Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander
O quarto estava escuro quando fechei a porta depois de colocar Theo para dormir.
Não escuro de verdade — havia sempre aquela linha tênue de luz entrando pela fresta da cortina, suficiente para lembrar que o mundo continuava ali fora, mesmo quando eu precisava fingir que não.
Desabotoei a camisa com gestos automáticos e a deixei no corpo, pendente.
Sentei-me na beira da cama sem ligar a luz.
O silêncio era absoluto.
E, ainda assim, algo em mim não encontrava repouso.
O livro nas mãos dela não me saía da cabeça.
Eleonor o havia lido semanas antes, com aquele sorriso enviesado que sempre anunciava que ela estava prestes a provocar algo — não em mim, mas no mundo.
“Você devia ler.”
Eu rira.
Eleonor sempre fora intensa. Leitora voraz. Romântica incurável. Daquelas que acreditavam que certas histórias não apenas eram possíveis, mas necessárias.
Minha irmã ficou impactada com aquilo tudo, desejando que uma história assim acontecesse com ela.
— Isso é ficção — eu dissera, lembrando-lhe, como o irmão mais velho que sempre fui. — Paixões arrebatadoras só funcionam no papel.
Ela revirara os olhos.
“Você é muito metódico para entender. Mas precisa se curar disso.”
Talvez fosse.
Eu sempre acreditei que amor era escolha, construção, respeito. Amei minha esposa assim. Profundamente. Com lealdade. Com história. Mas paixão… aquela coisa avassaladora, irracional, quase destrutiva?
Não.
Isso não era para homens como eu.
Ainda assim, curioso, abri o livro.
Não por crença.
Folheei páginas sem real interesse até que meus olhos pararam.
E então… li.
Era intenso, febril, com cenas tórridas que invejei.O tipo de escrita que não descreve apenas corpos, mas o que acontece quando dois mundos colidem. Quando o desejo não pede permissão. Quando a vontade de olhar, tocar, proteger e possuir se misturam num único impulso quase sufocante.
Fechei o livro com força.
O coração batia diferente.
Vi-me desejando aquilo também, alguém a quem mimar, olhar com desejo desesperador, quase sufocante, mesmo que o mundo todo fosse contra, porque o que existiria entre os dois ultrapassaria qualquer barreira.
Lembrei de Eleonor dizendo, quase em sussurro, que desejava viver algo assim um dia. Alguém que a visse inteira. Que a escolhesse mesmo quando tudo fosse contra.
Eu achara graça.
Até Clara surgir.
Clara com aquele mesmo livro nas mãos.
Um aviso.
Um alerta silencioso de que aquelas histórias não estavam confinadas ao papel... mas poderiam acontecer bem perto de mim. Comigo.
Deitei-me.
O quarto parecia quente demais. Tirei a camisa e a calça. Fechei os olhos.
A imagem veio sem convite.
A pele dela.
Não era fantasia vulgar.
O tipo que não surge há anos.
Cedi, baixando a boxer, respirando fundo ao me tocar com suavidade, como se fosse a mão delicada... dela. Até me entregar, sufocar um gemido, o nome: Clara.
Quando o corpo finalmente cedeu ao cansaço, ao prazer explosivo depois de ter a imagem dela nua em minha mente, o sono veio pesado, profundo, sem sonhos claros — apenas sensação.
Acordei com o sol já alto.
Assustado.
Demorei alguns segundos para entender onde estava. Para perceber o relógio. Para aceitar o fato incômodo de que eu não dormia até aquela hora havia anos.
Sentei-me de súbito.
Theo.
Levantei-me imediatamente, ainda de boxers, e saí pelo corredor. A casa estava acordada. Silenciosa, mas viva.
Ouvi o som vindo da cozinha antes de ver.
Um murmúrio suave.
Virei o corredor e parei.
Clara estava diante da ilha.
Theo acomodado junto ao corpo dela, preso num canguru, seguro, confortável, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo. Invejei-o. Ela caminhava devagar, quase dançando, ajustando o peso do bebê contra o próprio corpo, vestido em jeans claro e uma blusa de lã branca de gola alta.
A cena me atingiu com uma força que eu não antecipara.
Ela.
O olhar dela encontrou o meu.
Ficamos assim por longos segundos.
Eu preso à imagem inteira.
Nenhum de nós se moveu.
Theo balbuciou algo.
— Pa… — tentou. — Pa…
O som nos despertou como um choque.
— Você ouviu isso? — Clara perguntou, rindo, os olhos brilhando.
Aproximei-me instintivamente.
— De novo, campeão — disse, pegando as mãozinhas dele.
— Pa… papá!
Rimos juntos.
O riso veio fácil demais. Íntimo demais.
Meu braço envolveu os dois num gesto natural, quase automático. Minha mão tocou as costas de Clara por um segundo a mais do que seria estritamente necessário.
E então...
— Bom dia — disse Eleonor, pigarreando de leve.
Afastei-me no mesmo instante.
Ela estava encostada na porta, sorrindo, o olhar atento demais para não perceber tudo.
— Vejo que alguém acordou tarde — comentou. — E que o Theo está, hum, muito confortável. Bem, não só ele.
Ergueu uma sobrancelha, divertida, olhando descaradamente para mim, quase nu.
— Eleonor — disse, sem mais saber o que falar, ou se deveria fazer isso.
— Imagino que a babá já esteja bem adaptada à rotina — completou com um risinho, seu cabelo loiro preso bem no alto da cabeça, vestida com um conjunto branco de ioga.
Olhei para mim mesmo.
Desviei o olhar de Clara.
— Com licença — murmurei, voltando rapidamente para o quarto.
Fechei a porta do quarto atrás de mim com mais força do que pretendia.
Encostei-me nela, respirando fundo.
Olhei para baixo, vendo-me rijo apenas pela presença e leve contato com Clara.
Resmunguei, quase rindo de mim mesmo:
— É, amigo, às vezes a ficção chega perto demais da realidade.
Passei a mão pelo rosto.
— E sorte a nossa… se um dia isso acontecer.
Suspirei, tentando retomar o controle de mim mesmo. Fiquei ali alguns segundos, determinado a recuperar o controle.
Mas sabendo — com uma lucidez incômoda — que algumas histórias, uma vez iniciadas, querem se tornar realidade.







