balcão.

  Tentei ligar novamente para o William, mas ele ainda não me atendia. Já eram dez e meia e ele nem me retornou. Decidi ligar para casa e ver se ele havia passado por lá e minha irmã atendeu.

  “Oi Cecí, você sabe se o William passou em casa?”

  “Por que ele viria aqui? Você não está no trabalho?”

  Eu tinha enviado uma mensagem para minha mãe avisando que faria hora extra, assim como enviei para o meu namorado, mas diferente dele, a minha mãe tinha respondido.

  “Eu sei. Só perguntei por que a gente tinha marcado de sair.”

  “Sei. E ele não atende as suas ligações. Que novidade.” A voz irônica dela me atingiu.

  “Não começa, Cecí. Se ele não passou em casa, é só falar que não.”

  “Olha... Às vezes, eu acho você muito inteligente, mas na maior parte do tempo eu me pergunto se a gente tem o mesmo sangue.”

  “Não acredito. Você também vai me encher a paciência hoje?”

  “Por quê? Alguém já começou antes de mim?” Ela riu para me atormentar.

  “Avisa a mãe que eu vou chegar tarde, por favor.”

  “Espero que você não vá correndo atrás dele. Se o Siiir Wlliam quisesse que você fosse a algum lugar com ele, com certeza, ele estaria aí na porta para te buscar.”

  “Só passe o recado. Ok?” 

  Desliguei o celular e me joguei no balcão próximo a pia, com o cabelo cobrindo meu rosto. Chacoalhei a cabeça antes de bater com a testa na pedra fria de mármore que eu estava debruçada. Pelo menos em um dia, apenas um dia, poderia acontecer somente coisas boas. Por que as pessoas insistem em me provocar e testar minha paciência?

  “Levou um bolo, tia Holly?” Sua voz rouca e baixa preencheu meus ouvidos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App