Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara
O sábado começou diferente.
Não houve o ritmo exato da semana, nem o som antecipado do carro saindo cedo. A casa parecia suspensa em um tempo mais lento, como se tivesse decidido respirar junto com o dia.
Acordei cedo por hábito. O quarto de hóspedes ainda guardava o silêncio da madrugada, Theo era um bebê perfeito, ainda não o tinha ouvido chorar, e por alguns segundos fiquei deitada, olhando o teto, tentando entender por que meu corpo estava desperto antes do necessário.
Não era ansiedade.
Era atenção.Não queria perder um segundo do que acontecia na casa.
Vesti algo confortável e quente, porque estava começando a ficar frio de verdade em Nova Iorque, e saí do quarto com cuidado. No corredor, tudo estava quieto. Passei pela porta entreaberta do quarto de Theo e o vi dormindo, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo, uma das mãos fechada como se segurasse algo invisível.
Sorri sem perceber.
Desci.
Alexander estava na cozinha. Não de terno, não de camisa impecável. Vestia uma camisa simples de linho e segurava uma caneca como se aquilo fosse a única coisa que precisava naquele momento.
Ele levantou o olhar quando me viu.
— Bom dia.
— Bom dia — respondi baixinho, atônita com sua beleza.
Houve uma pausa breve. Diferente das outras. Mais solta.
— Hoje não vou trabalhar — disse. — Vou ficar com o Theo.
Assenti. Já esperava por isso. Eleonor disse que ele gostava de passar os fins de semana com o filho e que eu teria esses dias para fazer o que quisesse. Para uma brasileira vivendo em uma mansão em Brooklyn Heights, há minutos de trem do meio de Manhatan, isso deveria soar como as portas para a liberdade, mas eu só queria ficar ali com eles e ver como funcionavam.
— Pode descansar. Aproveitar a manhã. Não precisa ficar por perto — falou Alexander, como se lesse meus pensamentos.
A forma como ele disse não precisa não era dispensa fria. Era… delimitação. Ele queria espaço com seu filho.
— Certo — respondi. — Se precisar de mim, não vou sair.
— Eu chamo. Apesar de que acho que deveria aproveitar enquanto o tempo ainda não está terrível. — Olhou para mim de cima a baixo e me senti despir sob seus olhos, mas o calor cedeu quando falou, seco: — Tem boas roupas de inverno? Gosto que Theo saia um pouco, mesmo no frio, faz bem para a saúde.
Simples. Direto. Sempre preocupado com o filho e ignorando todo o resto.
— Sim, senhor. Acho que tenho um casaco e um par de botas que aguentam.
Resmungou alguma coisa antes continuar:
— Tenho um cartão de crédito sempre à disposição dos funcionários. Está com Helena. Compre o que precisar, quando precisar.
— Ah, ok. — Fiquei sem palavras para aquilo.
Peguei um café e fui para a área mais afastada da casa, levando um livro que havia encontrado no quarto de hóspedes: Birthday Girl, da Penelope Douglas. Não pretendia ler. Apenas fingir ocupar o tempo. Nem sabia sobre o que era, mas a capa bonita chamou minha atenção.
Fui para o jardim, que estava gelado, mas com o céu azul. Sentei perto da piscina e aproveitei o silêncio, fechando os olhos e tomando um pouco do sol que não aquecia mais.
Mas o silêncio mudou depois de algum tempo, acho que meia hora.
Ouvi a porta da casa abrir. O murmúrio baixo da voz de Alexander. Não palavras claras — ainda — mas o tom. Um tom que eu não conhecia vindo dele. Doce, bobo.
Endireitei a postura e prestei atenção.
Não vieram para onde eu estava. Alexander nem me viu, e eu não me aproximei. Observei de longe o homem forte estender uma manta no chão enquanto segurava o bebê só com o outro braço.
Ele o colocou no chão e sentou ao lado, falando coisas que eu não podia ouvir, mas estava morrendo de curiosidade. Peguei o livro em cima da mesa e fui na ponta do pé até a casa da piscina, me esgueirando pela parede.
Fiquei perto cerca viva lateral, e estava parcialmente encoberta pela vegetação. Não era espionagem consciente. Era curiosidade involuntária. Como quando o corpo se move antes da decisão.
Theo balbuciava sons desconexos, braços se mexendo com a falta de coordenação típica de quem ainda está descobrindo o próprio corpo.
Alexander se deitou de lado, apoiado no cotovelo, totalmente no nível do filho.
— Então… — disse ele, em voz baixa, mas clara o suficiente para alcançar onde eu estava então. — O que você acha de sábados assim?
Theo respondeu com um som indefinido, algo entre um suspiro e um riso.
Alexander sorriu.
Não foi um sorriso social.
Nem contido. Foi aberto. Quase vulnerável.Meu peito apertou de um jeito estranho.
— Eu sei — continuou ele, como se o bebê tivesse dito algo profundo. — Eu também gosto mais quando não há ninguém olhando, quando não tenho horário.
Theo pegou o ar, animado, a mãozinha fechada bem apertado.
Alexander segurou os pezinhos dele com cuidado.
— Você é um garoto de sorte, sabia? — continuou.
O bebê emitiu um som mais alto, algo que parecia entusiasmo.
— É — Alexander confirmou. — Pode sorrir quando quiser. Pode se jogar no chão, rir sem motivo. Ninguém espera nada de você ainda.
Ele fez uma pausa curta.
— Às vezes eu queria poder fazer isso também.
Meu estômago se contraiu.
Alexander passou o dedo pela barriga do bebê, provocando uma reação imediata. Theo riu. Um som pequeno, mas inteiro.
— E ela? — Alexander perguntou de repente, como se continuasse uma conversa real. — Você gosta da Clara?
O nome na boca dele fez meu corpo reagir antes da mente.
— Eu acho que sim — ele respondeu por Theo, com um meio sorriso. — Ela é bonita, não é?
Meu rosto aqueceu.
— Muito bonita — acrescentou. — E sabe o pior?
Ele se inclinou um pouco mais, abaixando a voz.
— Eu também tenho vontade de sorrir quando a vejo.
O ar pareceu desaparecer.
Dei um passo para trás sem perceber, as costas encontrando a parede fria da casa da piscina. Meu coração batia rápido demais para uma manhã tranquila e fria. Fechei os olhos por um instante, tentando respirar, apertando o livro contra o peito que subia e descia.
Mas a imagem veio sozinha em minha mente.
Alexander em pé, a camisa entreaberta.
Os botões cedendo um a um. Aquela mesma presença agora sem a barreira do tecido.Balancei a cabeça levemente, como se pudesse expulsar o pensamento.
— Clara?
Abri os olhos num sobressalto.
Ele estava de pé, a alguns metros de distância, o bebê seguro nos braços. O olhar atento. Surpreso.
— Eu… — comecei, mas a voz falhou.
— Está tudo bem? — ele perguntou. — Ouvi um barulho e achei que alguém tivesse entrado na propriedade.
Assenti rápido demais.
— Sim. Tudo ok. Eu só… estava indo buscar água.
Houve um silêncio breve. Avaliador. Não tinha água ali. Não havia motivo para estar naquele lugar. Devia ter pensado em outra coisa para falar.
— Certo — disse ele, olhando para o livro em minha mão, que escondi atrás do quadril. — Olha, preciso de um favor.
O tom mudou. Não era mais aquele pai babão falando com o seu neném, mas um patrão desconfiado da empregada espiando sua vida.
— Recebi uma mensagem agora — continuou. — Um paciente morreu esta manhã. Primo de um amigo próximo. Vou ter que sair. Resolver algumas coisas burocráticas no hospital. E ir ao velório mais tarde.
Meu corpo se recompôs automaticamente.
— Claro — respondi. — Quero dizer, sinto muito. Pode ir tranquilo. Eu fico com o Theo.
Ele me olhou por um segundo longo.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele assentiu.
— Obrigado.
A palavra não veio como formalidade. Veio carregada.
Recebi o bebê nos braços e ele encarou o livro de novo. Ergue uma sobrancelha e acho que deu um sorrisinho.
— Não vai passar tanto frio este inverno com essa história.
— O quê? — falei, confusa, sem nem saber do que se tratava aquilo, mas ele riu, beijou a mão de Theo e me deu as costas.
Fiquei olhando enquanto cruzava o jardim, voltando a mim apenas quando, em um espasmo do pequeno, recebi uma palmada no rosto para me acordar. Sorri e beijei sua testa.
— Estou aqui. Obrigada por me lembrar disso. — Abracei-o contra o rosto e suspirei.
Virei o livro e li a sinopse.
“JORDAN Ele me acolheu quando eu não tinha outro lugar para ficar. Ele não me usa, me magoa ou se esquece de mim. Ele não me trata como nada, não me despreza, ou me faz sentir insegura. Ele se lembra de mim, ri comigo e olha para mim. Ele me escuta, me protege e me enxerga. Sinto seus olhos em mim sobre a mesa do café da manhã, e meu coração dispara quando o ouço entrar na garagem depois do trabalho. Preciso parar isso. Não pode acontecer. Minha irmã me disse uma vez que, não existem homens bons, e se você encontrar um, ele provavelmente será comprometido. Só que o comprometido aqui não é Pike Lawson. Sou eu. PIKE Eu a acolhi porque pensei que estava ajudando. Ela prepararia algumas refeições e daria uma limpada na casa. Era um acordo simples. Com o passar dos dias, porém, está se tornando tudo, menos simples. Tenho que parar de pensar nela e de prender a respiração toda vez que nos esbarramos pela casa. Não posso tocá-la, e eu não deveria querer. Quanto mais me vejo cruzando o seu caminho, mais ela se torna parte de mim. Mas não estamos livres para ceder a essa atração. Ela tem dezenove anos e eu trinta e oito. E sou pai do namorado dela. Infelizmente, os dois acabaram de se mudar para a minha casa. * BIRTHDAY GIRL é um romance contemporâneo, adequado para maiores de 18 anos.”
Os meus batimentos atingiram picos máximos enquanto eu abria e fechava a boca, com mil coisas se passando na minha cabeça. Alexander leu esse livro? Era um romance quente entre uma garota e um cara mais velho que dividiam uma casa? O sorrisinho dele quando viu a brochura na minha mão.
O dia passou em outro ritmo. Lento, com minha mente voando em direção a Alexander mil vezes, à espera de que ele retornasse, mas Theo dormiu, acordou, mamou, tomou banho e se aninhou para dormir de novo com o simples fato de ser embalado. Cuidar dele era simples e complexo ao mesmo tempo. Exigia presença inteira, e naquele dia eu estava avoada.
Quando a noite caiu, Theo já dormia profundamente. Coloquei-o no berço, ajustei a luz, fiquei alguns segundos observando seu rosto relaxado.
Desci.
A sala estava apenas com a iluminação lateral acesa. Sentei-me numa poltrona grande, as pernas dobradas sobre o assento, o livro finalmente aberto — mas não lido. Estava muito curiosa, mas não consegui ver nada cuidando do pequeno.
O tempo passou sem que eu percebesse quando comecei a ler, me sentindo ferver por dentro, cheia de curiosidade sobre como ia terminar — e principalmente o que ia acontecer no meio da história, o quão quente poderia chegar.
Ouvi a porta se abrir.
Não me levantei de imediato.
Alexander entrou devagar. O terno escuro, a gravata frouxa. O rosto cansado de quem lidou com coisas que não se resolvem com controle.
Ele me viu.
— Theo? — perguntou, baixo.
— Dormindo.
— Obrigado.
Fiz menção de me levantar.
— Pode ficar.
Parei.
Ele foi até o bar, serviu-se de uísque. Bebeu um gole curto. Depois outro.
Então, como se estivesse apenas retomando o próprio corpo, começou a desabotoar a camisa.
Um botão.
Depois outro.Como minha mente tinha imaginado mais cedo.
Meu peito apertou.
O calor da presença dele se espalhou pelo ambiente. Eu sentia como se o espaço entre nós tivesse diminuído, mesmo sem nenhum movimento físico.
Ele se virou para mim.
— Foi um dia difícil.
— Imagino.
Silêncio.
Olhou para o livro e ergueu levemente o copo no ar.
— Gostando da história?
Abri a boca. Encarei a capa e fechei-o com um baque.
— É... diferente.
Aquele sorrisinho de novo.
— É de Eleonor. Ela o contou para mim. É um dos seus favoritos. Até hoje diz que seu sonho é encontrar um homem como Pike, que se importa. Mas com tanto a estudar e trabalhar, acha que não vai ter tempo, a não ser nas páginas.
Encarei as letras grandes do título, sem saber o que dizer.
— Acho que homens assim não existem — acabei por deixar escapar, por fim.
Ele se aproximou devagar, parou na minha frente.
— Acha que não existem homens que se importam verdadeiramente?
Seus olhos me desafiavam, mas neguei com a cabeça.
Um canto da boca dele se moveu, quase um sorriso.
— Que pena. Boa noite, Clara.
— Boa noite, senhor.
Mas nenhum de nós se moveu imediatamente.
E naquele instante suspenso, eu soube:
Não era desejo descontrolado.
Era algo mais perigoso.Era o início de uma atenção mútua que nenhum dos dois estava preparado para ignorar.
Eu teria que vigiar a mim mesma.
Com muito cuidado.







